quinta-feira, maio 21, 2009

Cinema

De que lado você está?


Enquanto Wolverine advoga em nome da ação descerebrada...

Dois filmes, uma proposta. X-MEN: Origens – Wolverine e Star Trek iniciaram a temporada de blockbusters de verão com objetivo único: garantir mais alguns milhões de dólares aos seus estúdios por meio de franquias já consolidadas. Mas embora os fins fossem os mesmos, os meios empregados se mostraram bastante distintos. Enquanto o filme protagonizado pelo nervoso mutante canadense – pra lá de ruim representa um claro retrocesso para a franquia “X”, Star Trek desponta como a ressurreição de um mito há anos dado como “morto”.

Uma análise dos números das bilheterias das duas produções propicia um olhar curioso a respeito da “dualidade” mercadológica que atualmente toma conta de Hollywood. Wolverine aposta em um roteiro de ação ininterrupta e descerebrada, visando claramente o público adolescente. No começo, a receita deu certo – foram arrecadados aproximadamente 87 milhões de dólares no fim de semana de estréia. Foi o bastante para que a Fox, preocupada com que tais números fossem prejudicados pelo vazamento prévio do filme na Internet, respirasse aliviada, assegurando também uma continuação. O estúdio só não contava que as péssimas críticas e o boca-a-boca negativo fizessem os números desabarem nas semanas seguintes – queda de quase 70% na primeira semana, acrescidos de mais um rombo de 44% na semana posterior.

Por sua vez, Star Trek apostou em uma fórmula que equilibra ação e conteúdo. O longa de JJ. Abrams honra a memória da série, consagrada pela narrativa amplamente amparada na ciência de ponta. Esse conteúdo, até certo ponto sofisticado, não espantou a audiência. No final de semana de estréia, a produção da Paramount faturou gordas 76 milhões de verdinhas. Diferentemente do longa da Fox, Star Trek foi exaltado pela crítica e ajudado pela propaganda positiva feita por quem já lhe havia assistido. Com isso, Trek teve uma queda menor de bilheteria em sua segunda semana em cartaz do que o filme do “carcaju” – apenas 43%, o que deve fazer com que a arrecadação total de Trek supere a de Wolverine até o vindouro fim de semana –, algo que amplia o debate em torno de quão “sofisticado” devem ser os novos arrasa-quarteirões.

... Star Trek defende que uma trama deve ter algo além de explosões.

Em uma sociedade onde jovens recebem uma gigantesca carga de informação providenciada por games, Internet, quadrinhos, música e todo o tipo de entretenimento, é de se espantar que o cinema ainda considere fazer sucesso com filmes que não possuem preocupação mínima com um enredo. Ora, simples escapismo está atualmente acessível na palma da mão, basta ter um celular um pouco acima da média. Imaginem então o que faz uma jovem com um bom computador e uma Internet de alta velocidade! Violência, sexo, efeitos especiais e uma trilha sonora pra tudo isso de graça, com a vantagem de, em muitos casos, poder interagir diretamente com a mensagem.

Está na hora do cinemão americano repensar seu modus operandi. Não foi a primeira vez que um filme pipoca de roteiro mais elaborado que o usual dominou as bilheterias. O argumento único da “experiência sensorial” proporcionada pela tela grande não resistirá muito tempo face à escalada tecnológica da alta definição dos home theathers. É preciso garantir um retorno maior ao espectador que se dispõe ir ao cinema. Algo que transcenda as duas horas de exibição. Em suma, é preciso conteúdo. Que os roteiristas se preparem, pois a onda do cinema cabeça chegou para ficar.

sexta-feira, maio 15, 2009

A vida como ela é

A nova ordem musical


AC/DC não tem tudo a ver com MC Créu e Mulher Melancia?

Não, não, não. Estou vivo e bem. Meu sumiço se deve ao fato de ter embarcado em um novo emprego. Estudar e trabalhar não deixam muto tempo para atividades "bloguistícas".

Escrevo para contar um episódio curioso que aconteceu comigo, ontem, enquanto voltava para casa de ônibus. Duas "patricinhas" adolescentes sentaram atrás de mim e começaram a fofocar, em alto e bom som, para que todo mundo ouvisse sobre as incríveis desventuras amorosas que preenchiam a vida delas. Era um "já peguei" pra cá, um "esse eu pegava" pra lá, quando de repente, elas resolvem colocar uma musiquinha no celular: como desgraça pouca é bobagem, um funk bem tosco, mais uma vez em ALTO e bom som.

