terça-feira, outubro 21, 2008

Esporte

A última que morre


Não vamos nos confundir: este é o "carrinho" pelo qual rezar...

Em um país de um sem número de adoradores do futebol, a Fórmula 1, graças à genialidade de gente como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, pode gabar-se, juntamente ao vôlei, da condição de segunda paixão nacional, o que não deixa de ser uma ironia em um esporte como tal. Mas nem essa condição impediu que o esporte produzisse o maior ídolo e herói da história nacional: Ayrton Senna da Silva, morto na trágica corrida de Ímola do dia 1º de maio de 1994, prova de que, quando um brasileiro tem carisma e vai bem nas pistas, os “carrinhos” podem até rivalizar com o esporte bretão.

De lá pra cá se passaram 14 anos, período em que a paixão do brasileiro pela velocidade arrefeceu bastante. Não bastasse a morte de Senna, tivemos que torcer para um insosso Rubinho Barrichelo que, embora grande piloto, sempre frustrava a torcida graças às suas declarações desmedidas, que sempre davam margem à expectativas irreais. Quem não se lembra de ele dizendo que tinha sim chances de brigar pelo título, quando todos sabiam que a Ferrari girava em torno de Michael Schumacher. Problemas de assessoria a parte, Rubens conseguiu vida longa no esporte: é o piloto com mais corridas disputadas no currículo, embora toda essa experiência não seja capaz de assegurar sua vaga como piloto da fraquíssima Honda no ano que vem.

Também tivemos dois títulos mundiais de futebol no período compreendido entre a morte de Ayrton e os dias atuais. Medalhas de ouro no voleibol masculino e feminino. Guga, Daiane do Santos, César Cielo e tantos outros. Mas no próximo dia 2, todas as atenções do país vão estar de novo voltadas aos bólidos mais caros do automobilismo. Após 14 anos, o Brasil possui um piloto com chances reais de sagrar-se campeão do mundo. E pela primeira vez o feito pode acontecer em terras tupiniquins, na pista de Interlagos, onde Felipe já mostrou andar muito forte nos anos anteriores pela Ferrari.


... a macumba fica reservada para este aqui!

Mas é bom que o povo brasileiro não se iluda. Embora o título seja possível, é improvável. A sucessão de erros da Ferrari durante todo o campeonato possibilitou 7 pontos de vantagem para o inglês Lewis Hamilton da McLaren, este o homem a ser batido e bastante gorado. Quem não se lembra da lambança aprontada por ele no último GP do Brasil, aquela que lhe custou o título para Kimi Raikonen cuja distância para Hamilton era de, vejam só, 7 pontos!

É claro que Hamilton está mais maduro e dificilmente cometerá os erros do passado, mas o atual campeonato provou que o automobilismo é um esporte com janelas sempre abertas aos desígnios do imponderável. Certamente ele não voltará a apertar o botão redutor de velocidade, mas quem garante que um pneu ou mesmo o motor do carro dele não possa estourar? Quem sabe uma escapada de pista, caso chova na terra da garoa... Ou um toque de algum desafeto, talvez até do Rubinho! Vai que ele tenta se redimir de nunca ter trago um caneco... Por estas e outras, Lewis admitiu ter procurado auxílio do paranormal Uri Geller. Ora, se o inglês pode buscar forças no sobrenatural, é lógico que um povo supersticioso como o brasileiro pode fazer o mesmo. Aos espectadores resta a cruel missão de torcer, e muito, mais contra Hamilton do que somente a favor de Massa. Uma postura que pode até carecer do propalado fair play, mas para quem está com um grito de "é campeão" entalado há 17 anos na garganta, que se dane!

sábado, outubro 18, 2008

Variedade

Invejinha básica


Já está na hora de usar melhor a Internet...

Que levante a mão aquele que não possui um ou outro pecadinho entre seus hábitos. Aqueles pequenos desvios de conduta, que não chegam a ser nocivos aos demais mas que geralmente evitamos admitir. Por mais que tentemos, não os conseguimos evitar. Eu, por exemplo, sou um invejoso!!! Não que eu fique colocando olho gordo nas pessoas mais ricas ou afortunadas que eu. Não. Minha inveja reside em algo mais banal, que muitos julgariam uma bobagem: tenho inveja de blogs mais freqüentemente atualizados do que o meu.

Sim leitores e leitoras, este blogueiro aqui gostaria de ser mais proficiente!. Afinal de contas, meu objetivo ao criar esse espaço foi ter um local onde pudesse aprimorar meu texto enquanto estudo para concursos públicos. Desde o princípio, senti que necessitava estabelecer um tema central, uma espécie de “linha editorial” capaz de chamar a atenção das outras pessoas, na esperança de que os vindouros comentários auxiliassem em minha empreitada. Optei pelo cinema, tema do qual gosto bastante e sobre o qual arrisco dizer que entendo alguma coisa, com a liberdade de, vez ou outra, soltar “pitacos” sobre outros assuntos que julgo interessantes.

O problema é que para escrever sobre cinema é necessário acompanhar a cena cinematográfica, algo que fica a cada dia mais complicado, uma vez que cinema é um hobby caro, pelo menos aqui em Brasília, e tendo em vista a qualidade dos filmes que andam aportando em nossas telonas, esse prazer pode sair ainda mais salgado. Sobre isso nem pretendo me estender, basta pedir para que o leitor dê uma conferida na lista de lançamentos programados para até o final do ano. Deram uma olhada? Pois bem, sejamos francos: vale a pena tecer uma linha sequer sobre 90% desses filmes?

É claro que não coloco a culpa unicamente na escassez de boas produções. De vez em quando, também sou acometido pelo pecadinho da preguiça - mas quem não é? Outras vezes, o estudo faz o papel de álibi. Mesmo assim, gostaria de ter mais tempo para aprimorar o blog, divulgá-lo melhor e interagir mais com os leitores. Para os que esperam encontrar aqui críticas sobre cinema, digo que os lançamentos terão menos espaço durante os próximos meses. Já aqueles que, de algum modo, se interessam pelas minhas elucubrações sobre o cotidiano, aproveitem, pois espero escrever mais sobre temas diversos nesse período!

Um abraço e obrigado a todos pela enorme força!!!

domingo, outubro 12, 2008

Televisão

Bom para dormir

Você não tem a sensação de que já viu isso antes em algum lugar?

