quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Cinema

Último assalto


Stallone aos sessenta anos. Alguém duvida que ele é o mais forte?

A arte imita a vida, e a máxima também vale para Sylvester Stallone. A trajetória do ator-diretor-roteirista-produtor se confunde com a de sua criação suprema, o boxeador Rocky Balboa. Ambos iniciaram carreiras desacreditados. Lutaram para se afirmar no show bizz, enfrentando, respectivamente, bordoadas de críticos e pugilistas. Provaram que o sucesso pode ser alcançado através de muita luta e dedicação.

Rocky - Um lutador (1976) personificava com perfeição o ideal do sonho americano. A identificação do público foi imediata. Um cara humilde, americano típico, que vencia na vida graças ao esforço e persistência com que ele perseguia seus ideais. O filme se tornou um sucesso de público e crítica, faturando até o Oscar de melhor filme em 1977, elevando Stallone, antigo ator de filmes pornográficos ao status de estrela de primeira grandeza.

Os anos que se sucederam à premiação reservaram bons frutos para a dupla. Enquanto as continuações do filme do boxeador mostravam o caminho de Rocky até o topo dos ringues, “Sly” se firmava como o grande nome dos filmes de ação dos anos 80 (ao lado de Arnold Schwarzenegger). Criador e criatura desfrutavam agora de fama, dinheiro e respeito.

A esta altura, Stallone já admitia que havia se inspirado em sua própria vida para dar luz às aventuras de Rocky. Ele só não poderia imaginar que o processo contrário pudesse acontecer quando decidiu dar mexida na fórmula. Rocky V (1990), mostrava o declínio do boxeador em um filme sofrível, que acabou tragando Stallone para o mesmo limbo que ele havia reservado para sua contraparte pugislista.

Foram anos sofríveis para a carreira do ator, que amargou um fracasso atrás do outro. Apenas um bom filme (Cop Land, 1997) e nenhum sucesso comercial. Prestes a ser relegado ao esquecimento, restou a “Sly” acenar um retorno de franquia Rocky. Porém, perto dos sessenta anos, ele não foi levado a sério.

Inicialmente, o roteiro seguiria de perto os passos do ex-pugilista George Foreman, campeão dos pesados aos cinqüenta anos de idade, após um bem sucedido regresso da aposentadoria. Foram anos tentando adequar o texto, que nunca conseguia agradar ao próprio autor. “Ele não parecia sincero”.

Era óbvia a resposta: faltava a vertente humana que Stallone sempre foi buscar em sua própria vida. A história deles se cruzava novamente, no exato ponto onde tudo começou. Desacreditados, Rocky e “Sly” poderiam partir para um round final para suas carreiras, sem vergonha de se fundirem em busca de redenção.

Rocky Balboa se torna um filme forte graças a este almágama. O discurso do pugilista, até certo ponto clichê, é tão sincero que e é capaz de comover até os mais desconfiados. Nesta última jornada, Rocky decide voltar a lutar para apagar a sombra do passado vitorioso, esquecer a dor da perda da esposa e reaproximar-se do filho. Stallone luta para recuperar o respeito perdido.

“Sly” demonstra habilidade e sensibilidade para encerrar a trajetória vencedora de Rocky. Como a carreira do artista irá continuar, nada melhor do que voltar as atenções para o resgate de outra franquia de sucesso. Rambo volta às telas em 2008, mas é uma pena que este último não tenha tanto em comum com seu criador.

Um comentário:

Fábio disse...

Belo texto, porém faço uma ressalva. O grande "gancho", sem qualquer trocadilho, de Rocky Balboa é simplesmente fechar uma série de filmes que ficou órfã ao término de Rocky V.

Sou grande fã da série e creio que a magia que faz com que o filme atraia tantos espectadores reside justamente na simplicidade de seus roteiros, diálogos e analogias completamente descaradas, como é possível ver em Rocky III (lutador que chega ao estrelato e acaba se deixando levar pelo novo estilo de vida, perde o que conquistou e precisar retornar as suas raízes para alcançar seu lugar ao sol, como vc bem disse clichê ao extremo), ou até mesmo em Rocky IV quando existe a tensão entre EUA e a ex-URSS (o tanque russo contra o garanhão americano).

Rocky Balboa coroa a trajetória desse personagem ao mostrar um Stallone mais centrado e carregado de trejeitos. A luta final com Antonio Tarver mostra bem isso..

Talvez partes como o treinamento para a luta final poderiam ser melhor exploradas, mas o filme cumpre o seu objetivo primário: finalizar a série e não deixar lacunas de que Rocky Balboa será sempre o reflexo de Sly dentro e fora das telas...

Grande abraço