Refleti com meus botões: "A molecada realmente gosta disso? Ninguém mais tem bom gosto nessa faixa etária?". Enquanto isso, o assunto das meninas desviava o foco. Passaram a falar sobre música, criticando as preferências de um colega emo. Subitamente, elas providenciaram a surpresa do dia, ao argumentarem o porquê da desaprovação do estilo do colega:

– Se ele pelo menos curtisse um rock bacana, tipo Guns ou AC/DC...

Peraí... Eu entendi certo? As garotas "funkeiras" curtem AC/DC? Será que estou tão velho assim para compreender a miscelênia por trás dos gostos musicais da nova geração? O que vocês acham?

quarta-feira, abril 22, 2009

Brasil

Singela homenagem


Ministro Joaquim Barbosa, um GRANDE brasileiro!

quinta-feira, abril 16, 2009

Cinema

Sparring da vez


Ao lado de Eva Mendes, quem não ficaria convencido?

Quem frequenta este blog há algum tempo já percebeu que sempre arrumo um espacinho para resenhar adaptações de quadrinhos. O motivo é simples: bem antes de me interessar seriamente por cinema, era ávido leitor de HQ’s. E como todo bom fanboy (vá lá, perdoem-me, qual adolescente não foi um?), tinha o meu próprio roteirista herói, o ídolo supremo, o cara no qual me espelharia quando crescesse. O nome da figura? Frank Miller.

Não posso precisar o que me atraiu no estilo de Miller logo de cara. Cada vez que lia seus trabalhos, encontrava novas qualidades, o que pode fazer a memória me trair. Sei que hoje admiro a concisão do texto, os ótimos diálogos, a criatividade dos roteiros e a capacidade dele em narrar tão bem na primeira pessoa, mediante toneladas de recordatórios. Estilo que passava uma sensação de realidade que eu jamais vira antes nos quadrinhos. Os pensamentos e avaliações dos personagens do Demolidor roteirizado por Miller fluíam com tamanha naturalidade que se confundiam aos meus.

Os anos passaram e descobri o cinema e, com este, Quentin Tarantino. Lembro-me que de cara encontrei muita similaridade entre o estilo do cineasta e o do quadrinhista. Tarantino emulava Miller, traduzindo tudo aquilo pelo qual me apaixonara durante a adolescência para a telona. O que não significava tratar-se de uma cópia, pois o diretor o fazia com estilo próprio, que rapidamente passei a admirar. Tão logo assisti a Pulp Fiction, pensei ser Tarantino a pessoa certa para adaptar a obra de Miller para o cinema. Nas discussões com os amigos, argumentava sempre que ele deveria dirigir Sin City. A medida exata! Imaginem então o tamanho da minha empolgação quando soube que ele e Robert Rodriguez iriam, de fato, realizar Sin City, e mais, com Miller a tiracolo.


The Spirit é ruim, mas dá para assistir. O bichano é simpático!!!

Naquele momento, percebi que uma trajetória cinematográfica seria inevitável na carreira de Miller. Sin City foi o sucesso que esperava e 300 gerou burburinho ainda maior, embora entre as obras de Miller, esta não seja uma de minhas favoritas. O próximo passo foi deixá-lo dirigir um filme por sua própria conta, e ele optou por The Spirit, adaptação da obra de Will Eisner, ídolo do Miller quadrinhista.

Colocá-lo no banco de diretor não me surpreendeu, tampouco a pronta aceitação por parte dele. Miller era visto como promessa em Hollywood, status bem diferente daquele que ostentava na indústria de quadrinhos à época. Nesta, seus trabalhos mais recentes variavam entre os incompreendidos por público ou crítica (All star Batman) e os de má qualidade (O Cavaleiro das trevas 2). Era consenso que os quadrinhos já não fascinavam Miller como antigamente. Quem sabe ele não encontraria no cinema nova vazão para seu talento...

O problema é que, contra ele, havia uma legião de ex-fãs e críticos ansiosos por um fracasso. Ninguém engolira bem a sátira que Miller fazia do atual mercado dos quadrinhos em All Star Batman, e muitos acharam petulante a decisão do autor de desembarcar em Hollywood, principalmente porque Alan Moore, o outro “papa dos quadrinhos”, faz questão de dar 500 entrevistas por semana repudiando toda a indústria cinematográfica americana. Miller ainda tratou de agravar o quadro, adotando uma postura insuportavelmente blasé durante entrevistas e convenções, portando-se como gênio supremo. Parecia ter saído há pouco de um mergulho de cabeça no mais fundo poço do pedantismo...

