quinta-feira, novembro 02, 2006

Cinema

Volta as origens


Volver marca o retorno de Almodóvar aos temas femininos.

Olho no relógio: 20:30! O coquetel de abertura do Festival Internacional de Cinema de Brasília 2006 estava marcado para oito da noite, mas quem comprou ingresso foi obrigado a ficar do lado de fora, espiando alguns figurões desfilarem seus modelitos fashion pelo saguão do Cine Acadmia enquanto se empanturram com vinhos e salgadinhos. É preciso garantir o conforto de gente como o governador eleito do Distrito Federal, José Roberto Arruda, justo ele, que até um mês atrás não media esforços para ser visto no meio do povão...

Mas nem mesmo todo este constrangimento foi capaz de apagar o brilho desta sessão de estréia. Após degustar alguns salgadinhos e amendoins e esperar os políticos garantirem os melhores lugares, recostei minha cabeça na poltrona e esperei a projeção começar. Antes, uma pequena apresentação sobre o festival.

O filme escalado para abrir a mostra deste ano foi Volver, do espanhol Pedro Almodóvar, antecedido pelo curta Tarantino’s Mind, de Manitou Felipe e Bernardo Dutra. Os diretores brasileiros apresentam uma tese sobre o cinema de Quentin Tarantino, onde o personagem vivido por Selton Mello costura ligações entre todos os filmes dirigidos e roteirizados pelo diretor americano. Certamente os grandes fãs de Tarantino já haviam feito algumas das associações apresentadas, mesmo assim, o curta consegue ser bem divertido quando nos depara com referências que passaram batido. Um ótimo cartão de visita para a dupla de estreantes.

Era chegada a hora da atração principal. Volver (voltar em espanhol) logo se mostra um excelente título para o novo trabalho de Almodóvar. O reencontro conturbado entre mãe e filha é também a volta do diretor ao seu habitat natural. Aqui Almodóvar se reencontra com a musa Penélope Cruz, as cores vibrantes, a vida cotidiana e, principalmente, com o universo feminino, que ele compreende como poucos. As mulheres de Volver são fortes e independentes, e mantém uma relação de desconfiança com o os homens. Todas já tiveram grandes decepções com o sexo oposto, mas Almodóvar é sutil, ao ponto de não transformar seu trabalho em mais um panfleto para a eterna guerra dos sexos.

E trabalhar novamente com o universo que lhe é habitual não fez com que Almodóvar se repetisse. Longe disto! Volver apresenta um frescor raro no cinema atual, com um narrativa fluída, calcada na tradição oral de contar histórias do povo latino. Um “que” de realismo mágico permeia a produção e o cineasta brinca com o telespectador enquanto sugere levar a história para rumos pouco convencionais, mesmo sem fazer as experimentações estruturais apresentadas em longas como Má educação. Volver é linear e o desenrolar da história se dá como nos melhores segredos de família, onde cada peça do quebra-cabeça é descoberta meio que por acaso, justificando as atitudes tomadas pelos personagens anteriormente.

E que personagens!!! Bastaram poucos minutos de projeção para que a sala, completamente lotada, se visse conquistada pelo incrível carisma daquelas mulheres! Apesar da família composta por Irene e suas filhas Raiumunda e Soledad possuir características tão ímpares, é impossível não se indentificar com a forma como elas interagem entre si. Risadas e expressões de angústia ecoavam em uníssono no cinema, só terminando ao final história, um desfecho tocante, sem ser piegas. Bem diferente da maioria das produções que permeiam o mercado. Após a projeção, palmas mais do que merecidas.

Se você perdeu a exibição de estréia, não se desespere. Volver não irá demorar a aportar no circuito convencional. Sua estréia nacional acontece no dia 10 de novembro. Mas procure não perder esta segunda oportunidade, afinal, não é sempre que podemos assistir no cinema a um filme que já nasce clássico.

Um comentário:

Renato Pena disse...

Que roubada, fui me meter!
Comprei a cópia pirata de "Volver", há uns 20 dias e até hoje, não vi o filme, dentro daquele propósito de que o DVD vai estar ali me esperando e estou sempre fazendo algo que julgo ser mais interessante para aquele momento.
O piratão é de primeira. Até acrediter ser mesmo uma cópia de segurança dos estúdios vazada na internet.
Mas é evidente que pesou contra, nas escolhas dos filmes que deveria ver no FIC. Optei por não ver Almodovar, por ter o maldito disco em casa.
Aquela história de "nem uma coisa, nem outra", isso pq tenho baixado tanta coisa da net (séries de TV, essencialmente) e vou adiando uma boa sessão de "Volver".
Por enquanto, vi o novo Ken Loach, no FIC e estou pra escrever algo a respeito. Quero ver "100 escovadas...", "CRAZY", uns brasileiros ("Céu de Suely", talvez) e ao menos dois Visconti (queria saber quais os filmes do programa terão exibição em película - o Correio diz que tem sessões digitalizadas, mas não falou quais, pra gente evitá-las).
Enfim, voltarei para comentar sobre o FIC e o "Volver". Voltarei.