segunda-feira, março 19, 2007

Cinema

A rainha é pop!


Após vaias, Maria Antonieta segue a passos largos para tornar-se cult.

“Era uma vez uma jovem princesa de um reino que não andava lá muito bem das pernas. Para recuperar a relevância dos bons tempos, nada melhor arranjar um casamento com o melhor partido entre os príncipes dos reinos restantes. Mamãe, a rainha, cuidou de todos os detalhes. Logo a princesinha já desfilava no enorme palácio como futura rainha. A majestade não demorou. O problema é que, como disse Lord Acton, “O poder tende a corromper”, e a princesinha transformou-se numa verdadeira bruxa, castigando seu povo sem dó ou piedade. Mas essa história precisava de um final “feliz”. Para tanto o povo se revoltou e tirou a coroa da megera. Como não queriam correr nenhum risco, aproveitaram e também separam a cabeça do pescoço da moça, para assim viverem felizes para sempre”.

É mais ou menos assim que os livros de história nos apresentam à Maria Antonieta, princesa da Áustria que acabou sendo a última monarca da França. Um retrato próximo ao das vilãs saídas de contos-de-fadas, que acabou por enraizar no inconsciente popular, sendo raramente contestado. Sofia Coppola é a mais nova tripulante a remar contra a maré. Em Maria Antonieta, seu terceiro longa, a menina-prodígio nos apresenta uma versão simpática à rainha, quase colocando-a como vítima. Obviamente, os franceses odiaram.

É claro que Sofia tinha conhecimento do vespeiro em que ela colocou as mãos, mas provavelmente não imaginava que as ferroadas seriam tão doloridas. Maria Antonieta foi vaiado em Cannes e acabou obrigado a enfrentar uma verdadeira campanha negativa, promovida por meio do empenho de críticos franceses. O impacto foi tão negativo que o longa já nasceu fadado ao fracasso de bilheterias. Mas, após uma gelada recepção em sua estréia nos Estados Unidos (o que fez a distribuidora cogitar lança-lo diretamente em DVD por aqui) o longa aos poucos se recuperou, ganhou força no meio cinéfilo e agora caminha para tornar-se “cult”.

Nada mais justo, afinal, as vaias em Cannes foram muito mais em repúdio a postura da cineasta do que pela qualidade do filme em si. Maria Antonieta é um típico filme de Sofia Coppola, o que significa dizer que ele se encontra na crista da onda do cinema contemporâneo. Apesar de falar sobre a realeza do século XVIII, a diretora não abriu mão do vocabulário “pop” que conquistou a simpatia de milhões de jovens admiradores de cinema.

Podem ser contados nos dedos o número de cineastas donos de uma narrativa tão moderna quanto a da diretora. Em Maria Antonieta, Sofia mais uma vez faz largo uso de elipses temporais, diálogos mudos (ela sabe tirar significado do simples olhar de seus atores como poucos), e grandes seqüências desdramatizadas. Kirsten Dunst se entrega completamente ao papel principal e confere um ar adolescente à protagonista, equilibrando com perfeição a petulância e inocência que caracterizam esta fase da vida. Já Jason Schwartzman rouba a cena como o Rei Luís XVI, marido pouco presente, imaturo e sem nenhum tino para as mulheres. Sua timidez (ou seria descaso?) é tão grande que ele só “consuma” o matrimônio depois de transcorridos cinco anos. E como é genial a suposta fonte de “inspiração” que Sofia atribui ao personagem para que ele tome essa iniciativa.

Também é impossível não destacar o belíssimo trabalho de fotografia de Lance Acord para o longa. Fugindo da pompa que em geral domina os filmes de época, Acord entrega um trabalho limpo e luminoso, claramente inspirado na escola pop arte. Aliás, recentemente Sofia declarou que uma de suas primeiras memórias da infância é de estar sentada no colo da Andy Warhol, quando este visitava o clã Coppola. Com certeza ele foi uma inspiração para Acord! E como não destacar a polêmica trilha sonora calcada em sucessos do new romantic oitentista. O pop de Strokes, Siuxsie e Bow Wow How não apenas conferem charme à produção, mas completam a comparação de Sofia entre a juventude daqueles dias e a da atualidade.

Maria Antonieta fala, portanto, sobre o tema preferido da diretora: a dificuldade em deixar a juventude e entrar na vida adulta. Os percalços da carreira, que começou em uma mal sucedida investida como atriz, bancada pelo papai Francis Ford, tornam o discurso da cineasta pra lá de autêntico. Detratores taxam-na vazia em conteúdo. Bobagem. Não é desmérito algum de Sofia o fato de seus filmes reflitirem tão perfeitamente as aflições da atual juventude com o mundo em que viemos. Certamente irão pintá-la como uma bruxa, mas felizmente, ela tem mais gente para protegê-la do que sua cinebiografada.

Um comentário:

Ju disse...

Nossa! Acabei de assistir o filme (piratão, hehehhehe...) Muito bom mesmo, quase tanto quanto Encontros e Desencontros!!! Legal ver uma mulher mostrar que nosso time também pode fazer filmes legais!!!