E por essa postura, muito mais do que pela qualidade de seu trabalho, Miller pode estar dando adeus ao sonho hollywoodiano. The Spirit fracassou com público e crítica, embora o filme não seja tão ruim quanto muitos pregam. É, sim, uma obra bem fraca e repleta de passagens constrangedoras, mas ali salvam-se um ou outro momento nos quais brotam faíscas do talento do Miller de outrora. O que não serve de álibi para meu antigo ídolo. Frank Miller alçou o posto de saco de pancadas da vez, e ninguém parece querer maneirar nos golpes. Um tombo que pode muito bem ajudá-lo a colocar a cabeça no lugar, servindo inclusive como motivação. Resta saber como estará a boa vontade do público para a próxima investida do artista, seja no cinema ou nos quadrinhos.


The Spirit: ótimo pretexto para postar outra foto da Scarlett... Ai, Ai!

sábado, março 28, 2009

Cinema

Em time que está ganhando...


Eastwood com um trabuco na mão: cena emblemática do cinema ianque

Sempre me impressiona o fato de Clint Eastwood conseguir emendar bons lançamentos em espaços tão curtos de tempo. Como aos melhores vinhos, a idade tem feito bem ao velho caubói. Seus últimos filmes conseguem sempre figurar entre os melhores lançamentos do ano e, o mais impressionante, entre os melhores da carreira do próprio. Porém, o mais instigante nessa história toda – pelo menos para mim – é o fato de Eastwood conseguir nos surpreender mesmo sendo extremamente redundante em suas obras. Gran Torino, novo longa do diretor, talvez seja o melhor exemplo disso.

O protagonista, Walt Kowalski, é um veterano da guerra da Coreia que acaba de perder a esposa. Típico exemplar do americano branco cristão, em alguns momentos ele aparenta ser não mais que um estereótipo: não gosta de imigrantes; acha que a mulher deve ser subverniente ao homem; não compreende os jovens e tampouco se conforma com a decadência americana configurada nos últimos anos. O cinéfilo mais atento certamente sabe que essas são adjetivações recorrentes no cinema de Clint. E o próprio Kovalski mais parece uma mistura de outros personagens encarnados pelo diretor. Estão lá facetas do justiceiro Dirty Harry, do treinador-tutor Frankie Dunn (Menina de ouro), do caubói descrente Bill Munny (Os imperdoáveis), entre outros.


"Não, não Thao, você não é o Menino de ouro!!!"

Kowaski é o último de sua leva em um bairro dominado por imigrantes orientais. A família o considera um velho rabugento, e não esconde a ansiedade em o ter debaixo da terra. Sozinho, ele só tem alento nas tarefas rotineiras, que incluem jardinagem e cuidar de sua relíquia automotiva, um Gran Torino 1972 original. Não que ele quisesse alguma proximidade dos vizinhos, que ele despreza. O problema é estes passam a vê-lo como herói depois que ele salva os irmãos Sue e Thao de gangues do bairro. Aí a história ganha contornos parecidos com os vistos em Menina de ouro. Sue torna-se uma inusitada amiga, graças à coragem e petulância da garota em confrontar Walt – como a boxeadora Maggie Fitzgerald do longa supracitado. Thao transforma-se em pupilo, última esperança de Walt em criar um descendente que honre os valores nos quais acredita.

Gran Torino constrói-se nessa necessidade mútua de Thao e Walt, em que um precisa de uma figura paterna e o outro de uma nova chance para criar um filho. Tal qual Menina de ouro. Trama e personagens podem não ser originais na filmografia do cineasta, mas o maior mérito de Clint como diretor não é surpreender. Seu talento reside em saber contar uma história em todas as suas nuances, na mise en scène apuradíssima, nos pequenos detalhes e na incrível dedicação em tornar suas narrativas as mais verdadeiras possíveis. Eastwood surpreende sim, mas pela perseverança, pois, perto dos oitenta anos, não mostra sinais de preguiça ou de ego inflado, mas sim uma incrível dedicação aos pequenos detalhes e diferenças que tornam cada obra única e relevante.

quarta-feira, março 11, 2009

Cinema

Em celulóide


A "adptação impossível" é muito boa, mas não é perfeita.

Wacthmen, a HQ, é uma obra especial para mim. Tanto que passei os últimos três dias queimando neurônios no afã de encontrar a melhor forma de começar esta resenha sobre Watchmen – O filme. Caso tivesse embarcado na empreitada instantes depois da sessão, iniciaria atacando o diretor Zack Snyder, por omitir algumas das partes que mais gostava no quadrinho. No dia seguinte, sábado, já tendo esfriado um pouco a cabeça, adotaria um tom mais ameno: o de decepção, pois filme não representará para o cinema aquilo que representa para os quadrinhos. Na segunda-feira, com tudo melhor digerido e após muita reflexão, enalteceria a coragem de Snyder em adaptar para a telona um texto tão complexo e de pouco apelo comercial. E de forma bastante fidedigna.