Toda vez que me deparo com uma análise dos índices de audiência das principais redes de TV do país, fico impressionado com a hipocrisia e o preconceito que permeiam tais documentos. Para os executivos da TV, é melhor que a culpa sempre recaia no colo do telespectador. Afinal de contas, para eles o povo brasileiro não passa de uma massa de descerebrados incultos, seres incapazes de apreciar as “maravilhas” proporcionadas pelos gênios de nossa telinha.

Tudo bem, o “povão” realmente dá crédito a dezenas de porcarias – o funk carioca está aí para comprovar – mas achar que as pessoas deixam de assistir à novela das seis para curtirem o reprisado Pica-pau porque são burras é varrer a sujeira para debaixo do tapete. A televisão aberta brasileira é um lixo e a queda dos índices de audiência apenas prova que parte da população já constatou esse fato.

Quantos de vocês já não se pegaram, com o grato auxílio do controle remoto, dando voltas e mais voltas pelo dial à procura de algo minimamente decente para assistir? Pois é, eu faço isso o tempo todo, e a cada vez que completo uma volta, fico mais impressionado com a falta de evolução de nossa TV. Falta investimento, e não me refiro apenas ao financeiro, mas ao intelectual, principalmente. Novos talentos, gente com vontade de mostrar serviço, de quebrar paradigmas, que traga um pouco da linguagem do cinema, da web, ou de qualquer coisa que não se limite a repetir fórmulas saturadas há décadas.


Dá para fazer bons programas e conquistar grande audiência.

E não é difícil provar o quanto um pouco de sangue novo faz bem à programação. No meio de meia dúzia de anciões cativos, João Emanuel Carneiro é o único jovem autor que conseguiu emplacar uma novela das oito, A Favorita, que certamente é a melhor produção do horário em pelo menos dez anos. O Profissão Repórter é disparado o melhor jornalístico global, sendo provavelmente o único que não adota como máxima editorial criticar o governo. Por sua vez, o CQC exala todo o frescor e irreverência que faltavam ao humorismo nacional – e ao jornalismo também. Vê-los em ação é muito melhor do que assistir a um Casseta & Planeta, que, ao contrário do que muitos pensam, já havia batido as botas muito antes que o Bussunda.

E também não adianta botar a culpa na Internet ou no bode expiatório que seja. A TV americana, a despeito da crise, vive seu ápice, em parte com a ajuda da grande rede. Algo que só foi possível porque alguns executivos tiveram coragem para apostar em formatos inovadores. Lost, My name is Earl, Pushing Daisies e até a chatinha Heroes, em nada, ou muito pouco, se parecem com séries antigas. Ao contrário das novelas das seis, verdadeiras sessões de interminável deja vu de época. E se a Record almeja mesmo o primeiro lugar, está na hora de repensar a estratégia para tanto. Copiar a Globo pode até funcionar em curto e médio prazo, mas não parece algo muito inteligente quando é visível e documentada a queda da audiência da emissora do “plim-plim”. Resta torcer para que a TV digital represente alguma mudança. Quem sabe com a terceirização de parte da produção? Ou quem sabe com o crescimento de redes locais? Até lá, prefiro permanecer em frente à tela do computador...

terça-feira, outubro 07, 2008

Cinema

Adaptar ou não adaptar?


Não li o livro e gostei do filme. E você?

Em meio a crises econômicas apocalípticas e ante uma pirataria cada vez mais forte e organizada, é até compreensível que Hollywood esteja evitando a todo custo apostar em roteiros originais. Vivemos a era das adaptações. Quadrinhos, livros, desenhos animados antigos, games e tudo mais que já tenha reunido um mínimo necessário de fãs capazes de garantir retorno financeiro ganham as telas de cinema.

Porém, como quase tudo na vida, essa política de apostar naquilo que já está devidamente consolidado possui alguns reveses. O mais notório deles é a cobrança dos fãs pela fidelidade ao material original, verdadeira amarra narrativa e criativa, uma vez que aqueles geralmente desejam meras transposições para película.

Em casos assim, o trabalho do diretor muitas vezes se limita a selecionar aquilo que é ou não é imprescindível para a história. Não é fácil.
Ensaio sobre a cegueira, visão de Fernando Meirelles para o clássico homônimo de José Saramago, prova isso. Foram dezenas de cortes até que o diretor chegasse à versão que ganhou as salas mundo afora. Nem mesmo o aval de Saramago a uma versão pretérita fez com que a inquietação do diretor terminasse.  O que me faz acreditar que, caso ainda estivéssemos a alguns meses do lançamento, Meirelles ainda estaria trabalhando em uma versão final.

Isso explica bem o porquê da maioria das adaptações serem recebidas de modo tão dúbio pelo público. Gostei bastante do filme de Meirelles, embora reconheça tratar-se de uma obra visualmente forte e até perturbadora, difícil de digerir e certamente não recomendável para quem vê no cinema apenas entretenimento. Entretanto, não estou capacitado a opinar sobre a qualidade da obra enquanto adaptação, uma vez que não li o original. Talvez minha percepção mudasse caso o tivesse. Imaginem se eu percebesse que a passagem da qual tanto gostara no livro havia sido preterida no corte final? Certamente isso pesaria em minha avaliação.


Reflexão em grupo: "Essa cena é essencial para a história?"

O que leva à seguinte questão: existe sentido em uma adaptação que não acrescenta em nada ao original? Se nada deve ser mudado, melhor comprar o livro, não é mesmo? Difícil responder. Existem filmes que funcionaram respeitando ou inovando conceitos pré-estabelecidos. Algo que depende muito do diretor e da afinidade deste com a obra que pretende adaptar. Uma visão particular da obra não significa necessariamente desrespeito, afinal de contas, cada um faz a própria leitura daquilo que consome. Somos todos diferentes, temos histórias de vida distintas e gostos variados. O melhor a fazer, portanto, é dar uma chance às adaptações, mas sem esquecer-se de dar uma olhada no material original. Algo que pretendo fazer agora!!! Espero em breve postar minhas impressões sobre o livro Ensaio sobre a cegueira!

sexta-feira, setembro 26, 2008

Cinema

Exercício democrático


Se meu apartamento votasse...

Após passar um tempinho afastado de tudo que rola pela World Wide Web, resolvi dar um passeio pelos recantos do universo digital e ver como a virtualidade se comportou durante minha ausência. Entre as habituais fofocas e especulações sobre qual famoso anda comendo qual famosa, eis que minha atenção é conquistada por mais um exemplar do que a Internet oferece de mais típico: uma lista de melhores de um gênero paralela a uma enquete.

