
O protagonista, Walt Kowalski, é um veterano da guerra da Coreia que acaba de perder a esposa. Típico exemplar do americano branco cristão, em alguns momentos ele aparenta ser não mais que um estereótipo: não gosta de imigrantes; acha que a mulher deve ser subverniente ao homem; não compreende os jovens e tampouco se conforma com a decadência americana configurada nos últimos anos. O cinéfilo mais atento certamente sabe que essas são adjetivações recorrentes no cinema de Clint. E o próprio Kovalski mais parece uma mistura de outros personagens encarnados pelo diretor. Estão lá facetas do justiceiro Dirty Harry, do treinador-tutor Frankie Dunn (Menina de ouro), do caubói descrente Bill Munny (Os imperdoáveis), entre outros.

"Não, não Thao, você não é o Menino de ouro!!!"
Kowaski é o último de sua leva em um bairro dominado por imigrantes orientais. A família o considera um velho rabugento, e não esconde a ansiedade em o ter debaixo da terra. Sozinho, ele só tem alento nas tarefas rotineiras, que incluem jardinagem e cuidar de sua relíquia automotiva, um Gran Torino 1972 original. Não que ele quisesse alguma proximidade dos vizinhos, que ele despreza. O problema é estes passam a vê-lo como herói depois que ele salva os irmãos Sue e Thao de gangues do bairro. Aí a história ganha contornos parecidos com os vistos em Menina de ouro. Sue torna-se uma inusitada amiga, graças à coragem e petulância da garota em confrontar Walt – como a boxeadora Maggie Fitzgerald do longa supracitado. Thao transforma-se em pupilo, última esperança de Walt em criar um descendente que honre os valores nos quais acredita.
Gran Torino constrói-se nessa necessidade mútua de Thao e Walt, em que um precisa de uma figura paterna e o outro de uma nova chance para criar um filho. Tal qual Menina de ouro. Trama e personagens podem não ser originais na filmografia do cineasta, mas o maior mérito de Clint como diretor não é surpreender. Seu talento reside em saber contar uma história em todas as suas nuances, na mise en scène apuradíssima, nos pequenos detalhes e na incrível dedicação em tornar suas narrativas as mais verdadeiras possíveis. Eastwood surpreende sim, mas pela perseverança, pois, perto dos oitenta anos, não mostra sinais de preguiça ou de ego inflado, mas sim uma incrível dedicação aos pequenos detalhes e diferenças que tornam cada obra única e relevante.