sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Cinema

Jovialidade contagiante


Ellen Page conquista o mundo como uma simpática grávida adolescente

Ah, a adolescência! Basta envelhecermos um pouquinho para passarmos a maldizer as gerações atuais. Quantas vezes estive entre amigos reclamando da superficialidade dos ídolos teens, da onda de consumismo aparentemente irrefreável que assola os mais jovens ou da preocupação quase que exclusiva deles para com os temas mais fúteis possíveis. Procurava entender porque as novas gerações insistiam em avalizar porcarias como as terríveis besteiras protagonizadas por gente como Rob Schneider ou os irmãos Wayans. E olha que eu nem sou tão velho assim!!! Tenho só vinte três anos, e sob a ótica de alguns analistas atuais, ainda posso ser chamado de adolescente.

Mas eis que surge no horizonte uma produção chamada Juno, comédia sobre adolescentes voltada para os adolescentes e que, surpresa, não os trata como idiotas. Talvez isso se deva a postura da roteirista revelação Diablo Cody, que parece realmente conheçer o público alvo, ao contrário de tantos executivos que costumam abdicar do cérebro, utilizando os bolsos para pensar. Melhor ainda é saber que o filme é um sucesso arrebatador em todos os lugares que passa, provando que ainda existe muito jovem a fim de utilizar os neurônios, o que destrói meus argumentos iniciais.

Juno, personagem que dá nome à produção, é um bom exemplo desta leva. Com apenas dezesseis anos, a garota interpretada por uma surpreendente Ellen Page encara a vida com maturidade e franqueza raras até em pessoas muito mais velhas. Despojada e espontânea, Juno não economiza em tiradas ácidas, sempre muito segura de suas decisões. A única coisa que falta à garota é um pouco de experiência. Caso ela a tivesse, provavelmente não teria engravidado logo em sua primeira transa.


Um casal; uma gravidez indesejada: fórmula batida; roteiro primoroso

E é esta gravidez indesejada, roteiro já trivial no cotidiano adolescente, que move uma das produções mais encantadoras dos últimos anos. Ancorada em ótimos personagens, todos bem construídos, Juno narra as reações da personagem título diante da “incômoda” situação. Sempre independente e decidida, Juno nem cogita entregar parte da responsabilidade para o pai da criança, Paul Bleeker (Michael Cera), o nerd apaixonado pela personalidade única da garota. Após ter desistido de optar pela “alternativa” mais fácil (um aborto), Juno comunica a gravidez aos pais, e explica que entregará o menino para um casal que ela encontrou nos classificados.

Bonito e bem sucedido, o casal formado por Mark (Jason Baterman) e Vanessa (Jennifer Garner) chama a atenção da garota, que procurou selecionar os melhores partidos para o rebento. Logo ela descobre que os dois são muito diferentes entre si, e que Mark, do alto de seus trinta e poucos anos, é muito mais “adolescente inseguro” do que ela própria. As reviravoltas que sucedem a descoberta descambam para um final que, embora feliz, é demasiadamente inusitado.

A direção precisa de Jason Reitman (Obrigado por fumar) e o texto afiado de Diablo Cody casam perfeitamente. Reitman embala seu produto com o típico visual indie pós Wes Anderson, e de quebra seleciona uma das trilhas sonoras mais inspiradas dos últimos anos. Com um orçamento estimado em pouco mais de dez milhões de reais, Juno é uma produção modesta para o padrão hollywoodiano, e seu sucesso prova mais uma vez que um bom texto, um diretor criativo e atores dedicados podem render dividendos maiores do que entupir filmes com efeitos especiais descerebrados. Juno é um alento para quem anda decepcionado com algumas atitudes da juventude, sendo a prova de que é melhor termos boa vontade com os adolescentes, afinal de contas, talvez sejamos nós que estamos ficando ranzinzas como nossos pais com o passar dos anos...

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Cinema

Crítica com vôo solo


Daniel Day Lewis personifica com maestria o capitalismo selvagem

É difícil não enxergar um “quê” de George W. Bush em Daniel Plainview, personagem que, literalmente, ganha vida na soberba interpretação de Daniel Day Lewis em Sangue Negro. O filme é a adaptação do épico livro Oil!, de Upton Sinclair, sob batuta do jovem, porém já renomado diretor Paul Thomas Anderson. Plainview é uma verdadeira alegoria para magnatas do petróleo e grandes corporações capitalistas, gente que, como ele, é capaz de passar por cima de qualquer princípio em troco de poder e lucro fácil, características compartilhadas pelo atual presidente dos Estados Unidos.

Plainview é o típico empreendedor norte-americano, figura que procura riqueza explorando a ingenuidade de potenciais “sócios” e a pujança de novos nichos de mercado. E no início do século XX, o petróleo era a bola da vez. Desde os primeiros e silenciosos minutos do longa, descobrimos que as atitudes de Plainview são movidas quase que unicamente pela ambição pelo poder. A dor física não deve ser empecilho para o sucesso e a construção de uma família só deve acontecer se esta possibilitar novos dividendos para o negócio. E se esta representar uma ameaça à saúde dos empreendimentos, ela deve rapidamente ser abandonada.