No caso, uma lista sobre os filmes mais importantes dos últimos 50 anos, divididos pelo período de uma década. A iniciativa é da Folha de São Paulo, e o Internauta têm dez opções de voto, escolhidas previamente pela equipe da Folha, para escolher o filme mais representativo das décadas de 60, 70, 80, 90 e da atual. Os vencedores farão parte de um ciclo de cinema que irá comemorar os cinqüenta anos do caderno Ilustrada do jornal.

Como toda a lista do tipo, são inúmeras as ausências sentidas entre os eleitos pela Folha. Ao meu ver, é nítido que a seleção da atual década é aquela que cometeu o maior número de injustiças, seguida de perto pela dos anos 90. Acredito que o significado disso possa ser explicado pelo menor espaço de tempo para discutir, absorver e entender a importância de determinada obra para o meio cinematográfico. Independentemente desses deslizes, vamos a lista, uma excelente desculpa para motivar um pouco as discussões aí nos comentários.

Considero difícil opinar sobre o período compreendido entre 1958 e 1969 (para coincidir com o aniversário do jornal, a enquete foi esticada em dois anos). Dos filmes listados, assisti apenas a Se meu apartamento falasse, do gênio Billy Wilder, o que explica e legitima meu voto. Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, lidera entre os internautas. Não deve ser sem razão, afinal, muita gente já escreveu que esta pode ser considerada a única obra-prima do Cinema Novo, um movimento que possui “zilhões” de defensores.


"Are you voting in me?"

Na lista da década seguinte a coisa fica bem mais simples, pois assisti à maioria dos filmes relacionados. A liderança é de O poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, com vantagem razoável para Laranja mecânica, de Stanley Kubrick. Gosto muito de ambos, mas meu voto seria para Táxi Driver, de Martin Scorcese, por ser igualmente brilhante e ter uma poderosa crítica ao comportamento da época implícita em sua história.

Chegamos à década de 80, onde assisti à metade dos filmes relacionados. Quem lidera é Blade Runner, a primorosa ficção científica dirigida por Ridley Scott. Confesso estar inclinado a aumentar a vantagem de Scott, mas como ele concorre com o espetacular Touro indomável, mais um de Martin Scorcese, acabo roubando e voto duas vezes.


Há algumas barbadas...

Na década de 90 nenhuma dúvida. É Pulp Fiction na cabeça, tanto no voto como na preferência dos votantes. Os imperdoáveis, do bom e velho Clint Eastwood, é o maior rival do longa de Quentin Tarantino. Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar, merece estar na lista, assim com A liberdade é azul, de Krzysztof Kielowsky. Mas O jogador não é o melhor Altman, Central do Brasil só tem real significância para nós, “brazucas”, e Titanic eu nem pretendo comentar. Onde ficou Clube da luta?


... e também as inevitáveis injustiças.

E, enfim, chegamos à década atual. E que lista é essa? Edifício Master, de Eduardo Coutinho, é, sim, um primor, mas melhor filme da década? Vá lá! Paranoid park, de Gus Van Sant, é mais representativo e interessante do que Elefante, do mesmo diretor. Volver é um bom filme, mas é apenas mais do mesmo em se tratando de Almodóvar. A vila é um momento menor do cada vez pior Shyamalan. O senhor dos anéis, do gente boa Peter Jackson, desponta como líder, embora deva ser o menos relevante de toda a lista - exceção feita a A vila. Dos que já assisti, salvam-se Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, Cidade dos sonhos, do maluco David Lynch e O segredo de Brokeback Mountain, do "poeta" Ang Lee. Resta saber o porquê de ausências como as de Réquiem para um sonho, Darren Aronofsky; dos recentes Sangue negro, Paul Thomas Anderson, e Onde os fracos não têm vez; irmãos Coen, de Menina de ouro, obra prima de Clint Eastwood; e de algum filme da nova safra indie americana, em especial Encontros e desencontros, Sofia Coppola, e Pequena Miss Sunshine, Jonathan Dayton e Valetie Faries. Poderia continuar a lista por parágrafos e mais parágrafos, mas acho que está bom... AH! Só pra registrar, voto em Cidade de Deus!!! Logo mais posto minhas impressões sobre Ensaio sobre a cegueira!!

Clique
aqui para votar na enquete!

segunda-feira, setembro 15, 2008

Música

Magnetismo metálico


O Metallica volta a apontar o caminho para os novatos

O metal é um gênero difícil. E não me refiro aqui à complexidade musical. Não. A dificuldade reside no sem-número de idiossincrasias que permeiam o estilo, algo sem paralelo em outras vertentes musicais. É como se existisse, em algum lugar, esculpida desde tempos imemoriais, uma lista de mandamentos que norteiam o comportamento esperado de um metaleiro. Clichês, que nesta tribo, ganham significância quase – ou mais que – religiosa. 

Essas “verdades absolutas” são, provavelmente, o maior empecilho para que o metal conquiste o respeito da grande mídia. Fãs não toleram mudanças, mas criticam a “falta de originalidade”. Muitas vezes, estão mais preocupados em saber se os ídolos estão seguindo a “cartilha” do metal do que com a qualidade da música de fato. 

Só isso para explicar a recepção dúbia ao novo CD do Metallica, o recém lançado – e vazado! – Death magnetic. O Metallica é, juntamente com o Iron Maiden, a banda de maior repercussão no gênero, mas andou decepcionando nos últimos quinze anos de carreira com álbuns fracos e preocupações levianas quanto à popularização da troca de músicas da Internet, algo que deveria ser priorizado apenas por gravadoras e advogados. O problema é que mal o CD vazou e milhares de fóruns já estavam entupidos de opiniões sobre o lançamento. Importante destacar que a MAIOR parte desses depoimentos foram escritos por gente que nem se deu ao trabalho de escutar o álbum com a devida atenção, ou por certeza de que uma banda que trai “os princípios sagrados” nunca mais lançará nada digno de atenção, ou ainda por confiar cegamente na tese de que o novo disco seria o salvador do estilo, emblemático título messiânico que, vira e mexe, qualifica um lançamento de algum medalhão do gênero. 