Agora me parece claro que Snyder se sairia melhor na função de produtor do longa. Não que ele seja um diretor ruim, não é este o caso. A questão é que o estilo caricato dele não combina com o clima realista e reflexivo da HQ em vários pontos. Um bom exemplo é a cena em que Walter Kovacs explica como se tornou Rorscharch. Nela, Snyder faz uso do seu habitual gosto pela violência crua e gráfica ao colocar o herói matando o bandido à machadadas, em momento digno de Jason Vorthes – ou seria Chucky, o brinquedo assassino? No original, Rorscharch queima o bandido e observa a cena de longe.

A crueldade do quadrinho é a mesma – quem sabe até maior – porém, na HQ a cena nos é apresentada com sutileza. Não há a preocupação em mostrar um corpo humano se desfazendo em chamas. A atenção é centrada no olhar do anti-herói,
frente ao fogo, distanciado, o que aumenta o impacto da transformação do homem comum com uma máscara em um novo ser, que julga entender a maldade humana e saber como lidar com esta. Como esperar que o público reflita sobre algo do tipo quando a versão de Snyder arranca risos da platéia?


Cenas como essa dizem muito sobre a profundidade de Watchmen.

Snyder provou que a história de Watchmen cabe em um filme. É verdade que algumas passagens fizeram falta, principalmente para alguém que já perdeu as contas de quantas vezes leu o original, mas a essência da narrativa foi preservada. Graças à postura de fã adotada pelo diretor, que batia o pé cada vez que os executivos almejavam mudar o contexto, almejando ganhar a simpatia do espectador médio.

Watchmen não foi concebido para tal público, e Snyder sempre soube disso. Mesmo fãs de gibis mais tradicionais já torciam o nariz para toda aquela profundidade, um universo no qual é difícil determinar as fronteiras entre bem e mal, esquerda e direita, humano e divino, só pra citar algumas. Dessa forma, nada melhor do que ver essa história contada por um diretor que também fugisse da média. Alguém com traços mais “kubrickianos” e que não se perdesse nos detalhes. Aronofsky talvez? Não sei. O certo é que Snyder ainda não está nesse patamar (visionário? só para o departamanto de marketing da Warner). Admirador e bom-entendedor do quadrinho que é, ele deveria ter percebido e admitido isso, entrado no projeto como produtor para garantir a fidelidade e encontrado alguém com estilo mais próximo à essência do texto de Alan Moore. É claro que versão é vesão, cada um faz a sua, e agora não adianta chorar. Nem é preciso, uma vez que o trabalho de Snyder é, de fato, bem aceitável – em sua maioria, transposição literal. Um filme nota 7 (talvez 8 com a versão estendida) de 10. Fidelidade por fidelidade, sejamos fiéis à HQ, que é nota 11!


"Aí gata, curtiu o filme? Que tal agora batermos em alguém pra relaxar?"

sexta-feira, março 06, 2009

Cinema

Cosmética da fome


Danny Boyle pasteuriza a pobreza a ponto de transformá-la em diversão?

Excelente a crítica Pablo Villaça sobre Quem quer ser um milionário?. Ele insere o longa de Danny Boyle no conceito da "cosmética da fome", várias vezes utilizada para rechaçar algumas produções nacionais. A análise de Pablo sai, até certo ponto, defasada - quase todo mundo já tinha escrito algo sobre o filme -, provando que, quase sempre, o tempo é aliado do crítico. De nada adianta se esforçar para ser o primeiro a postar impressões sobre uma obra se estas não vão além de obviedades. Também é curioso notar que muitos dos que aplaudem Quem quer ser um milionário? reclamam da produção cinematográfica brasileira, que insiste em mostrar o que o Brasil tem de pior... Coincidência?

O link para a crítica do Pablo.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Cinema

Timing preciso


Seria Danny Boyle tão sortudo quanto Jamal?

O sucesso Quem quer ser um milionário? se deve:
a) à perfeita noção de timing de Danny Boyle e da Fox Searchlight, que apostaram em um filme de temática otimista prevendo a atual crise mundial e o desejo de mudança que ecoaria nos EUA e se expandiria pelo globo;
b) à percepção de que a cultura indiana estava prestes a “bombar” no ocidente, a ponto de servir como pano de fundo para a novela das oito global;
c) à abordagem semi-documental da vida das favelas, aos moldes de
Cidade de Deus, já devidamente consagrada pela crítica; com direito a uma pasteurização na crueza e ao “bom, velho e compreensível” idioma de Shakespeare;
d) ao destino.