A ambição de Plainview pelo poder possui um fim nela mesma. Ele ludibria camponeses ingênuos, convencendo-os a conceder suas terras para a exploração de petróleo em troca das benesses proporcionadas pelo progresso capitalista, mas não faz isso pensando em enriquecer para poder desfilar pela alta-sociedade, ganhar passe-livre junto aos poderosos ou conquistar uma infinidade de mulheres e ostentar uma vida luxoriosa. Não, Plainview quer mais e mais petróleo apenas para poder dizer que o possui. Na cena em que vemos o brilho de seus olhos ao ter o corpo totalmente coberto pelo precioso líquido, que jorra de um de seus poços, entendemos que o petróleo é mais que um fetiche para Plainview, é o alimento de seu ego.

É claro que um projeto arriscado como este, clara crítica ao comportamento das mais poderosas corporações do mundo atual, poderia soar pretensioso e vazio caso não tivesse sido conduzido por mãos hábeis como as de Paul Thomas Anderson. Rompendo com o estilo herdado de Robert Altman, onde a narrativa fluía por meio de verdadeiros mosaicos de personagens, Anderson entrega seu Sangue Negro quase que inteiramente ao talento de Day Lewis. O filme é todo dele para brilhar, sendo que apenas três coadjuvantes têm real importância para a trama. São eles o filho adotivo H.W., que Plainview utiliza para ganhar um ar de empresário de família; o suposto irmão Henry, último elo do prospector com o antigo seio familiar; e o pastor protestante Eli Sunday, único rival à altura do protagonista, homem que capitaliza sua influência em torno da fé, mercadoria capaz de rivalizar com o dinheiro, embora ambas quase sempre andem de mãos dadas.


Plainview é capaz de usar o filho adotivo para melhorar a própria imagem

Sunday revela-se um entrave para os projetos de Plainview. A capacidade oratória do pastor (vivido pelo jovem Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) rivaliza com a do prospector, e alguns fiéis passam a cobrar uma maior proximidade do empresário com os “assuntos divinos”. Algo que Plainview reluta em fazer, pois reconhece ele próprio na figura do pastor, um falso profeta que usa a boa-fé dos outros para conseguir prosperar. Em suma, Eli não quer ficar mais próximo de Deus, apenas ter mais poder e influência que o prospector.

Mas ao contrário do que o senso comum possa imaginar, Plainview não chega a configurar-se na personificação do mal-encarnado. Anderson é suficientemente sábio para não retirar todos os traços de humanidade do personagem, o que possibilita até mesmo uma certa identificação do público com aquele. Apesar de toda a ambição e de ter conseguido prosperar no negócio, podemos notar um vazio na alma do magnata do petróleo. Existe, sim, um afeto verdadeiro dele para com o menino H.W., apesar da forma pouco sensata que Daniel conduz a criação do filho. Posteriormente, a aproximação do suposto irmão revela que o protagonista sente falta de um ambiente familiar. Mas, novamente, basta seu “império” ser ameaçado para que o personagem volte a embarcar na solidão de seus projetos, realizando tudo conforme suas crenças, não lhe importando críticas externas ou o prejuízo das relações com terceiros. Alguém mais percebe um “quê” de Bush nisso tudo?

domingo, fevereiro 17, 2008

Cinema

Honrados mafiosos


Lucas: Esquema familiar para levar um negro ao topo do tráfico

Filmes de mafiosos são, desde muito tempo, um gênero em Hollywood. E não poderia mesmo ser diferente. O crime organizado é celeiro de histórias impensáveis no cotidiano do restante da sociedade, vivenciadas por homens que já viram e fizeram de tudo, conseguiram dinheiro e poder, e mataram para que estes não lhes fossem retirados. Sem dúvida, uma inesgotável fonte de inspiração para a indústria.

O fascínio exercido pelo mundo da ilegalidade retratou organizações criminosas oriundas dos mais diversos cantos do mundo, rendendo filmes memoráveis, mas nunca uma superprodução do gênero havia sido protagonizada por um negro. Uma aposta bancada pelo já calejado diretor Ridley Scott, que só agora resolveu aderir ao clube dos que abraçaram tal filão. E o personagem principal de O gângster não é um homem qualquer. Frank Lucas é um personagem da vida real, que virou de cabeça pra baixo o cenário criminoso da Nova York dos anos setenta, sendo o primeiro negro a conseguir ultrapassar o volume de negócios dos traficantes da máfia italiana.

Para contar sua história, Scott decidiu dividir o longa em dois focos narrativos paralelos. O primeiro diz respeito à ascensão criminosa de Lucas (encarnado com excelência por Denzel Washington) enquanto o segundo retrata o trabalho do investigador Richie Roberts (vivido por um competente Russell Crowe) para desvendar o esquema implantado pelo mafioso. O formato evidencia os contrastes entre os protagonistas – um é capaz de quase tudo para subir na vida, o outro não consegue se dar bem por ser incapaz de infligir regras – mas também deixa claro que o senso ético (conceito extremamente pessoal) é o pilar que sustenta as ações de ambos.

