
Trata-se de um tema pra lá de atual. Um
dia após o “Super Bowl”, quem aqui não viu em sua timeline algum amigo/conhecido posando como fanático por futebol
americano? Nada contra o esporte, até divertido de ver, mas tudo contra a
tentativa forçada de alguns em se aproveitar do episódio para se passar por
norte-americano. Tentando soar descolados e em sintonia com o restante do mundo,
perdemos a noção do ridículo. Pra que soar autêntico se o mundo a nossa volta
prefere, em alto e bom som, os clichês?
“Birdman” hiperboliza esse cenário nos
entregando uma série de estereótipos. Riggan Thonson (Michael Keaton, no papel
de sua vida) é o protagonista, ator decadente que teve os dias de glória vinte
anos atrás, quando estrelou a trilogia do herói dos quadrinhos Birdman, e que
agora busca reconhecimento artístico adaptando (e estrelando) para a Brodway o
conto “Do que Estamos Falando Quando Falamos de Amor”, de Raymond Carver. Impossível
pensar em enredo mais batido.
Iñárritu reserva clichês também para
os coadjuvantes: Edward Norton dá vida a Mike Shiner, caricatura do artista incorruptível
com alma de enfant terrible; Emma
Stone é Sam, a filha problemática que, apesar do passado junkie, ainda é
suficientemente eloquente para fazer as vezes de grilo falante; Lindsay Duncan
encarna Tabitha, crítica impiedosa que sente prazer em massacrar o popular e é
temida por todos.
Para reforçar o discurso “fake”, Iñárritu
força a mão em exercícios de metalinguagem. A montagem em plano sequência, sem
quase nenhum corte aparente, além de passar a ideia de continuidade de uma peça
de teatro, é em si própria um exagero virtuosístico, tão pretensiosa quanto as
ambições dos personagens. Em certa cena, a bateria jazzística que comanda a
trilha sonora chega a invadir (literalmente) o ambiente, quase que como num
recado explícito: “é tudo ‘de mentirinha’, agora me deixem seguir ‘ditando o
ritmo’” (com o perdão da expressão).
Até a escolha do elenco é carregada de
significado. Keaton teve o seu auge como o Batman de Tim Burton e está tentando
com este “Birdman” retomar a relevância. Norton é outro que interpreta a si
mesmo, já famoso por desentendimentos com diretores e estúdios devido a sua
vaidade artística.
Com ingredientes como esses, a receita
de “Birdman” tende a não agradar a qualquer paladar. Nem todo mundo tem gosto
pela farsa, ainda mais quando a proposta é farseá-la ao quadrado. Para quem
gosta, Iñárritu entrega um prato cheio. Indulgente? Sim, mas exatamente como o cardápio
aqui pede.
Nenhum comentário:
Postar um comentário