Fica difícil esconder o sorriso após uma audição de Death Magnetic

E quem adotou essa posição de “falar antes de escutar” deveria parar de perder tempo e ouvir o que o Metallica tem a oferecer.
Death magnetic é pura ebulição emocional, que soa como um grito desesperado: "SIM, nós estamos vivos!!". Os detratores certamente argumentarão que o retorno às origens, um épico aos moldes do "filho pródigo”, trata-se, na verdade, de uma jogada comercial. Como se existisse algum músico que lança músicas aos braços do mercado sem levar em conta o fator financeiro. Isso é o de menos. O importante é constatar que as composições do grupo voltaram a soar energéticas e vivazes.  Músicas como That was just your life, Broken, beat & scarred, All nightmare long e My Apocalypse são porradas que há muito – desde o longínquo ...And justice for all – estavam guardadas nas entranhas de James Hetfield, Kirk Hammet e Lars Ulrich, agora devidamente completos com a presença do novo baixista, Robert Trujilo. 

A produção ficou a cago de Rick Rubin, famoso por extrair o máximo de artistas tão variados quanto Slayer e Johnny Cash. Rubin soube trazer o som clássico do Metallica de volta, mas sem fazer com que o grupo perdesse o amadurecimento melódico conquistado nos anos de Bob Rock. O resultado é um álbum que remete ao passado, mas sem soar datado ou mesmo nostálgico. Death magnetic olha para o futuro, visando aos adolescentes que descobrirão o Metallica por meio de sua interminável sucessão de riffs pesados, vocais berrados e uma pegada thrash de primeira. Este sim é o novo metal!!

quarta-feira, setembro 03, 2008

Internet

Tentando dominar o mundo!


Sim, o logo está a cara do Genius, o jogo da memória...

Extremamente rápido e funcional. Essa é a melhor definição para o Google Chrome, a mais nova investida da megacorporação para o domínio definitivo da Internet. Para quem já havia abandonado o Internet Explorer, adotando o Firefox, uma boa notícia: o Chrome funciona de forma semelhante à raposa, com a vantagem de conseguir ser ainda MAIS rápido e, ao que parece, possuir menas restrições de compatibilidade com páginas pensadas para o IE. E não amiguinhos, não ganho nada fazendo propaganda para o Google, mas, como uso a Internet como meio, faço questão de dar o recado, imitando aquele bordão de cerveja: Experimente!


Scott McCloud, o famoso quadrinhista, é quem assina o manual do Chrome,
que pode ser conferido no link: http://www.google.com/googlebooks/chrome/

sábado, agosto 09, 2008

Cinema

Jabor vê o Batman


Porque tão sério, Jabor?

Nessa terça feira, li a crônica do jornalista Arnaldo Jabor sobre Batman: O cavaleiro das trevas - http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080805/not_imp217659,0.php. Sempre achei Jabor uma figura superestimada, um cara que cresceu graças à necessidade da grande mídia em criticar governantes e as medidas que a desagradam, de forma indireta. Que fique então claro: nunca gostei de Jabor. Sempre curti o Batman.

Não conheço o trabalho de Jabor como cineasta. Sei que ele é uma importante figura do movimento conhecido como Cinema Novo, e que até ganhou um Urso de Prata por Toda nudez será castigada. Mas confesso que não tenho curiosidade em assistir aos seus filmes. Até hoje não consegui me identificar com o Cinema Novo. Considero aquela linguagem datada, incapaz de dialogar comigo, tanto na questão estético-cinematográfica, como na própria análise do Brasil daqueles tempos. Por isso, acho sempre curioso que a maioria dos representantes daquela fase defendam um retorno do cinema brasileiro para tais raízes.

Não sei se Jabor é um desses defensores saudosistas, que defendem abertamente a volta da estética do cinema novo. Sei somente que, em sua crítica ao Batman, ele tenta desmerecer alguns aspectos do filme apoiado em uma crença de que o cinema atual é pior do que o do passado. Jabor ataca a montagem ágil, os efeitos especiais espetaculares e o excesso de reviravoltas do roteiro escrito por Christopher Nolan e David Goyer, julgando que tais artifícios são sempre usados como “disfarce para a falta de conteúdo”. O colunista chega a dizer que Batman não é “complexo”, mas “emaranhado”, o que faz com que alguns detalhes passem despercebidos e sejam capazes de justificar os louros conseguidos pelo longa junto à parte da crítica.

Sejamos francos: Batman: O cavaleiro das trevas é um filmaço, profundo por analisar a realidade da violência em um formato onde até pouco tempo isso era impensável. Tem momentos capazes de estimular reflexões sociológicas e psicológicas da platéia, mas não chega a ser um tratado de psicologia criminosa. Aliás, justiça seja feita, a crítica dá a entender que Jabor até gostou do filme, mas muito mais pelo retrato que ele pinta da atual sociedade do que por levar a idéia de um homem vestido de morcego a sério.

A questão é que retratar de forma inteligente uma sociedade já é um mérito e tanto para qulquer filme, em qualquer época. Uma edição ágil pode funcionar muito bem para aumentar ainda mais o suspense. Em certos casos o filme pede isso! Assim como efeitos especiais e reviravoltas. Não é o tipo de pincel usado pelo artista que mede a qualidade da pintura. E aí reside meu descontentamento com Jabor. Para gente como ele, intelectuais do passado, nenhuma produção artística futura estará à altura das gerações pregressas. Exceção feita, talvez, àquelas que dialogarem com o passado de forma evidente. E aí temos a receita para o preconceito difundido por um dos colunistas de maior visibilidade do país.

Também não gosto do Jabor jornalista. Este conseguiu notoriedade mais pelo estilo do que pelo conteúdo. E jornalismo é informação acima de tudo! Muita gente gosta porque ele é irônico e fala mal do governo, mas tudo dito ali é tão somente o "mais do mesmo", embrulhado com ironias e tiradas engraçadinhas que, aqui sim, muitas vezes, disfarçam a real falta de conteúdo.



Jabor é daquelas pessoas que não aceitam ver o tempo passar e as coisas mudarem. Fica procurando formas de dizer que os jovens atuais são todos alienados. Recordo-me de uma crônica dele para o Jornal da Globo, sobre a morte do guitarrista Dimebag Darrel (Ex-Pantera). Jabor argumentava que o assassinato de Darrel por um fã era conseqüência da "apologia" que o rock atual faz à violência, caminho oposto ao trilhado pela geração "paz e amor" que revolucionou o mundo, e da qual ele faz parte. Talvez ele tenha esquecido o assassinato de Lennon propositalmente, talvez tenha sido o peso da idade. O fato é que caras como ele sempre buscarão formas de manipular o ponto de vista alheio para fazer crer que ele e sua patota são realmente seres superiores em esclarecimento.

quinta-feira, julho 24, 2008

Cinema

Herói moderno


O cavaleiro das trevas estabelece um novo patamar para filme de heróis.