Lucas baseou todo seu negócio em um modelo familiar, empregando apenas fparentes, em uma estrutura semelhante a da máfia siciliana. Cortou os intermediários para os fornecedores e foi pessoalmente buscar heroína no Vietnã dominado pela guerra. Com o auxílio dos militares, conseguiu garantir o produto mais puro da cidade pelo menor preço, mas sempre atuando de forma discreta. Seu dia-a-dia era marcado por atividades corriqueiras, onde eram priorizados a família e o trabalho. O mafioso nunca quis ver seu nome catapultado para os noticiários, uma postura que dificultava o trabalho de Roberts, fator que adiciona um elemento de perseguição à lá “gato e rato” à trama.


Crowe é um coadjuvante de luxo, com direito a subtrama paralela

O detetive também coloca o trabalho em primeiro lugar, o que faz com que sua mulher o abandone, levando consigo o filho pequeno. Esta postura também dificultou a vida dele dentro da polícia. Após devolver um milhão de dólares encontrados no porta-malas de um criminoso, Roberts perdeu o respeito dos colegas, mas não se importou nem um pouco. Bastava que qualquer um deles pisasse na bola para que o investigador aplicasse o rigor da lei.

A força de O gângster reside justamente nesta dicotomia e na noção de que toda ela foi baseada em fatos reais. O retrato sem floreios da degradação do “sonho americano”, na corrupção das instituições e na apropriação do ideal de terra da “livre iniciativa”, como forma de endossar a opção pelo crime, confere caráter político ao enredo, uma constante no profícuo gênero dos filmes de gângsteres. Rildey Scott soube beber da fonte, deu forma para mais um grande representante do estilo e, ironicamente, renovou seu vocabulário adotando as nuances de um dos formatos mais difundidos e copiados em Hollywood.

domingo, fevereiro 10, 2008

Cinema

Bola da vez


Javier Barden e seu cabelo tigelinha dão vida a um soberbo assassino

Mesmo quando apelam para o humor mais fácil, em projetos com nítido viés comercial – Matadores de velhinhas e O amor custa caro são bons exemplos – os irmãos Joe e Ethan Coen dificilmente perdem o aval da crítica. Imaginem então como é a reação desta quando a dupla resolve entregar um produto maduro, enxuto de piadas prontas e com personagens extremamente densos, no que pode ser considerado um de seus melhores longas. Falo sobre Onde os fracos não têm vez, produção que deixou a crítica de joelho, e que vem arrematando uma quantidade cada vez maior de notas máximas nos veículos especializados.

Apesar de toda reverência dos críticos, os Coen nunca foram grandes “papadores” de Oscars – só levaram a estatueta de melhor roteiro original por Fargo, em 97. Onde os fracos não têm vez tem tudo para por um fim nesta escrita, sendo favoritíssimo na premiação deste ano, exatamente uma edição depois da academia ter agraciado o também injustiçado Scorcese por Os infiltrados. O interessante é que ambos os filmes não possuem o perfil usual de ganhadores da estatueta, sendo marcados pela violência e recheados com personagens de moral duvidosa.

A violência não é nenhuma novidade do cinema dos Coen, assim como a personagens com desvios de caráter também não. Mas em Onde os fracos não têm vez os irmãos abandonam a estética estilizada que os colocava próximos de gente como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O tom sério e contemplativo do texto do escritor Cormac McCarthy – está é a primeira vez que os irmãos adaptam um texto – faz com que o conteúdo da fita situe-se em um ponto entre a caricatura e a realidade de um mundo cada vez mais violento, onde quem ainda segue as regras simplesmente “não têm vez”.


Tommy Lee Jones é um velho xerife que analisa a degradação da sociedade


O encarregado de deixar esta mensagem clara para o público é o xerife Ed Tom Bell, personagem de Tommy Lee Jones. Bell não protagoniza a história, mas torna-se uma espécie de “testemunha ocular” das atrocidades cometidas pelo assassino profissional Anton Chigurgh, em sua caçada empreendida ao cowboy Llewelyn Moss (Josh Brolin, outra grande atuação). Este teve a sorte – ou o azar – de encontrar uma maleta recheada de dólares perdida em meio ao cenário de uma chacina, e logo entrou na mira de Chigurgh. Cabe a Bell empreender uma investigação que possa ajudar Moss e a esposa a saírem com vida desta enrascada.

O problema é que os Coen não fazem concessão a um final feliz nem tentam fornecer um moral à história. Como bem diz Chigurgh para Moss, “eles sabem como aquilo irá acabar”, e diante daquela perseguição à lá gato e rato, fica claro que o desfecho não podia ser dos melhores. Embora não possua um clímax definido, Onde os fracos não têm vez funciona de forma soberba como faroeste, alternando momentos de pura tensão com reflexões sobre o caráter dos personagens. E o “velho oeste”, agora modernizado, é o cenário perfeito para uma história onde as boas ações são mal recompensadas.

Vivido por um inspiradíssimo Javier Barden, a maior barbada do Oscar deste ano, Chigurgh revela-se um sujeito frio e meticuloso, que jamais desiste ou perde o foco. Sua insanidade fica evidente logo em sua primeira aparição, quando vemos a face da loucura enquanto ele dá cabo de um guarda. O penteado tigelinha, o semblante frio e a obsessão pelo acaso de um cara ou coroa parecem saídos das páginas de um gibi, não fosse a evidente semelhança com os cada vez mais numerosos adolescentes assassinos da terra do Tio Sam.

