
Verdade que muitos foram protestar contra alvos bem definidos: os
favoritos, de longe, Marco Feliciano e Renan Calheiros. Outros tantos foram
gritar contra tudo e todos, do Estado à iniciativa privada, passando pela
imprensa. Os mais exaltados desse último grupo estavam ávidos por passar por
cima de algo, fosse o que fosse. Como não foi possível tomar o Congresso
Nacional, romperam contra o Itamaraty, mas poderia ter sido um ministério, uma
van da imprensa ou lojas de grife, se elas ali estivessem.
A opção pelo Itamaraty foi matemática. Além de ser o alvo mais próximo
(pelo menos do lado em que eu estava), era certamente o que renderia mais flashs. Paradoxal que, em meio a gritos
de fora Rede Globo, o sonho de muitos ali fosse aparecer no Jornal Nacional
(ou, na pior das hipóteses, "bombar" no Instagram). Tiveram seus
quinze minutos de fama.
Hipocrisia querer creditar o ato vazio e idiota à direita ou à
esquerda. "Sem partido", todos já devem saber, é o mote da vez, tendo
sido entoado junto a uma série de outros refrões espirituosos.
Mas não foi tudo em vão. Ficarão na memória os coros pedindo que tudo
transcorresse "sem violência" e "sem vandalismo", bem como
a solidariedade do vinagre - sim, ele aplaca a ardência provocada pelo gás
lacrimogêneo -, repassado de mãos em mãos em meio a fugas até certo ponto
ordenadas. "Sem correria, pessoal", ouvia-se enquanto bombas caiam e
a tropa de choque avançava, em surpreendente demonstração de autocontrole, que,
infelizmente, faltou a parte dos ali presentes.
O que fica de bom da experiência? A percepção de que uma geração
injustamente tida como acomodada está em ebulição.
Foto: Gustavo Froner/Reuters
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