A certa altura de Batman: O cavaleiro das trevas, o homem-morcego fica frente a frente com seu maior nêmesis, o Coringa, que, olhando diretamente nos olhos do herói, profetiza:

“Você mudou as coisas para sempre. Não há como voltar atrás”.

O vilão não poderia estar mais coberto de razão. Tal análise resume bem a guinada empreendida pelo brilhante cineasta Christopher Nolan no universo cinematográfico do herói. Sob a batuta de Nolan, a nova encarnação do homem-morcego em película estabeleceu novos parâmetros para as narrativas de super-heróis, mas não ficou só nisso: a perspectiva realista dada ao Batman, transformando um homem que se veste de morcego em uma figura crível no mundo real, alterou a própria forma de se enxergar ícones eternos da cultura pop. O recado era claro. Franquias já estabelecidas não precisavam mais ancorar-se em suas fórmulas saturadas. Mudanças eram bem vindas, desde que perpetradas com respeito ao material original. Batman: begins tornou-se um modelo copiado tanto para estreantes em película, como o Homem de ferro, quanto para veteranos como o James Bond da era Daniel Craig.

Em Begins, Nolan não limitou-se a contar a preparação de Bruce Wayne – Christian Bale, a melhor encarnação do herói nos cinemas – para transformar-se no herói, história até então inédita tanto nos cinemas quanto nas HQ’s. Era necessário deixar claro para o público que o novo material não tinha nenhuma conexão com as produções anteriores. Apesar disso, o cineasta ainda sofreu com algumas amarras narrativas impostas por uma desconfiada Warner Bross, ainda ressabiada com os resultados desastrosos dos filmes de Joel Schumacher. Nolan teria carta branca para reiniciar a franquia, mas deveria utilizar vilões que ainda não tinham dado as caras na telona, uma espécie de garantia de que o novo longa era de fato uma história nova. Ra’s Al Ghul e o Espantalho foram o escolhidos.

E se Nolan conseguiu atrair o público e agradar a crítica com vilões quase sem apelo junto ao grande público, o que dizer de uma nova produção onde o Batman teria de enfrentar seu maior inimigo? Só por isso O cavaleiro das trevas tornava-se o filme obrigatório desta temporada. A morte prematura de Heath Ledger só colocou mais lenha na fogueira e atiçou ainda mais a curiosidade em torno da produção, última a ser completada pelo ator. O resultado: 155 milhões de dólares no final de semana de estréia, maior abertura da história do cinema.


Heath Ledger: o Coringa perfeito.

Justo. O novo longa supera o antecessor em quase todos os quesitos. Ciente de que o público aprovara a versão mais realista do Batman, Nolan tratou de elevar o tom adulto para o novo filme, em uma trama policial que há dez anos atrás jamais ganharia protagonistas que vestem máscaras ou usam maquiagem. O cavaleiro das trevas não é um filme para crianças. O Coringa de Heath Ledger – soberbo! – passa longe do concebido por Jack Nicholson. Ele assusta de verdade, mata sem dó, mesmo quando dispõe apenas de um lápis, e tem estômago forte para torturar e ser torturado. Sua visão caótica do mundo dá medo e explica o porquê dos norte-americanos terem ficado paranóicos ante terroristas que não estão atrás de dinheiro e não têm medo de morrer. Como combatê-los?

Batman encontra a resposta em Harvey Dent – Aaron Eckhart, quase tão bom quanto Ledger – novo promotor público que também não tem medo de fazer seu trabalho. Incorruptível, assim como o herói, Dent consegue ser ainda mais nobre, pois não precisa refugiar-se em uma máscara nem agir à margem da lei. Batman passa a enxergá-lo não só como um aliado, mas como um substituto. Alguém capaz de inspirar as pessoas a darem o melhor de si. Juntos, e com a ajuda do tenente Jim Gordon – Gary Oldman, preciso como sempre – e da promotora Rachel Dawes – Maggie Gyllenhal, muito melhor do que Katie Holmes – eles empreendem uma caçada aos mafiosos de Gothan, que contratam o Coringa para dar um fim a essa investida.



Dent, Gordon e Batman unem-se para combater os mafiosos de Gothan.

O plano do “palhaço do crime” é o exato oposto do empreendido por Batman e seus aliados. Enquanto estes querem inspirar o bem nas pessoas, aquele quer provar que ninguém é melhor do que ninguém. Basta uma situação limite para que qualquer um, mesmo o melhor intencionado, mostre o quão podre é. Com as cartas assim dispostas, mais uma vez o Coringa revela sua perfeita capacidade analítica:

“O que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto inamovível? Você não me mata por causa de um falso moralismo barato, e eu não mato você porque te acho muito divertido! Estamos condenados a fazer isso para sempre!”

De fato. Estaremos todos mortos e as batalhas travadas entre Batman e Coringa continuarão por anos a fio. Com a diferença de que o toque de Nolan influenciará as novas aventuras para sempre, nos cinemas, HQ’s, games etc. O cavaleiro das trevas é um passo adiante na evolução desta mitologia. Não há como voltar atrás. Pena que Heath Ledger não poderá continuar no jogo...

sexta-feira, julho 18, 2008

Charge

Habeas Corpus-Sinal



Aproveito o lançamento do estupendo Batman: O cavaleiro das trevas (corra para o cinema) para divulgar a ótima charge do cartunista Dálcio Machado. Chega a ser triste perceber o quanto ela representa bem a atual justiça do país...

Para quem quiser conhecer melhor o trabalho do Dálcio, aqui vai o site da fera: http://www.dalcio.com.br/

quarta-feira, julho 16, 2008

Cinema

Ao infinito e além!


Personagens fofinhos podem sim render boas histórias.