Chigurgh se torna uma incógnita para a tese apresentada por Bell sobre os dias atuais. “O que leva um homem a agir desta maneira?”. Os Coen não oferecem a resposta, em um final que claramente irá decepcionar muita gente. Mas ao menos uma certeza nos resta quando a sessão acaba: os bons tempos ficaram para trás.


Josh Brolin precisa sobreviver à implacável caçada de Chigurgh

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Cinema

Na trave


Uma dupla cativante luta para sobreviver; o filme só precisava deles

Após contar um personagem maravilhoso em sua estréia como diretor, em Constantine, Francis Lawrence foi mais uma vez abençoado com um excelente protagonista para contar uma história, e desta vez com o adicional de poder contar com o maior astro da atualidade para o interpretar. Em Eu sou a lenda, Will Smith precisa apenas da primeira seqüência para fazer seu Robert Neville cair no gosto do público, sendo o pilar que sustenta um filme que tinha tudo para ser uma obra-prima, mas acaba frustrando a expectativa por conta de decisões pouco acertadas no desenrolar da trama.

Neville é, aparentemente, o último sobrevivente humano de um vírus que deu cabo de mais de noventa por cento da população, tendo transformado outra boa parte em aberrações, formando um misto entre vampiros e zumbis. Estes, por sua vez, devoraram praticamente todos aqueles imunes à praga. Isto deixa Neville – ou melhor, Will Smith – com uma deserta Nova York inteiramente sua para brincar. O cenário de gigantescas avenidas, completamente desertas, é perfeito para perseguir cervos fugidos do zoológico a bordo de um carrão esportivo. Uma cena que parece egressa de um game dos consoles da nova geração. Ver a maior metrópole do mundo entregue a um só homem dá a exata dimensão do drama vivido pelo protagonista, mesmo em uma cena carregada da mais pura adrenalina.

E é aí que Eu sou a lenda revela sua faceta mais interessante. Trata-se de um filme sobre a solidão e sobre como ela pode afetar nossa percepção e atitudes. A excepcionalidade da situação proporciona que Smith construa um personagem muito mais atormentado do que aquele vivido por Tom Hanks em O náufrago, outro exemplo de filme de “um homem só”. Se Hanks teve de recorrer a uma bola de vôlei para exteriorizar seus sentimentos, Smith tem a sua disposição a adorável cadela Sam, além de uma vasta gama de manequins e filmes. São eles que sustentam a sanidade de Neville, que precisa dela porque se auto-impôs a missão de encontrar uma cura, projeto em que estava envolvido antes mesmo da pandemia.


Tudo caminhava bem até a aparição dos monstros digitais

O diretor também sabe construir um clima de suspense sobre os monstros enfrentados por Neville. Notívagos, os bichos ficam sempre às escuras, criando seqüências de deixar o cabelo em pé apenas com vultos e sons estranhos. E quão grande é a decepção do espectador quando eles finalmente dão as caras. Com um visual propositalmente digitalizado, capaz de atrair a atenção da molecada sem elevar a classificação indicativa do filme, as criaturas contrastam demais com o restante da produção, que até agora obtinha sucesso com um drama intimista sobre a dificuldade de viver só. Para piorar, a montagem do filme acaba enfraquecendo o recurso do flashback, onde Neuville é visto com a família na tentativa de deixar a cidade antes que esta fosse isolada do restante do mundo. O que serviria perfeitamente como introdução acontece muito perto do clímax, quando o desenrolar dos fatos já não interessam ao espectador. E isso apenas para justificar uma reviravolta forçadíssima no final, ao maior estilo M. Night Shyamalan.

Alice Braga é outra que sofre nas mãos dos roteiristas. A brasileira vive Anna, personagem que aparece no final da história apenas para dizer que Neville não está só, e que Deus tem outros planos pra ele – sim, ela diz isso! Pior é constatar que a equipe não encontrou forma de estabelecer uma conexão entre os dois, apelando para um diálogo musical, onde Anna, pasmem, não conhece o trabalho de Bob Marley! Uma confissão em película de que a equipe não sabia como conduzir a história a partir daquele ponto.

Pena, já que Eu sou a lenda tinha tudo para figurar entre os melhores filmes do ano: ótimas seqüências de ação, fotografia e direção de artes impecáveis, um protagonista pra lá de dedicado e um diretor talentoso, mas que infelizmente ainda não possui voz para peitar executivos ávidos por alguns milhões de dólares a mais.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Cinema

Estilo inglês


Será que alguém consegue tirar a estatueta de Desejo e reparação?

Ninguém deve estar torcendo mais pelo final da greve dos roteiristas norte-americanos que o diretor inglês Joe Wright. Seu mais novo longa, Desejo e reparação, foi premiado com o Globo de Ouro na categoria de melhor filme de drama e, graças à paralisação, Wright não pode desfrutar do glamour de exibir o troféu para milhões de espectadores planeta afora. Como Desejo e reparação segue como um dos favoritos para abocanhar o Oscar de melhor filme deste ano, o diretor deve estar aflito com a possibilidade de ver a maior conquista de sua carreira passar batida aos olhos do público.

