terça-feira, fevereiro 06, 2007

Cinema

Apocalypto Now!!


Mel Gibson na direção: sinônimo de línguas exóticas e muita violência

De uns anos pra cá, muitos foram os críticos que exultaram a originalidade do cinema oriental. Não faltaram adjetivos para enaltecer as exóticas estruturas narrativas de longas como O tigre e o Dragão ou OldBoy, filmes que também ganharam o aval do público ocidental. Mas todo este frenesi acaba gerando a pergunta: o que difere aquele cinema do nosso? Seriam as experiências que estes povos vivenciam e, consequentemente, retratam em película, tão diferentes das nossas? Teriam eles realmente desenvolvido uma maneira diferente de contar histórias? Ambas as possibilidades?

Apocalypto, novo filme de Mel Gibson, pode até não abordar temas sobre a civilização oriental, mas ajuda a esclarecer a questão. O filme conta a história de Pata de Jaguar, índio pertencente a uma tribo de caçadores da América Central, que acaba sendo capturada por uma tribo maia para serem sacrificados como oferenda aos deuses, para que este providencie colheitas melhores. Durante a batalha, nosso herói consegue esconder a esposa grávida e o filho pequeno, mas acaba preso nas mãos dos agressores.

O que se vê em seguida é o mais típico filme de ação Hollywoodiano, quando Pata de Jaguar consegue escapar e passa a ser perseguido pelos seus raptores enquanto procura o esconderijo da mulher amada. Tudo acontece de forma frenética, não dando muitas oportunidades para o espectador respirar. Mesmo assim, Apocalypto é certamente um filme único, que exala frescor em sua narrativa. Mel Gibson não se preocupou em se ater aos aspectos históricos, tomando diversas liberdades criativas. Apesar disto, o longa se mostra extremamente verossímil, em boa parte por ser todo falado em iucateque, antigo dialeto maia, o que revela uma certa paixão de Gibson por línguas extintas (como visto em A paixão de Cristo, falado em aramaico) e muita coragem para realizar projetos que, não fossem a persistência e teimosia do diretor, jamais sairiam do papel.

Mas mesmo que Apocalypo fosse falado em inglês, ele ainda despontaria como uma produção atípica. Seus protagonistas não são interpretados por atores famosos e suas feições nem de longe remontam ao padrão europeizado de beleza. Rostos de pele vermelha, marcados por adereços e tatuagens, são uma atração à parte. Não deixa de ser reconfortante assistir a um longa que se dedica a apresentar um padrão de beleza tão comumente menosprezado.

A ação também ganha um contexto totalmente novo. Apesar da perseguição praticamente não possuir diálogos e transcorrer de maneira semelhante a maioria das outras perseguições já realizadas no cinema, a fuga de Pata de Jaguar se destoa das demais simplesmente porque abdica das usuais metralhadoras e rifles, para fazer uso de armar indígenas como zarabatanas, lanças e arco e flecha. Alguns utilizados de forma extremamente criativa, cativando o público.

O último diferencial que merece ser citado tem mais a ver com o fato deste filme ser dirigido por Mel Gibson do que pela abordagem da civilização maia. Novamente o diretor abusa da violência. Em nenhum momento Gibson faz concessões e nos poupa de observar degolações. crânios serem esmagados, corações arrancados, além de torturas diversas. A brutalidade também ajuda a tornar crível todo aquele ambiente. Infelizmente, o mundo real trata de nos mostrar diariamente que os seres humanos são capazes das mais diversas barbaridades.

Estou quase terminando o texto, e o leitor mais atento deve estar se remexendo na cadeira: “Ué Luis! Como este filme pode ajudar a entender a nossa fascinação pelos filmes orientais?” Apocalypto segue a estrutura habitual das histórias ocidentais, mas acaba sendo único pela pouca exposição que temas sobre a civilização maia têm em nosso dia-a-dia. Só conseguimos nos identificar com esta história porque os conceitos de família, liberdade e agressão presentes na mesma são universais na cultura humana. Portanto, se somos capazes de nos identificar com histórias de culturas tão distintas, é porque o gênero humano ainda é muito parecido. Diferentes civilizações apenas escolhem maneiras distintas de representar as mesmas idéias. Resumindo: só achamos os orientais originais porque nunca tínhamos reparado neles antes!!

Um comentário:

Ricardo Almeida disse...

Alguns dizem que Mel Gibson é um cineasta sensacionalista... Só se for porque ele faz filmes sensacionais!!!