Ok. Admito que forcei um pouco a barra para iniciar minha crítica sobre
Quem quer ser um milionário?. O filme não é só isso, possuindo, sim, qualidades. Mas, embora o clichê “Filme certo, na hora exata” soe um tanto reducionista, não há definição melhor para explicar o sucesso desse longa. Quem quer ser um milionário? obteve vitórias esmagadoras na maioria das premiações da temporada, inclusive no Oscar, onde levou 8 estatuetas. Também foi bem recebido pela grande maioria da crítica (94% de aprovação no Rotten Tomatoes!), mas de forma alguma se trata do clássico que alguns tentam pintar. É certo que o sucesso o colocará nos anais da história, mas é bem possível que no futuro as pessoas se lembrem dele muito mais pelo papel de divisor de águas, colocando Hollywood em direção a histórias mais otimistas que as vistas nos últimos anos, permeados por filmes sombrios. Mudança que não necessariamente significará melhores filmes, pois estes são bons ou ruins, sendo otimistas ou não.



Nada como uma "pura" brincadeira infantil para conquitar a platéia

Quem quer ser um milionário? é muito bom durante sua metade inicial, caindo em qualidade no segmento final. Culpa da montagem impactante, que, para conquistar o público de cara, concentrou todas as surpresas e inovações narrativas no início. Entender o que se passa com Jamal logo após ele ter ganho 10 milhões de rúpias em um derivado indiano do Show do milhão cria um suspense inesperado. Também é fascinante descobrir como o jovem pobre, órfão e favelado sabia as respostas que o levaram a um prêmio do qual nem mesmo “doutores” chegaram perto. O ótimo elenco infantil também ajuda, uma vez que a infância dos órfãos Jamal, Salim e Latika é o centro das atenções nessa parte da história. Apesar de sofrida, essa fase da vida dos protagonistas possui um charme encantador, exalando um frescor narrativo que captura o público.

Mas aí chega a adolescência e o início da vida adulta e, com essa última, o programa de TV que pode mudar o destino de Jamal. O problema é que aqui o roteiro torna-se previsível, o uso dos flashbacks já não possui a força do início e a história passa a ser dominada pela pieguice. A facilidade em prever como cada situação irá terminar certamente frustrará o cinéfilo mais exigente, embora não comprometa a diversão descompromissada. Sorte de Danny Boyle que não são poucos os que anseiam por escapismo fácil para fugir da terrível realidade da crise mundial. E para quem quer a resposta para a questão inicial, todas estão corretas, desde que se acredite em destino...

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Cinema

Ser ou não ser você mesmo?


Randy "The Ram"? Mickey Rourke? Discussão vazia? Você escolhe...

O lugar comum em que caem boa parte das críticas sobre O lutador soa como campanha contra a eventual vitória de Mickey Rourke na cerimônia do Oscar. Posto que é impossível negar que o ator esteja perfeito no novo filme de Darren Aronofsky, os detratores trataram de adotar uma tática diferente: relativizar. Para esses, a atuação de Rourke nem mesmo assim deveria ser classificada. O ator não estaria sequer representando um personagem, mas tão somente sendo ele mesmo.

Ora, como se conseguir mostrar-se de forma transparente diante das câmeras já não fosse um esforço soberbo de interpretação (que o diga Eduardo Coutinho!). Quem nunca se intimidou diante das câmeras? Quem nunca posou como alguém diferente, tentando se passar por uma figura mais interessante? Quem se comporta de maneira absolutamente idêntica em todos os círculos de convivência social? Pois bem, estamos sempre encenando o nosso próprio “papel” de forma diferente. Somos a soma dos personagens que criamos para nós mesmos. Como condenar Rourke por sua autenticidade e perfeita unidade no papel do
wrestler Randy “the Ram”?

As trajetórias de ator e personagem são, de fato, parecidas. Ambos estiveram no auge de suas carreiras no final dos anos 80, mas na década seguinte, por circunstâncias diferentes, acabaram condenados ao limbo do esquecimento. Passaram anos lutando em pequenas arenas – Rourke largou os pequenos papéis para se dedicar a uma carreira no boxe, o que fermenta ainda mais as comparações. Agora, tentam se auto-afirmarem e reconstituírem a parte da vida que ficou perdida durante os anos mais amargos.

Se é mais fácil interpretar a si mesmo em frente às câmeras, não sei dizer. Talvez a resposta varie caso a caso. E aí reside minha bronca com quem tenta diminuir o trabalho de Rourke. Boa parte das opiniões parecem carregadas com certo preconceito. Dois pesos, duas medidas.