E com razão. Desejo e reparação mostra que o estilo de direção que atraiu o olhar da crítica especializada em Orgulho e preconceito está mais maduro e competente. Wright confere ritmo singular ao novo projeto, onde praticamente todas as seqüências vão aos poucos formando um quebra-cabeças que só tem o conteúdo real revelado ao ficar completo. No princípio, o estilo pode causar estranheza ou mesmo desagradar os desavisados, mas o desenrolar da trama conduz o espectador por caminhos improváveis, surpreendendo a cada flashback ou avanço cronológico que explicam a natureza dos acontecimentos.

Em uma Inglaterra prestes a entrar na Segunda Guerra, a jovem Briony demonstra notável talento para a escrita. Inconformada com a paixão da irmã mais velha Cecília (Keira Knightley) pelo filho da governanta Robbie (James McAvoy), a aspirante à dramaturga intervém no romance, acusando o rapaz de um crime que não cometeu. Tal atitude, juntamente com o desenrolar da guerra, irão mudar completamente a relação destes personagens, exceto pela paixão do casal protagonista (ou seria Briony o verdadeiro destaque?) que não diminui. As motivações e o desencadeamento dos fatos são mostrados por meio de uma montagem inteligente e sensível, o grande destaque do filme. Também é preciso ficar atento às pequenas metáforas visuais projeção, como na cena em que Briony tenta desesperadamente lavar as mãos e à excelente trilha sonora, que mistura sons do ambiente a temas clássicos, compondo a sinfonia ideal para embalar as lembranças de Briony.


Reflita após o término da projeção: houve um final feliz?

E é justamente em seu segmento bélico que o longa perde um pouco a força. Mostrado antes de conhecermos alguns detalhes da trama, esta fase parece destoar do restante da história, principalmente em um elaborado plano-seqüência que mostra a retirada das tropas inglesas de Dunquerque, na França. Apesar de belíssima, a grandiosidade da cena é irrelevante para o desenrolar da história, um verdadeiro exercício alto-indulgente de virtuosismo, que parece ter sido inserido para atestar eventuais estatuetas de melhor fotografia e direção. Apesar desviar a atenção do ponto forte da produção – sua excelente história – o plot não chega a comprometer o resultado final.

Caso vença a disputa pela estatueta, Desejo e reparação comprovará a força da retomada do cinema inglês nos últimos anos. É bom Hollywood tomar cuidado: caso a greve continue por muito tempo, os americanos já possuem uma ótima alternativa para continuarem assistindo filmes em sua língua natal.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Cinema

Guerra de sexo


Verhoeven segue a risca sua receita de mesclar sexo e violência

Paul Verhoeven é um pervertido, na acepção mais elogiosa que a palavra pode receber. Seu fascínio por violência e sexo nos garantiu pérolas como O vingador do futuro, Tropas estelares e Instinto selvagem, todas repletas de sangue e libido, sempre com muito impacto visual e sem papas na língua. O estilo inconfundível também moldou os controversos O homem sem sombra e Showgirls, sendo que o último, mesmo sendo defenestrado constantemente em relações de filmes ruins, ainda conseguiu atrair um séqüito de fãs fervorosos, tudo graças ao trato que o diretor possui com cenas pra lá de “picantes”.

A espiã, sua mais nova empreitada, felizmente fica mais próxima do primeiro grupo. A produção marca o retorno de Verhoeven à sua Holanda natal e à temática da Segunda Guerra, retratada no clássico Soldado de laranja. A violência faz-se presente, é claro, mas o tom estilizado que nos acostumamos a ver nas obras do cineasta dá lugar a uma abordagem mais realista das barbáries cometidas por Nazistas e Aliados, um esforço claro para permanecer neutro, longe do maniqueísmo que costuma rondar produções desse tipo, potencializado por um roteiro que constantemente força a protagonista a rever conceitos e analisar o caráter dos companheiros.

Ellis, vivida magistralmente por Carice van Houten (já terei visto a melhor interpretação de 2008!?) é uma judia que luta para escapar da perseguição alemã na Holanda de 1944. Em uma fuga mal sucedida, ela testemunha a execução brutal de diversos judeus, entre eles, sua família. A dor da perda alimenta um revanchismo que faz a moça juntar forças à resistência holandesa. Eles propõem que ela se aproxime de um comandante alemão que demonstrou claro interesse pela bela figura de Ellis disfarçada como ariana legítima. O problema é que o oficial em questão pode não ser o real inimigo, o que obrigará nossa heroína a redobrar o cuidado em todas as frentes
.


Carice van Houten é o grande achado da produção

Se Verhoeven puxou um pouco o freio na violência para soar mais realista, no campo do sexo ele engata a sétima marcha. A espiã está longe de ser uma “pornochanchada” como Showgirls, mas depende em demasia da sexualidade para o desenvolvimento da trama. Ellis está disposta a tudo pela missão, o que fica claro na seqüência em que ela tinge os pêlos pubianos para disfarçar sua origem racial, mostrando que dormir com o inimigo é um sacrifício calculado.