WALL-E representa o fim de uma era. Último projeto concebido no já folclórico almoço que deu origem a Pixar – e embrião de todas as animações lançadas pela empresa até o momento – a nova empreitada mostra o porquê do estúdio comandado por Steve Jobs ter assumido a posição de líder vanguardista do cinema mundial. Uma ascensão calcada em uma fórmula simples, desprovida de estratégias mirabolantes de marketing que maquiam os defeitos da maioria dos blockbusters desta década. O segredo da Pixar também não é escondido de ninguém. Está aí, para quem quiser ver: trata-se da noção de que um bom filme começa com uma boa história, não importando se essa terá apelo infantil ou se será protagonizada por atores reais ou modelos animados digitalmente.

Um olhar atento sobre as obras da Pixar, passando por seus funcionários, revela o esmero com que estes tratam suas criações. Cada detalhe é pensado, repensado, discutido e rediscutido inúmeras vezes, com a participação de todos e sem autoritarismo – algo que pode ser visto nos making offs dos DVD’s do estúdio. Ali fica fácil perceber que todo o processo é dominado por uma sensação de prazer quase palpável, presente em cada um dos envolvidos. Na Pixar o mais importante é fazer cinema com paixão, postura que explica o diferencial alcançado pelos filmes da empresa, mas que implica em assumir riscos.

WALL-E é o melhor exemplo da filosofia Pixar de fazer cinema. Apostando em uma temática adulta, que envolve desde conscientização ecológica até a massificação da produção cultural, passando por pontuais críticas às megacorporações capitalistas e um romance genuíno. Tudo isso em um filme protagonizado por dois robôs que se comunicam unicamente com sons e gestos, o que em alguns momentos nos remete ao inesquecível Carlitos de Chaplin, devidamente modernizado sob uma roupagem inspirada em ficções como 2001: uma odisséia no espaço e Blade Runner. O resultado pode afugentar adeptos da diversão mais escapista, mas não chega a comprometer o charme perante a criançada. Mesmo assim, o impacto da aposta arriscada se vê claramente nas bilheterias, com WALL-E perdendo por pequena margem para Kung Fu Panda, uma animação mais inclinada aos parâmetros tradicionais.

Quem foi que disse que o romance havia morrido?

Mas esta pequena diferença em nada compromete o reinado absoluto da Pixar. Os números continuam bastante favoráveis, e devem melhorar muito mais com as vendas de DVD’s e brinquedos inspirados na produção. As críticas entusiasmadas à WALL-E também devem garantir o terceiro Oscar para o estúdio e, com isso, mais credibilidade para poder alçar vôos ainda mais ousados, como os que vêm sendo anunciados para o futuro da empresa.

Para a vindoura nova fase, a Pixar pretende expandir seu campo de atuação, desenvolvendo filmes com atores reais. Nada mais natural para uma empresa que sempre tentou não-enxergar fronteiras entre animação e cinema convencional. Uma pena que alguns fãs de animação estejam protestando contra esses novos rumos, com argumentos (ou seriam a falta deles?) no mínimo contraditórios. Eles acham que a empresa não pode dar as costas ao formato que a consagrou. “Seria uma traição”. Ora, justo eles que sempre elogiaram a política da Pixar de enxergar a animação como um formato, e não um gênero em si... Vai entender?

sexta-feira, julho 04, 2008

Cinema

Ponto de equilíbrio


Será que a Marvel não sabe o que significa meio-termo?

Não deixa de ser curioso observar a trajetória do Hulk nos cinemas. Após protagonizar um fracasso de bilheteria, comumente explicado pela trama existencialista demais para os padrões dos fãs de quadrinhos, o personagem ganhou nova chance em um filme que não poupa em cenas de ação e, de vez em quando, se esforça para ser suficientemente simples para não torrar um mísero neurônio da audiência. O resultado: mais um retumbante fracasso de bilheteria.

O que a Marvel deverá culpar desta vez? Ela terá coragem de responsabilizar os atritos com o roteirista-produtor-potagonista Edward Norton? Jogará a bomba em cima da inexperiência de Louis Terrier? Ou será que o estúdio capitaneado por Kevin Feige terá a hombridade de assumir os erros pela política “oito ou oitenta” que norteou as aventuras cinematográficas do “golias esmeralda”?

Tomara que a última opção mostre-se verdadeira. Seria muito fácil culpar Terrier, diretor fraco e sem estilo próprio, contratado unicamente porque a Marvel queria trabalhar com um diretor totalmente submisso à decisão de entupir a fita de ação. Terrier, por sua vez, poderá usar como álibi as amarras criativas impostas pelo ego inflado de um Norton descontente com os rumos impostos pelo estúdio. O ator também poderá empurrar a responsabilidade para debaixo do tapete de quem melhor lhe convir, mas que fique claro: o Hulk poderia fazer sucesso se tivesse tido um tratamento igual ao dado a Homem de Ferro, só pra ficarmos com um exemplo recente de adaptação que respeita o material original, a inteligência dos fãs e a arte de se fazer cinema.

Considero que pouco importa o tempo decorrido de cenas de ação em um filme quando o conjunto da obra é consistente e completo. É preciso equilíbrio, e neste ponto ambas as produções falharam. Admito que gosto muito mais do filme de Ang Lee, inclusive considero que ele possui sim bons momentos de ação, mas acredito que um meio termo entre as duas fitas conseguiria um retorno bem melhor. Duvidam? Vejamos como seria um filme do Hulk caso eu estivesse no lugar do Sr. Feige:


Edward Norton como Bruce Banner: Eric Bana não deixou saudades...

Primeiramente, manteria a história de origem do primeiro longa, mas com Norton encabeçando o projeto. O ator dá vida a um Bruce Banner quase tão perfeito quanto o Tony Stark de Robert Downey Jr. (que dá as caras no final do novo filme) e sem dúvida muito melhor do que aquele vivido por Eric Bana, que apesar de bom ator, pouco tinha haver com o personagem. Já Liv Tyler fica muito aquém de Jennifer Conelly como Betty Ross, não sendo mais do que uma mocinha bonita em perigo, sem conseguir passar o desespero que a personagem exige. Sam Elliot e Willian Hurt mostraram-se igualmente competentes na pele do General Ross (aliás, é até difícil diferencia-los!). Qualquer um dos dois poderia ficar com o papel. O personagem de Nick Nolte teria sua participação reduzida em prol da inserção do Abominável vivido por Tim Roth, talvez o grande achado da segunda produção. A trama de origem favoreceria o drama, e teríamos como contraponto a origem de um grande vilão, o que garantiria a ação do filme. Junte tudo isso ao visual mais realista do Hulk do segundo filme e entregue nas mãos de um diretor competente (podia até ser o Ang Lee de novo). Pena que o Hulk deverá ter seu futuro cinematográfico restrito aos filmes dos Vingadores...

terça-feira, junho 03, 2008

Cinema

Personificação inoxidável!