Rourke não pertence ao primeiro escalão (ainda). Passou anos no ostracismo e teve poucos papéis que realmente mereçam elogios. É fácil criticá-lo. O mesmo não acontece com Jack Nicholson, por exemplo. Sua caracterização do Coringa para
Batman sempre foi coberta de elogios. “Apagou até o Batman!”, dizem os mais exaltados. Porém, uma olhadinha mais cuidadosa nas entrevistas de Nicholson, no comportamento deste longe das câmeras ou em documentários em cujo ator seja objeto de observação nos mostra uma figura bem parecida com a vista no filme de Tim Burton. Mas como criticar Nicholson, um verdadeiro “monstro” do cinema, quase uma unanimidade? Ou talvez seja eu que esteja sendo chato, incapaz de perceber que a maquiagem carregada seja capaz de tornar certos comportamentos tão distintos de outros.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Cinema

Auto-plágio?

Faz quase dez anos que assisti a Forrest Gump pela última vez. Mesmo assim, era impossível não perceber que O curioso caso de Benjamin Button guarda grandes semelhanças com o longa supracitado – ambos foram roteirizados por Eric Roth –, principalmente no campo estrutural, no desenvolvimento dramático. Mas como julguei que os filmes falam sobre temas diferentes, relevei, ao ponto de defender Roth e David Fincher da acusação de "plágio" que alguns blogueiros amigos fizeram. Pois bem, ainda considero O curioso caso de Benjamin Button um bom filme. Continuo achando que os dois filmes despertam sentimentos diferentes no espectador. Só que fica difícil argumentar contra um vídeo tão contundente quanto este aí de baixo... Será que o tempo me fez passar batido?


quinta-feira, janeiro 29, 2009

Cinema

Por que tão sério?


Só mesmo o Coringa para dar uma cara nova ao Oscar...

Um rápido passeio pelos arredores da blogsfera cinéfila mostra que, entra ano, sai ano, o Oscar ainda produz todo um fascínio sobre os aficionados pela sétima arte. Semana passada, o iminente anúncio dos indicados ao Oscar fez pipocar em todos os cantos listas com nomes dos prováveis concorrentes à estatueta dourada. Os índices de acerto foram altos, mas não surpreendentemente. Não é preciso bola de cristal ou ser douto na arte do tarô para saber o que se passa na cabeça da Academia de Hollywood. Esta já provou diversas vezes ser tão previsível quanto uma esquete do Zorra Total.

Daqui a alguns dias começarão a aparecer as listas com os prováveis vencedores. Os cinéfilos aguardam apenas o lançamento de alguns concorrentes em território tupiniquim. Não que isso seja necessário. Prever os vencedores também é tarefa fácil, mesmo sem assistir à metade dos filmes em questão. O que não é problema algum, afinal de contas, a maioria dos votantes também não os assiste...

Também não é difícil visualizar a Academia reclamando sobre os baixos índices de audiência da festa. Vejo-os prometendo uma festa mais “pop” para o próximo ano, como fizeram no ano passado e no anterior. “Aproximar a cerimônia dos jovens”. Seria bom que levassem o plano a cabo. Mas para isso eles precisam entender que sucessos como Batman: O cavaleiro das trevas não podem ser ignorados. Ou alguém de lá acredita que a torcida por O leitor possa ser maior que a do Homem-morcego?

terça-feira, janeiro 20, 2009

Cinema

...oirártnoc oA


Sim garotas, é mesmo Brad Pitt...

Quem nunca parou para pensar em quão bom seria se pudéssemos rejuvenescer com o passar dos anos? Não seria muito mais justo desfrutar do apogeu físico quando já tivéssemos a sabedoria que só os anos bem vividos nos trazem? Nascermos velhos, morrermos jovens... Pois bem, a ideia é recorrente – eu mesmo tenho uma tia que vive dizendo isso –, mas só agora ganha uma produção digna de nota, capitaneada pelo cineasta David Fincher, inspirada em um conto de F. Scott Fritzgerald.

Como bem nos ensina o roteiro de O curioso caso de Benjamin Button, na vida, tudo tem momento certo, o que explica a demora em abordar o tema. Fazer um filme como este há alguns anos seria impossível ou, no mínimo, exigiria um esforço descomunal de dublês e maquiadores (embora estes últimos ainda tenham sido exigidos ao máximo). O desenvolvimento da tecnologia de modelos digitais, largamente utilizada na indústria dos games, somada à técnica de captura de performance, que deu vida a criaturas como Gollun e filmes como A lenda de Beowulf, foi o que possibilitou que Fincher filmasse a fábula de forma convincente.

Benjamin Button (Brad Pitt, quase irreconhecível em alguns momentos, em atuação afiadíssima) nasce em Nova Orleans, no ano de 1918. Sua mãe, prestes a morrer em decorrência do parto, clama ao pai da criança para que o filho não seja abandonado. O pedido é prontamente atendido, mas a promessa é desfeita assim que ele vê a criança. O bebê é deixado em um asilo, onde médicos constatam que ele sofre de envelhecimento precoce, devendo ter pouco tempo de vida. O diagnóstico pessimista não desencoraja Queenie (Tajari P. Henson) enfermeira do asilo, a adotar a criança.


