Personificação inoxidável!
Downey Jr. dá vida a melhor transposição de um super-herói para o cinema

E para quem achava que tal fórmula já tinha saturado, a Marvel mostra que a era dos heróis no cinema pode estar, quem diria, apenas começando. Homem de Ferro é o primeiro filme completamente bancado com recursos da editora – agora também estúdio – propiciando um tratamento mais cuidadoso com o personagem, o que na prática significou bancar decisões que certamente seriam barradas por um estúdio parceiro. É o caso da escolha de Robert Downey Jr. para o papel principal. Embora hoje saibamos tratar-se de uma escalação perfeita, verdadeira encarnação do vingador dourado em celulóide, Downey Jr. não parecia ser o nome mais indicado quando o projeto ainda estava no papel. Um ator reconhecidamente de filmes, digamos, de viés artístico e pouco comercial, e que nunca havia participada de um projeto tão grande era uma aposta muito arriscada. Somente quem conhecia muito bem o produto que tinha em mãos poderia fazê-la.
Além da semelhança física entre ator e personagem ou mesmo da trajetória de vida desses dois assumidos beberrões, Downey Jr. tinha algo mais para emprestar ao seu Tony Stark: uma alma. Consciente de que esta era sua grande e talvez derradeira oportunidade para desfilar entre as estrelas de primeiro escalão, o protagonista não se contentou em criar um Tony Stark, tornando-se o próprio. Em cada tirada cômica do ótimo roteiro – e são muitas – na canastrice típica de um playboy milionário de meia idade ou na interação com os ótimos Jeff Bridges e Gwyneth Paldrow, Downey Jr. mostra que o filme é dele. Consciente disso, o diretor Jon Favreau trata de construir a atmosfera perfeita para o astro brilhar, garimpando o melhor da origem do Homem de ferro dos quadrinhos, modernizando tudo para o século XXI para criar uma história alicerçada na atual política econômica americana, mas sem as amarras de um didatismo que poderia comprometer o ritmo da história.

Gwyneth: "Eu sei que sou coadjuvante, mas isso não é demais?"
Para quem não o conhece da versão em quadrinhos – e imagino que não sejam poucos – Tony Stark é um super-gênio da ciência, dono da competência de um Professor Pardal mesmo quando a situação o obrigue a trabalhar com menos do que McGyver gostaria de dispor. Herdeiro de um gigantesca corporação armamentista, Stark se define como um patriota, homem que sente orgulho por produzir máquinas de destruição que fomentam o “american way of life” e disseminam a ideologia de Bush pelo mundo. É claro que isso é o mais longe da definição de “herói”, mas não o culpem. Como não ser alienado com tanto dinheiro, uma garrafa de whisky na mão e uma modelo capa da Maxin na outra?
Tudo muda quando o figurão é seqüestrado por rebeldes afegãos que querem obrigar Stark a dar um upgrade em seus armamentos. Ao constatar ter sido emboscado com a ajuda do armamento que produz, Stark percebe que, ao contrário do que ele sempre imaginou, suas armas não são invenções a serviço da liberdade, mas daqueles que pagam mais. Com o pouco que tem em mão o inventor decide dar uma guinada radical em sua vida, construindo algo que possa de fato fazer a diferença para um mundo melhor. Ou pelo menos que o possibilite figurar com pose de super-herói por entre o público feminino, pois Homem de ferro é um perfeito exemplar de filme de super-herói, com bem e mal perfeitamente definíveis, mas com fatores motivacionais menos altruístas, que escapam ao maniqueísmo habitual do estilo.
E como não poderia deixar de ser, o filme possui excelentes cenas de ação