Downey Jr. dá vida a melhor transposição de um super-herói para o cinema

Se 2007 foi marcado pelas continuações histriônicas que, apesar de campeãs de bilheteria, pareciam atestar ser impossível produzir blockbusters de qualidade, 2008 veio para provar que sim, é possível criar arrasa-quarteirões para um público dotado de mais de dois neurônios. São filmes que não se utilizam somente de efeitos especiais ou de uma franquia estabelecida para angariar público, embora precise ficar claro, tais chamarizes também estão presentes, mas dividem espaço com roteiros inteligentes e uma boa dose de diversão descompromissada. O primeiro e melhor exemplo desta leva, até agora, é Homem de Ferro, mais nova adaptação da interminável lista de personagens oriundos dos quadrinhos.

E para quem achava que tal fórmula já tinha saturado, a Marvel mostra que a era dos heróis no cinema pode estar, quem diria, apenas começando. Homem de Ferro é o primeiro filme completamente bancado com recursos da editora – agora também estúdio – propiciando um tratamento mais cuidadoso com o personagem, o que na prática significou bancar decisões que certamente seriam barradas por um estúdio parceiro. É o caso da escolha de Robert Downey Jr. para o papel principal. Embora hoje saibamos tratar-se de uma escalação perfeita, verdadeira encarnação do vingador dourado em celulóide, Downey Jr. não parecia ser o nome mais indicado quando o projeto ainda estava no papel. Um ator reconhecidamente de filmes, digamos, de viés artístico e pouco comercial, e que nunca havia participada de um projeto tão grande era uma aposta muito arriscada. Somente quem conhecia muito bem o produto que tinha em mãos poderia fazê-la.

Além da semelhança física entre ator e personagem ou mesmo da trajetória de vida desses dois assumidos beberrões, Downey Jr. tinha algo mais para emprestar ao seu Tony Stark: uma alma. Consciente de que esta era sua grande e talvez derradeira oportunidade para desfilar entre as estrelas de primeiro escalão, o protagonista não se contentou em criar um Tony Stark, tornando-se o próprio. Em cada tirada cômica do ótimo roteiro – e são muitas – na canastrice típica de um playboy milionário de meia idade ou na interação com os ótimos Jeff Bridges e Gwyneth Paldrow, Downey Jr. mostra que o filme é dele. Consciente disso, o diretor Jon Favreau trata de construir a atmosfera perfeita para o astro brilhar, garimpando o melhor da origem do Homem de ferro dos quadrinhos, modernizando tudo para o século XXI para criar uma história alicerçada na atual política econômica americana, mas sem as amarras de um didatismo que poderia comprometer o ritmo da história.


Gwyneth: "Eu sei que sou coadjuvante, mas isso não é demais?"

Para quem não o conhece da versão em quadrinhos – e imagino que não sejam poucos – Tony Stark é um super-gênio da ciência, dono da competência de um Professor Pardal mesmo quando a situação o obrigue a trabalhar com menos do que McGyver gostaria de dispor. Herdeiro de um gigantesca corporação armamentista, Stark se define como um patriota, homem que sente orgulho por produzir máquinas de destruição que fomentam o “american way of life” e disseminam a ideologia de Bush pelo mundo. É claro que isso é o mais longe da definição de “herói”, mas não o culpem. Como não ser alienado com tanto dinheiro, uma garrafa de whisky na mão e uma modelo capa da Maxin na outra?

Tudo muda quando o figurão é seqüestrado por rebeldes afegãos que querem obrigar Stark a dar um upgrade em seus armamentos. Ao constatar ter sido emboscado com a ajuda do armamento que produz, Stark percebe que, ao contrário do que ele sempre imaginou, suas armas não são invenções a serviço da liberdade, mas daqueles que pagam mais. Com o pouco que tem em mão o inventor decide dar uma guinada radical em sua vida, construindo algo que possa de fato fazer a diferença para um mundo melhor. Ou pelo menos que o possibilite figurar com pose de super-herói por entre o público feminino, pois Homem de ferro é um perfeito exemplar de filme de super-herói, com bem e mal perfeitamente definíveis, mas com fatores motivacionais menos altruístas, que escapam ao maniqueísmo habitual do estilo.


E como não poderia deixar de ser, o filme possui excelentes cenas de ação

quarta-feira, maio 07, 2008

Cinema

Chega de severidade!


Um beijo roubado não é o melhor Kar-Wai, mas é sim um bom filme!

Ser considerado um ícone no mundo das artes não é ocupação fácil, não importa o campo em que você atue. Depois que um artista consegue renome mundial e tem seu talento venerado, as expectativas em torno de seu próximo projeto tornam-se elevadas demais, o que muitas vezes acarreta julgamentos que, de tão severos, revelam-se um tanto míopes.

As críticas pra lá de duras a Um beijo roubado, primeira incursão do cineasta chinês Wong Kar-Wai no cinema americano, são um exemplo perfeito de como boa parte da crítica se deixa levar pelo “tietismo”, abandonando critérios mais objetivos em suas análises. O novo trabalho de Kar-Wai de fato não está entre os melhores de sua extensa filmografia, mas nem de longe é tão ruim quanto foi dito. Ora, é totalmente compreensível que não se possa criar um Amor à flor da pele todos os dias.

A mudança de ares talvez seja a culpada por tanta falação. É sabido que boa parte da crítica detesta os Estados Unidos, sendo incapaz de ver um filme bom sair daquelas bandas. Mas mesmo a defenestrada Hollywood não foi capaz de limar as peculiaridades do cinema de Kar-Wai, aquelas que o elevaram a condição de ídolo. Em Um beijo roubado estão presentes os personagens melancólicos, a vida noturna permeada pelo neôn, a câmera lenta e a fotografia de planos elaborados, que desta vez fica a cargo de Darius Khondji (Se7en). E para estrear com o pé direito no cinemão ianque, nada melhor do que ter uma protagonista também estreante a tiracolo. A cantora Norah Jones faz sua estréia em Hollywood e não faz feio em frente a nomes consagrados como Rachel Weisz e Natalie Portman, garantindo mais alguns holofotes para o projeto.