Verhoeven consegue imprimir um ritmo instigante à trama e suas incontáveis reviravoltas, mas não atinge a perfeição de outrora por conta de certos deslizes narrativos, em especial o envolvimento afetivo de Ellis com seu espionado, que soa forçado por dar-se de maneira abrupta e, até certo ponto, inexplicável. O diretor pode argumentar que é impossível explicar a natureza de uma paixão e suas nuances. No amor, na guerra e também no cinema de Verhoeven, vale tudo.

Mas estes são apenas alguns pormenores que não tiram o brilho do retorno de um dos cineastas mais marcantes da virada dos anos oitenta para os noventa. Verhoeven prepara-se agora para voltar a Hollywood, no comando da superprodução Thomas Crown 2. Ele pode voltar sem o prestígio dos tempos áureos, mas traz na bagagem uma produção que atesta sua competência em fazer cinema de qualidade.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Cinema

Melhores de 2007

Um novo ano começa e, naturalmente, muitas novidades dominarão os doze meses que teremos pela frente. Mas durante os primeiros dias é sempre muito difícil escapar daquele sentimento saudosista em relação ao ano que foi embora. Por isso mesmo, o alvorecer de um novo ano é momento propício para fazer um balanço dos prós e contras do anterior. E aí pipocam listas de melhores e piores do ano em tudo quanto é lugar.

O Script! não fica de fora dessa mania, apresentando sua relação de melhores do ano no cinema em 2007. Apesar de não serem a coisa mais original do mundo, as listas geralmente servem como ótimos guias para quem passou batido por alguns lançamentos e quer usar a energia do começo do ano para recuperar o tempo perdido. Mãos à obra e feliz 2008!!!

Os dez melhores filmes de 2008 segundo o Script!
Dois mil e sete apresenta uma ligeira queda de qualidade quando comparado ao seu antecessor. Mesmo assim tivemos chance de conferir muita coisa boa:

10º lugar – O ultimato Bourne (Paul Greengrass)
Inteligência e ação cabem sim no mesmo filme. Pelo menos na trilogia do Jason Bourne vivido por Matt Damon, que ganhou um apoteótico capítulo final nas mãos do diretor Paul Greengrass. O cara soube misturar suspense, ação e o drama de um homem que é apresentado ao seu passado sem perder o rumo da narrativa, mesmo filmando em dezenas de locações espalhadas mundo afora.

9º lugar – Zodíaco (David Fincher)
David Fincher abdicou de suas famosas experimentações técnicas para deixar o terreno livre para o elenco brilhar neste thriller às avessas. O longa – baseado em uma história real – não se preocupa em apontar um culpado para crimes que nem a polícia conseguiu solucionar. Os ataques em si também não são o destaque. Fincher preferiu colocar o foco na obsessão dos envolvidos em resolver o caso e nas falhas de comunicação que permitiram ao assassino ficar impune. Destaque para a soberba atuação de Robert Downey Jr.

8º lugar – Borat (Sacha Baron Coen)
O maior fenômeno do ano que passou deve todo o seu sucesso ao impressionante desempenho do humorista Sacha Baron Coen, que não precisou de um orçamento turbinado para alcançar o sucesso. Para Coen, bastaram talento, coragem e a originalidade do formato escolhido – um falso documentário feito por um repórter do Cazaquistão – e zoar com os preconceitos do povo norte-americano. Graças à divulgação maciça na Internet, Borat fez rios de dinheiro para a Fox, alçou Coen ao estrelato, fez aumentar o turismo no Cazaquistão e provou que ainda existe vida inteligente nas comédias cinematográficas norte-americanas.

7º lugar – O hospedeiro (Bong John-Hoo)
De uns anos pra cá a Coréia despontou como potência cinematográfica, lotando as programações de diversos festivais. Mas se sobravam obras autorais, ainda faltava um legítimo blockbuster na filmografia do país, um filme capaz de chamar a atenção do grande público. O hospedeiro preenche este espaço, sem dever nada aos concorrentes americanos, com a ligeira vantagem de soar original. O legítimo “filme de monstro” de Bong John-Hoo se sai bem como drama familiar, comédia ou como crítica à política americana e seus métodos alheios à destruição do meio ambiente.

6º lugar – O despertar de uma paixão (John Curran)
Edward Norton e Naomi Watts estão entre os atores que melhor selecionam seus projetos em Hollywood. Logo, uma produção que reunisse ambos dificilmente escaparia do rótulo de filmaço. A refilmagem do clássico O véu pintado é exatamente isso, um ótimo filme ancorado em excelentes interpretações da dupla protagonista, na direção segura de John Curran e na belíssima fotografia de Stuart Dryburgh, uma equipe capaz de retratar a transição da milenar tradição chinesa para a modernidade por meio de um conturbado casamento arranjado.

5º lugar – Tropa de elite (José Padilha)
Tropa de elite
pode não ter superado a bilheteria de Dois filhos de Francisco, mas certamente atingiu um público muito maior. É difícil precisar até que ponto a pirataria descontrolada atrapalhou a arrecadação ou ajudou na divulgação do filme. O certo é que ainda vai levar tempo para que o povo esqueça os bordões do Capitão Nascimento, interpretado magistralmente por Wagner Moura.

