sábado, abril 14, 2007

Cinema

300 horas depois


Leônidas parecido com George Bush? Não neste ângulo...

Escrevo esta crítica de 300 com um certo atraso. Praticamente todos os veículos de informação do país reservaram espaços generosos para a cobertura do longa, fisgados pela curiosidade popular em torno da presença de Rodrigo Santoro na produção, na pele do vilão (!?) Xerxes. Desta forma, minha resenha acabou desprovida do frescor das notícias quentes, pois quase tudo o que havia para ser dito da produção foi difundido aos quatro ventos. Para compensar, o tempo extra possibilitou-me fazer uma análise mais profunda sobre toda a falação em torno do longa.

Um dos aspectos que mais chamou atenção foi o grandioso esquema de marketing montado para a divulgação. É bem verdade que esse acabou “hiperbolizado” para o contexto brasileiro devido à escalação de Santoro. O ator motivou a Warner Brothers a realizar o lançamento do longa na América Latina em território tupiniquim, algo inédito para um lançamento deste porte. Antes, o México era o endereço certo deste tipo de evento.

A presença do elenco e do diretor Zack Snyder no Brasil durante a semana de lançamento proporcionou capas de revistas e matérias em telejornais, mesmo nos veículos que geralmente não oferecem destaque para o universo cinematográfico. Boa parte deles estavam interessados apenas em relatos sobre fofocas dos bastidores de Hollywood. Quando abordavam temas sobre o filme em si, a criatividade era freada pelas mesmas perguntas, sempre sobre o processo de treinamento, a adptação ao figurino e a atuação no fundo verde, com raras exceções.

Mas a febre em torno de 300 também foi ajudada pelo polêmico manifesto realizado pelo presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, que baniu o longa daquele país, acusando-o de ser uma “propaganda pró-Bush” devido a visão dado ao povo persa, em alguns momentos retratado como bestas imbecis. De fato o filme faz uma leitura pouco amistosa dos mesmos, mas atribuir isso a um discurso pró-Bush parece mais uma tentativa desesperada de um presidente cujo país atravessa severas dificuldades com a comunidade internacional. Em suma, Ahmadinejad aproveita qualquer situação para chamar a atenção do mundo, tentando assim, impedir as represálias dos EUA ao programa nuclear iraniano.

Tanto é que as declarações de Ahmadinejad trouxeram ainda mais holofotes da mídia para o longa, figurando a produção em editorias de política e atualidades. Poucos foram os que se deram conta de que o filmes é uma adaptação fidelíssima à HQ escrita por Frank Miller em 1999, portanto, antes da era Bush (Jr.). Aqueles que mencionaram o fato geralmente o fizeram de forma pejorativa, o que prova que o preconceito em torno dos quadrinhos resiste firme e forte na cabeça de boa parte dos chamados “formadores de opinião” brasileiros.

Apesar de ser fundamentado em eventos históricos, 300 em nenhum momento pretende servir como versão oficial dos fatos. Se Heródoto realizou uma obra histórica calcada na ficção, Miller optou pelo caminho oposto, nos entregando uma tradicional história de super-heróis, onde os Espartanos representam o papel de soldados perfeitos lutando contra a ameaça a liberdade. Não devemos enteder a produção de outra forma. É diversão acima de tudo, e duvido muito que qualquer pessoa em sã consciência possa traçar um paralelo entre o Leônidas heróico visto no filme, com o desprezível presidente americano.

Visualmente, o longa transpõe a HQ para as telonas, por meio de um processo semelhante ao utilizado para filmar Sin City, outra obra de Miller. Aqui volto ao tema da divulgação do filme. Interessante notar que quando anunciado, 300 parecia ser um filme que se aproveitaria do sucesso de Sin City. O elenco não era tão estrelado; Zack Snyder, embora talentoso, não tinha o renome de Robert Rodriguez ou Quentin Tarantino; a própria HQ não era tão difundida quanto Sin City. As coisas mudaram com o lançamento do primeiro trailer. O visual fantástico transformou a prévia em um arquivo viral, propagado exaustivamente pela Web. “Foi o Serpentes a Bordo que deu certo” afirmou Snyder sabiamente, referindo-se ao filme de Samuel L. Jackson, que foi sustentado pelo apoio dos fãs na Internet, mas acabou naufragando nas bilheterias por tratar-se de uma verdadeira “bomba”. Devido a rápida difusão boca-a-boca, a Warner percebeu o potencial de seu produto e tratou de inundar a maioria dos filmes do ano com diversos trailers de 300.

Snyder provou para Hollywood que é possível fazer um filme com censura 17 anos obter sucesso nos EUA. Para isso, bastam qualidade e uma propaganda inteligente e eficiente, capaz de vender o "produto" junto ao seu público. O sucesso do longa deve atrair os estúdios para este novo esquema, que prevê orçamentos menores e retorno certo graças aos nichos de mercado. Quem diria que a pioneira Hollywood demoraria tanto para adotar o famoso esquema de segmentação de mercado?

Um comentário:

Tiago disse...

E viva o marketing, salve Kotler e a segmentação de mercado AuhiAuh. Estou lembrando das aulas da UNIUBE e dando pala aqui cara. Nessa crítica (muito boa por sinal), vc toca num assunto que eu ja havia falado no meu post sobre Apocalypto: o do entretenimento pelo entretenimento. Num mundo cercado pela exacerbação da semiótica, sempre se quer dar mais significado à alguma coisa do que ela realmente tem. Senão por ignorância, apenas para aparecer, como é o caso do presidente do Irã. Todo mundo quer parecer mais inteligente ao fazer paralelos entre O Senhor dos Anéis como uma provável crítica ao capitalismo! Poxa, não estamos num regime ditatorial, e a censura, depois da internet, não existe mais. Se um cara quer falar pró ou contra alguma coisa, há espaço para ele falar, e "segmento" pra isso. Acredito sim em mensagens subliminares, e estudei sobre o assunto de forma acadêmica (como matéria do curso de publicidade), mas daí a dizer que Gerard Butler se parece com Bush, e que 300 é pró-governo atual americano, é punhetagem! Ainda bem que esse assunto não eclipsou esse grande filme, mas ainda assim, dá raiva quando vemos "críticas" falarem de tudo, menos do filme que deveriam falar. Fica aí meu apelo inflamado hehehehe.