Benajmin é a prova cabal de que não é a aparência externa que nos define

Benjamin passa então a crescer cercado de idosos, o que lhe dá uma perspectiva peculiar da realidade. À primeira vista, ele sente estar entre iguais, mas basta ver crianças brincando do lado de fora para que ele se de conta de que algo está errado, de que é diferente. Se até mesmo Benjamin fica confuso com a própria condição, como explicar para um mundo governado pelas aparências que aquele corpo velho é a morada de uma inocente criança?

Os pré-julgamentos motivados pela aparência tornam-se os motores da trama. A condição única de Benjamin o impede de ter relacionamentos convencionais, confere um ritmo totalmente distinto a vida do personagem e o coloca deslocado em relação ao restante do mundo, drama parecido com o do protagonista de Forrest Gump. Uma das poucas pessoas que consegue enxergar o verdadeiro Benjamin por trás de rugas e cabelos grisalhos é Daisy (Cate Blanchet, sempre ótima) garota pela qual ele imediatamente se apaixona.


Com vidas em direções opostas, é preciso esperar o momento de amar

A direção de Fincher é primorosa em todos os sentidos. Em um primeiro momento, saltam aos olhos as impressionantes transformações de Pitt e Blanchet, mas a fotografia magistral de Caudio Miranda e a montagem precisa que intercala as memórias dos protagonistas também se destacam. O grande destaque da fita, porém, está na reflexão levantada pelo roteiro de Eric Roth: ao nos darmos conta de que Benjamin precisa esperar pacientemente os momentos exatos para dar vazão aos próprios sonhos, nos damos conta de como desperdiçamos as oportunidades da vida em prol de futilidades.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Epifania

Mea culpa



“Epifania – súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou a última peça do quebra-cabeça e agora consegue ver a imagem completa do problema.”


A definição, retirada do Wikipedia, traduz perfeitamente o sentimento que me acometeu após ter assistido a Clube da luta. Que fique claro: já amava o cinema, assistia a diversos filmes e até brincava de ser diretor no quintal de minha casa. Entretanto, foi aquele o momento em que percebi que a sétima arte passaria a preencher minha vida de um modo diferente. É preciso, portanto, esclarecer que David Fincher me tornou um cinéfilo! Sabendo disso, o leitor terá melhores condições de criticar qualquer parcialidade cometida por este blogueiro na vindoura análise de O curioso caso de Benjamin Button.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Meu Cinema

Auto Referência

Os mais atentos já devem ter reparado que, no perfil aí à direira, me defino como um "pretenso cineasta nas horas vagas". Pois bem, já está na hora de mostrar o porquê de tal rótulo! Script! tem o orgulho de apresentar a primeira parte de Samukountry, produção totalmente trash em sua concepção, filmada em 2004, que dá continuidade à história de Samukay. Peço desculpas por não disponibilizar Samukay primeiramente, mas o fato é que não possuo uma cópia digital do filme. Espero em breve poder publicá-la, fechando o ciclo. Mas que ninguém se preocupe com a continuidade. Tarantino já provou que uma história não precisa ser contada em sua ordem cronológica. E Samukountry, logo em seu início, está equipado com um resumo dos fatos ocorridos em Samukay. Sem mais delongas:



Postem suas impressões! Espero amadurecer ao me ver no papel de "vidraça".
PS: Ao término do vídeo estão relacionadas (links) a segunda e terceira partes.

sábado, janeiro 03, 2009

Cinema

Melhores do ano - Parte 2

Começo de ano, passam-se as festas, fica a ressaca, e com ela as memórias dos grandes filmes vistos em 2008. De janeiro a dezembro do ano passado, pudemos assistir a aventuras de super-heróis, dramas familiares, faroestes clássicos ou releituras modernas, ficções científicas e romances de todo o tipo. Uma variedade que naturalmente se estende à lista de melhores filmes do ano do
Script!. A lista resume-se a filmes lançados e vistos por este blogueiro no ano passado. Boas pedidas enquanto a avalanche de filmes do Oscar não chega por aqui!

10º Lugar – Os indomáveis
Os indomáveis é uma revisão do cineasta James Magold para o clássico Galante e sanguinário, de 1957. Fã do texto original, Magold não se atreveu a mudar os rumos do roteiro, mas contou com uma produção caprichada e um elenco afiadíssimo, em especial Ben Foster, que só não consegue ofuscar as atuações das feras Russel Crowe e Christian Bale porque eles também estão magníficos.