4º lugar – O homem duplo (Richard Linklater)
Philip K. Dick é um dos escritores mais adaptados para o cinema, e geralmente com produções bem acima da média. Mas a obra mais pessoal de Dick só ganha anos após a morte do escritor. Uma pena, pois certamente ele aprovaria a viagem lisérgica proporcionada pelo diretor Richard Linklater e sua técnica de rotoscopia digital, que deixa tudo com cara de animação. O elenco estelar também se destaca, apesar das feições estilizadas. Keanu Revees compensa a falta de talento para atuar com a escolha de um ótimo papel – de novo! Tem bom gosto o rapaz!

3º lugar – Maria Antonieta (Sofia Coppola)
As vaias em Cannes fizeram Sofia Coppola chorar, mas a alegria deve ter retornado logo, quando o mundo percebeu que os franceses estavam muito mais descontentes em ver uma Maria Antonieta bem retratada do que com a qualidade do filme em si. Mais uma vez a diretora nos brinda com seu vigoroso frescor narrativo, que a coloca facilmente na ilustre posição de cineasta mais moderna da atualidade. O Oscar de figurino serviu como alento para as injustas vaias, mas não fossem estas, certamente Maria Antonieta teria abocanhado algo maior.

2º lugar – O cheiro do ralo (Heitor Dhalia)
A febre de adaptações de quadrinhos chegou ao Brasil e escolheu justo uma obra de Lourenço Mutarelli, um de nossos quadrinhistas mais amalucados, para dar o pontapé inicial. Tudo bem que O Cheiro do ralo foi adaptado de um livro e não de uma HQ propriamente dita, mas carrega em seu texto genial muito da leveza e agilidade narrativa da mídia na qual Mutarelli começou a carreira. Acompanhado do diretor Heitor Dhalia e do astro Selton Mello (soberbo!) Mutarelli encontra o terreno ideal para destilar seu humor negro na história de um sujeito antipático que apaixona-se por uma bunda.

1º LUGAR – Ratatoille (Brad Bird)
O talento de Brad Bird para contar uma história parece sobrenatural. Em todos os seus projetos ele mostrou que a animação não deve ser vista como gênero, e sim como ferramenta para a produção de um filme. O diretor não enxerga diferenças entre o desenvolvimento de um desenho animado para o de um filme tradicional. Talvez por isso seus personagens sejam tão cheios de vida e personalidade. Não fossem o preconceito e a restrição da academia, Ratatoille poderia concorrer em diversas categorias do Oscar, desde prêmios para as interpretações, até os de melhor montagem ou fotografia. Não vai acontecer, e talvez Ratatoille nem consiga a estatueta de animação, já que a obra-prima Persépolis estreou em circuito restrito nos Estados Unidos. Como se trata de uma animação de viés político, ela tem boas chances de desbancar o melhor filme de 2008 na premiação.

Melhor ator – Wagner Moura (Tropa de elite)
Uma barbada. Tudo bem que Selton Mello está fenomenal em O cheiro do ralo, que Robert Downey Jr. roubou a cena em Zodíaco e O homem duplo, mas Wagner Moura tornou-se a personificação do policial do Bope. A instituição provavelmente terá sua imagem vinculada aos arroubos de violência do Capitão Nascimento durante muitos anos. Wagner Moura é, sem dúvida, o maior responsável pela sociedade brasileira ter finalmente discutido qual é o perfil ideal para nossa polícia. Uma conquista maior do que qualquer prêmio.

Melhor Atriz – Naomi Watts (O despertar de uma paixão)
Dois mil e sete foi um ano marcado por fortes personagens masculinos, mas foram poucas as mulheres que tiveram papéis de destaque na telona. Destas, Naomi Watts provou mais uma vez ser um dos maiores talentos de sua geração, na pele de Kitty, uma mulher que é obrigada a casar com quem não ama, passa a trair o marido, e por meio da situação mais improvável, apaixona-se perdidamente por ele. Watts cria sua personagem com elegância e sutileza, como pedem os filmes de época, mostrando que não é preciso “histrionismos” para conseguir se destacar.

Melhor diretor – Brad Bird (Ratatoille)
É triste constatar que Bird só estará no panteão dos grandes diretores se um dia passar a dirigir filmes com atores reais. O preconceito contra animações já foi manifestado até pela academia, que criou uma categoria à parte para o formato, como se não fosse possível que desenhos competissem com filmes convencionais. Mas isso não é problema para Bird. Apesar do diretor já ter manifestado vontade de dirigir um filme “live action”, ele continua apaixonado pela animação, e não admite interferências de estúdios que queiram tornar seus longas menos “inteligentes” e mais atrativos ao público infantil.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Cinema

É um desenho?

A lenda de Beowulf inova no campo da animação para adultos

Desde de quando vi o primeiro trailer de A lenda de Beowulf, um sentimento de desconfiança pairou sobre minha cabeça. O longa, dirigido por Robert Zemeckis, utilizaria a mesma técnica de captura de performance dos atores vista no controverso O expresso polar, do mesmo Zemeckis, famoso por ter sido o primeiro longa realizado dessa maneira. O expresso polar também ficou marcado como um filme extremamente chato, com um visual que, embora chamasse atenção, exalava artificialidade.

