domingo, fevereiro 10, 2008

Cinema

Bola da vez


Javier Barden e seu cabelo tigelinha dão vida a um soberbo assassino

Mesmo quando apelam para o humor mais fácil, em projetos com nítido viés comercial – Matadores de velhinhas e O amor custa caro são bons exemplos – os irmãos Joe e Ethan Coen dificilmente perdem o aval da crítica. Imaginem então como é a reação desta quando a dupla resolve entregar um produto maduro, enxuto de piadas prontas e com personagens extremamente densos, no que pode ser considerado um de seus melhores longas. Falo sobre Onde os fracos não têm vez, produção que deixou a crítica de joelho, e que vem arrematando uma quantidade cada vez maior de notas máximas nos veículos especializados.

Apesar de toda reverência dos críticos, os Coen nunca foram grandes “papadores” de Oscars – só levaram a estatueta de melhor roteiro original por Fargo, em 97. Onde os fracos não têm vez tem tudo para por um fim nesta escrita, sendo favoritíssimo na premiação deste ano, exatamente uma edição depois da academia ter agraciado o também injustiçado Scorcese por Os infiltrados. O interessante é que ambos os filmes não possuem o perfil usual de ganhadores da estatueta, sendo marcados pela violência e recheados com personagens de moral duvidosa.

A violência não é nenhuma novidade do cinema dos Coen, assim como a personagens com desvios de caráter também não. Mas em Onde os fracos não têm vez os irmãos abandonam a estética estilizada que os colocava próximos de gente como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O tom sério e contemplativo do texto do escritor Cormac McCarthy – está é a primeira vez que os irmãos adaptam um texto – faz com que o conteúdo da fita situe-se em um ponto entre a caricatura e a realidade de um mundo cada vez mais violento, onde quem ainda segue as regras simplesmente “não têm vez”.


Tommy Lee Jones é um velho xerife que analisa a degradação da sociedade


O encarregado de deixar esta mensagem clara para o público é o xerife Ed Tom Bell, personagem de Tommy Lee Jones. Bell não protagoniza a história, mas torna-se uma espécie de “testemunha ocular” das atrocidades cometidas pelo assassino profissional Anton Chigurgh, em sua caçada empreendida ao cowboy Llewelyn Moss (Josh Brolin, outra grande atuação). Este teve a sorte – ou o azar – de encontrar uma maleta recheada de dólares perdida em meio ao cenário de uma chacina, e logo entrou na mira de Chigurgh. Cabe a Bell empreender uma investigação que possa ajudar Moss e a esposa a saírem com vida desta enrascada.

O problema é que os Coen não fazem concessão a um final feliz nem tentam fornecer um moral à história. Como bem diz Chigurgh para Moss, “eles sabem como aquilo irá acabar”, e diante daquela perseguição à lá gato e rato, fica claro que o desfecho não podia ser dos melhores. Embora não possua um clímax definido, Onde os fracos não têm vez funciona de forma soberba como faroeste, alternando momentos de pura tensão com reflexões sobre o caráter dos personagens. E o “velho oeste”, agora modernizado, é o cenário perfeito para uma história onde as boas ações são mal recompensadas.

Vivido por um inspiradíssimo Javier Barden, a maior barbada do Oscar deste ano, Chigurgh revela-se um sujeito frio e meticuloso, que jamais desiste ou perde o foco. Sua insanidade fica evidente logo em sua primeira aparição, quando vemos a face da loucura enquanto ele dá cabo de um guarda. O penteado tigelinha, o semblante frio e a obsessão pelo acaso de um cara ou coroa parecem saídos das páginas de um gibi, não fosse a evidente semelhança com os cada vez mais numerosos adolescentes assassinos da terra do Tio Sam.

Chigurgh se torna uma incógnita para a tese apresentada por Bell sobre os dias atuais. “O que leva um homem a agir desta maneira?”. Os Coen não oferecem a resposta, em um final que claramente irá decepcionar muita gente. Mas ao menos uma certeza nos resta quando a sessão acaba: os bons tempos ficaram para trás.


Josh Brolin precisa sobreviver à implacável caçada de Chigurgh

Um comentário:

Ricardo disse...

Cara, estou torcendo muito para que os Coen levem o Oscar... Os caras são feras, eles merecem!