9º Lugar – A família Savage
Todo ano o cinema independente americano nos apresenta belas histórias de famílias disfuncionais. E todo ano nos rendemos a elas. O segredo está na sensibilidade que roteiristas como Tamara Jenkins (também diretora) conferem a estas histórias, que muitas vezes carregam experiências pessoais de seus realizadores para dentro da telona. Junte isso à sensibilidade de um elenco capitaneado por uma soberba Laura Linney e um sempre perfeito Philip Seymour Hoffman e você faz de
A família Savage um retrato dessa tragicomédia chamada vida.

8º Lugar – Homem de Ferro
O primeiro
blockbuster de 2008 surpreendeu em dois aspectos: primeiro, a história do super-herói da vez tinha conteúdo, usando como pano de fundo a ganância belicista da indústria de armas americana; segundo, Robert Downey Jr. em uma interpretação quase sobrenatural para o milionário Tony Stark. Difícil foi vê-lo em outras produções ou programas de TV e crer que, de fato, Downey Jr. não é o Homem de Ferro.


7º Lugar – Persépolis
O ano passado consolidou o filão de adaptações de quadrinhos como um gênero amplo, que não se resume aos filmes de super-heróis. Há espaço para relatos autobiográficos como o de Marjani Sartrapi, quadrinhista iraniana que migrou para a França fugindo da opressão da Revolução Islâmica.
Persépolis é um ótimo drama pessoal, somado a um conteúdo histórico pouco conhecido aqui no Brasil.



6º Lugar – Sangue negro
Para adaptar o épico livro
Oil!, de Upton Sinclair, Paul Thomas Anderson teve de abdicar totalmente de seu estilo pessoal. Saem os mosaicos narrativos inspirados em Robert Altman, entra a figura de um personagem central, que domina o filme quase unicamente. O melhor de tudo é que este personagem ganha a interpretação de Daniel Day Lewis, na melhor atuação do ano. Direção precisa, atuações memoráveis e uma trilha sonora que martela o cérebro. Sangue negro é cinema clássico, espécie rara nos dias atuais.

5º Lugar – Vicky Cristina Barcelona
Após uma temporada com saldo positivo em Londres, Woody Allen migrou para a ensolarada Barcelona e, ao que parece, o ar catalão fez bem ao diretor.
Vicky Cristina Barcelona é a comédia que Allen há tanto tempo devia aos seus fãs. Nela, o amor é desconstruído em uma análise sobre nossa vã tentativa de idealizar nossos relacionamentos. Se hoje em dia as mudanças são o catalisador criativo de Allen, que ele venha logo ao Rio de Janeiro!

4º Lugar – Juno
Mais uma vez o cinema
indie americano. Outra família disfuncional. E mais uma história apaixonante. Aliás, como não se apaixonar por Juno MacGuff, a jovem interpretada por Ellen Page que exala personalidade e tem uma resposta afiada para qualquer questão? Méritos para o roteiro primoroso da promessa Diablo Cody e para a direção precisa de Jason Reitman, que transformaram a gravidez de Juno no conto de fadas (ou melhor, na antítese deste!) do ano!

3º Lugar – WALL-e
Pode um filme mesclar em torno de si o melhor do cinema mudo, das ficções científicas a lá
Blade runner e a magia das antigas animações Disney? WALL-e mostra que, sim, é possível, e foi além: fez uma das mais precisas críticas ao consumismo atual sendo um produto para consumo das massas! WALL-e é a prova de que os limites narrativos do cinema ainda não foram transpostos, e que a Pixar não irá descansar até atingi-los.


2º Lugar – Batman: O cavaleiro das trevas
A maior bilheteria. O filme mais comentado. A atuação mais celebrada. Não faltam recordes ou superlativos para a última aventura do Homem-morcego. Christopher Nolan retomou as diretrizes iniciadas em Batman: Begins e elevou o conteúdo a um patamar nunca dantes visto em um filme de super-heróis. O cavaleiro das trevas alça o gênero ao patamar de obra de arte pela primeira vez, e Heath Ledger a de uma das maiores e mais prematuras perdas do cinema.

1º Lugar – Onde os fracos não têm vez
Lembro-me de que na saída da sessão de Onde os fracos não têm vez, muita gente reclamava de que o filme não possuía final. A constatação é verdadeira, porém, totalmente injusta. Poucos filmes conseguem ser tão concisos quanto este “faroeste” moderno dos irmãos Coen, e a omissão de uma conclusão clássica está perfeita no contexto. Os Coen realizaram um tratado sobre a maldade humana, aquela inata, incompreensível e cada vez mais presente nos dia-a-dia atual.

Um feliz 2009 para todos e bons filmes!!!