quarta-feira, março 11, 2009

Cinema

Em celulóide


A "adptação impossível" é muito boa, mas não é perfeita.

Wacthmen, a HQ, é uma obra especial para mim. Tanto que passei os últimos três dias queimando neurônios no afã de encontrar a melhor forma de começar esta resenha sobre Watchmen – O filme. Caso tivesse embarcado na empreitada instantes depois da sessão, iniciaria atacando o diretor Zack Snyder, por omitir algumas das partes que mais gostava no quadrinho. No dia seguinte, sábado, já tendo esfriado um pouco a cabeça, adotaria um tom mais ameno: o de decepção, pois filme não representará para o cinema aquilo que representa para os quadrinhos. Na segunda-feira, com tudo melhor digerido e após muita reflexão, enalteceria a coragem de Snyder em adaptar para a telona um texto tão complexo e de pouco apelo comercial. E de forma bastante fidedigna.

Agora me parece claro que Snyder se sairia melhor na função de produtor do longa. Não que ele seja um diretor ruim, não é este o caso. A questão é que o estilo caricato dele não combina com o clima realista e reflexivo da HQ em vários pontos. Um bom exemplo é a cena em que Walter Kovacs explica como se tornou Rorscharch. Nela, Snyder faz uso do seu habitual gosto pela violência crua e gráfica ao colocar o herói matando o bandido à machadadas, em momento digno de Jason Vorthes – ou seria Chucky, o brinquedo assassino? No original, Rorscharch queima o bandido e observa a cena de longe.

A crueldade do quadrinho é a mesma – quem sabe até maior – porém, na HQ a cena nos é apresentada com sutileza. Não há a preocupação em mostrar um corpo humano se desfazendo em chamas. A atenção é centrada no olhar do anti-herói,
frente ao fogo, distanciado, o que aumenta o impacto da transformação do homem comum com uma máscara em um novo ser, que julga entender a maldade humana e saber como lidar com esta. Como esperar que o público reflita sobre algo do tipo quando a versão de Snyder arranca risos da platéia?


Cenas como essa dizem muito sobre a profundidade de Watchmen.

Snyder provou que a história de Watchmen cabe em um filme. É verdade que algumas passagens fizeram falta, principalmente para alguém que já perdeu as contas de quantas vezes leu o original, mas a essência da narrativa foi preservada. Graças à postura de fã adotada pelo diretor, que batia o pé cada vez que os executivos almejavam mudar o contexto, almejando ganhar a simpatia do espectador médio.

Watchmen não foi concebido para tal público, e Snyder sempre soube disso. Mesmo fãs de gibis mais tradicionais já torciam o nariz para toda aquela profundidade, um universo no qual é difícil determinar as fronteiras entre bem e mal, esquerda e direita, humano e divino, só pra citar algumas. Dessa forma, nada melhor do que ver essa história contada por um diretor que também fugisse da média. Alguém com traços mais “kubrickianos” e que não se perdesse nos detalhes. Aronofsky talvez? Não sei. O certo é que Snyder ainda não está nesse patamar (visionário? só para o departamanto de marketing da Warner). Admirador e bom-entendedor do quadrinho que é, ele deveria ter percebido e admitido isso, entrado no projeto como produtor para garantir a fidelidade e encontrado alguém com estilo mais próximo à essência do texto de Alan Moore. É claro que versão é vesão, cada um faz a sua, e agora não adianta chorar. Nem é preciso, uma vez que o trabalho de Snyder é, de fato, bem aceitável – em sua maioria, transposição literal. Um filme nota 7 (talvez 8 com a versão estendida) de 10. Fidelidade por fidelidade, sejamos fiéis à HQ, que é nota 11!


"Aí gata, curtiu o filme? Que tal agora batermos em alguém pra relaxar?"

2 comentários:

Glayce Santos disse...

Ah não, entrei aqui pra dizer que aguardo vc no msn, que vc é uma graciiiiiiiinha, que adorei falar contigo no msn, mas comentar sobre o post, não dá não! rs Desculpa!
Eu tenho sérios problemas com ficção forçada...=P Não gosto mesmo!

Beijãããão

Tiago Silva Resende disse...

É... não li a HQ, mas entendo que adaptar não é transcrever. Como são mídias diferentes, é inevitável que o filme deixe de lado momentos que os fãs acreditam que sejam excepcionais (e todos os momentos são excepcionais para os fãs). Mas eu li a crítica publicada na Veja sobre o filme, depois o assisti, e concordei com a revista: faltou emoção! Mas eu digo o porquê (no meu ponto de vista): a obra impressa tem espaço em primeiro plano para divagações intelectuais e elucubrações filosóficas, e o que deve ficar em primeiro plano em uma obra cinematográfica???? Um doce para quem adivinhar! Emoção... (só como exemplo, JFK de Oliver Stone: informação, informação, informação, teoria da conspiração, e emoção lááááááá no final da lista de prioridades, o que torna o filme um saco!). Nós só começamos à sentir a estória, e a nos emocionar, do meio para frente. E sabe o porquê? (agora é uma alfinetada em vc que não gosta de Syd Field) Porquê o filme passa à se encaixar nos paradigmas. A última hora do filme é um filme em si, e a primeira hora uma espécie de introdução ao universo/cenário/personagens. Técnicamente impecável, sem duvida. Fotografia, arte, som, trilha, DECUPAGEM (FODA) excelentes, mas faltou um quêzinho de emoção. Tlvz, se estivessem "paradigmado" desde o início...... : )