Jones vive Elizabeth, garota que acaba de terminar uma relação amorosa e vai buscar consolo com Jeremy (Jude Law, em modo automático) um perfeito exemplar de barman-psicólogo. Após algumas lições de vida meio insossas (Ei, calma! O filme já vai ficar bom!) Elizabeth decide exilar-se de suas recordações e parte para uma jornada rumo ao oeste dos Estados Unidos – seria esta uma referência de Kar-Wai ao western, o “gênero americano por natureza”?


Ironia: O personagem de Jones funciona melhor quando fora de foco

E é quando nossa protagonista passa a ser apenas uma coadjuvante que as estrelas de Jones e Kar-Wai passam a brilhar, ajudados pelas soberbas interpretações de David Strathain, como o policial que não consegue tirar a ex da cabeça; Rachel Weisz, a ex que só quer a chance de seguir em frente; e Natalie Portman, a jogadora inveterada que não se entende com o próprio pai. Todos conferem uma tridimensionalidade marcante para os personagens que vivem. Sentimos que podemos topar com algum deles a qualquer momento, numa destas esquinas da vida, que como bem aprendeu Elizabeth, podem ter muito a nos ensinar. Diante dos dramas alheios que ela passa a acompanhar, sua desilusão ganha contornos medíocres. Elizabeth amadurece, e está pronta para o retorno.

segunda-feira, abril 14, 2008

Cinema

Olhando para trás...


Se Stallone pode, porque eu não poderia?

Antes de mais nada, preciso me desculpar pelo marasmo e preguiça que tomaram minha rotina nos últimos dias. Abril já está pela metade e em breve os blockbusters do verão americano aportarão em solo tupiniquim. Sem dúvida um momento propício – talvez o último! – para lançar um olhar mais crítico e analítico sobre as produções que marcaram o mês de março. Aqui vai uma análise sobre três filmes que assisti durantes aquele mês.

Começo por Rambo IV, a mais nova visita de Stallone ao próprio passado. Aqui ele segue a risca a fórmula apresentada em Rocky Balboa, “um homem tentando encontra sua essência e provar seu valor”. O problema é que o retorno do boxeador emanava certo charme. Era um retorno improvável, ridicularizado por todos, dentro e fora das telas, trajetória que se mesclava com a do próprio Stallone. Torcemos para o triunfo de Rocky sem que para isso o diretor tivesse de apelar ao maniqueísmo. Não existem vilões e mocinhos, apenas um homem que compreende o que é e clama por uma nova chance.

Rambo também compreende sua essência, algo que fica claro no flashback que utiliza cenas das produções anteriores. Mas tentativa de Stallone em traçar um paralelo entre a trajetória dos dois maiores personagens falha porque, ao contrário de Rocky, Rambo não precisa provar mais nada a ninguém. Isso obriga o diretor a criar uma situação justificável para o retorno do herói, que assume a forma de um roteiro bobo, repleto de vilões que são verdadeiras caricaturas para o “mal encarnado”. Ainda sobrou tempo para inserir um grupo de missionários que terão uma “lição de vida” por meio da retórica de Rambo, um interesse romântico (!?) pra lá de forçado e um grupo de mercenários que só estão lá para servir de parâmetro para a inacreditável aptidão do protagonista para a guerra. Tudo elevado a enézima potência no quesito violência, onde Rambo IV estabelece novos recordes para derramamento de sangue em película.

Violência também é uma constante na vida do mafioso russo Nikolai, personagem vivido por Viggo Mortensen no bom Senhores do crime, novo fruto da parceria com o diretor David Cronenberg, que já rendeu o aclamado Marcas da violência. O interessante é que a dupla cria uma história que evolui de forma quase contrária a do longa anterior. Se em Marcas da violência Mortensen constrói um personagem pacato e simples, que aos poucos revelava uma faceta assustadora, aqui ele dá vida a um assassino frio que, com o desenrolar da história, apresenta-se como sujeito de motivações nobres, preocupado com o bem-estar do próximo.

Naomi Watts vive Anna, enfermeira de Londres que presencia a morte de uma prostituta russa em pleno parto. Como a filha da jovem sobrevive, Anna, descendente de russos, assume o compromisso de traduzir o diário da garota a procura de parentes que possam assumir a guarda da criança. Com a ajuda do tio e de um enigmático dono de restaurante – Armin Mueller-Stahl, ótimo – que é mais do que aparenta ser, Anna acaba no meio de uma trama que pode levar a prisão do chefe local da máfia russa. O filme ainda conta com a participação de Vicent Cassel no papel que ele mais gosta de interpretar, o de bandido com sérios distúrbios sexuais. Cronenberg pode não ter atingido aqui o patamar de excelência do filme anterior, mas prova nunca devemos relegar atenção as produções com sua assinatura.


Além de exímio matador, Mortensen leva jeito com as mulheres.

Também é bom prestar atenção ao novo longa de James Magold, Os indomáveis, refilmagem do faroeste Galante e sanguinário, de 1957. O trabalho com um texto clássico, do qual Magold é profundo admirador, faz com que os rumos da história continuem os mesmos, mas com a vantagem de uma produção obviamente mais requintada, com direito a atores tão dedicados quanto os do original. Christian Bale dá vida a Dan Evans, ex-soldado manco que tornou-se fazendeiro e tenta ganhar a admiração do filho ao aceitar escoltar o criminoso capturado Bem Wade – Russel Crowe, magnífico – até o trem que leva os prisioneiros até a detenção da cidade de Yuma.

Logo percebemos que Wade não se encaixa na imagem que Evans faz de um bandido. Consciente da gravidade de seus crimes, Wade jamais tenta se passar por um bom sujeito, o que não impede que ele tenha bons modos e siga um código de honra em certos pontos mais elaborado do que o cultivado pelos guardas que acompanham Evans na jornada. Logo a dupla conquista nossa simpatia, tendo suas performances ofuscadas somente quando um dos pistoleiros comandados por Wade – vivido por um quase sobrenatural Ben Foster – surge na tela, sempre tentando devolver a liberdade do chefe.


Bale e Crowe estão impecáveis nesta refilmagem de um faroeste clássico.

Em breve prometo escrever sobre outras produções que chamaram minha atenção nestes últimos dias. De cara, faço questão de recomendar o novo filme de Wong Kar-wai, Um beijo roubado, que embora não seja a melhor obra do diretor, é um belo filme e uma das melhores pedidas para o fim de semana. Abraços!