Por outro lado, o roteiro de A lenda de Beowulf levaria as assinaturas da dupla Roger Avary e Neil Gaiman. O primeiro é conhecido pela colaboração com Quentin Tarantino no soberbo texto de Pulp Fiction; o segundo é um famoso escritor de quadrinhos – responsável pela série Sandman – e dono de alguns best-sellers no campo da literatura fantástica. Ambos enchiam o projeto de credibilidade.

Durante o longa é fácil perceber o quanto eles foram importantes para o saldo positivo apresentado nos 113 minutos de projeção. Zemeckis já havia provado ser um diretor talentoso na trilogia De volta para o futuro. Seu A lenda de Beowulf deixa claro que tudo que ele precisa é de um texto com qualidade para emplacar uma boa aventura. Se bem que estar de posse dos avanços tecnológicos proporcionados pelos três anos que separam O expresso polar do novo projeto ajuda muito no resultado final. A lenda de Beowulf é um épico cheio de magia, como há muito não se via nas telonas, em boa parte devido ao visual único, capaz de gerar combates empolgantes com bestas marinhas, dragões e ogros gigantescos a um custo acessível, algo impensável caso o filme seguisse o processo tradicional. Em alguns momentos até nos esquecemos que estamos assistindo a uma animação (seria este o melhor rótulo para o projeto?) e poucas vezes nos deparamos com os rostos artificiais que permeiam O expresso polar.

A história é baseada em um famoso poema épico, considerado o mais antigo registro em língua inglesa, que narra os feitos de Beowulf, famoso matador de monstros que se torna rei após aceitar uma proposta do único adversário que não podia derrotar.

As interpretações de feras do gabarito de Anthony Hopkins, John Malkovitch e da belíssima Angelina Jolie consolidam a força do projeto. Todos tiveram seus movimentos e feições capturados pelo computador, sendo impossível não reconhecer seus traços nos personagens, tamanha a perfeição do processo. Chega a ser irônico que apenas o protagonista, vivido por Ray Winstone, em pouco se pareça com seu intérprete na vida real. Fica difícil enxergar o gordinho Winstone dentro da pilha de músculos que compõem o jovem herói Beowulf. Os produtores até poderiam ter optado por outro nome, mas a imagem de bardo falastrão de Winstone o torna perfeito para o papel. Ele ainda serve como prova de que a tecnologia pode abrir novas portas para atores estigmatizados para certos papéis e personagens. Imaginem o franzino Steve Busceni ou então Woddy Allen na pele de um poderoso guerreiro medieval ao maior Arnold Schwarzenegger!

Winstone gostou da brincadeira. O visual saradíssimo conseguiu empolgar até mesmo sua esposa. Já Angelina Jolie confessou ter ficado um tanto “tímida” ao se ver nua no projeto que julgava apropriado para seus filhos pequenos. Não que a senhora Pitt tenha reprovado o que viu. O problema é que o resultado ficou muito próximo da realidade. Quem diria que um dia Angelina Jolie ficaria constrangida em expor sua intimidade em uma animação...



A parafernália responsável pela técnica caiu bem em Angelina Jolie

sábado, dezembro 29, 2007

Cinema

Filme de arte


Não se deixe enganar pelo título: Goya não é o centro das atenções...

Não foram poucos os críticos que classificaram Sombras de Goya como uma nova incursão do diretor Milos Forman no rico universo criativo que move o trabalho de grandes artistas – no caso, o pintor Francisco Goya. A leitura destes – incorreta, é bom frisar – foi motivada por um insensato esforço em traçar um paralelo com um dos grandes clássicos do diretor, Amadeus, que apresenta os rompantes criativos de Wolfgang Amadeus Mozart.

O fato é que a narrativa de Sombras de Goya sequer gira em torno do pintor espanhol, e quando o faz, perde um pouco de força. Em seu novo longa, Milos Forman usa a obra de Goya como pano de fundo para tecer um interessante retrato dos jogos de poder praticados entre clero, monarquia e revolucionários republicanos entre o final do século XVIII e início do XIX, com a constatação de que pouco importa quem está no poder, o povo sempre acaba perdendo.

Inês (Natalie Portman) é uma das musas inspiradoras do trabalho de Goya (Stellan Skarsgärd). O rosto dela aparece em diversas obras do pintor espanhol, o que chama a atenção do clero, que andava descontente com a perda de poder para a monarquia e não via com bons olhos parte da produção artística do pintor. Após reabrir os porões da Inquisição, Padre Lorenzo (Javier Barden) consegue um pretexto para condenar a bela Inês às torturas impostas pela contra-reforma. Submetida às piores provações, Inês sucumbe à dor e confessa atos que não cometeu.

Goya, homem influente junto à monarquia e com contatos no clero, tenta interceder pela família de Inês, que deseja a libertação imediata da moça. Em vão. Inês fica presa durante quinze anos e sai da cadeia durante a invasão de tropas francesas. Tomada em parte pela loucura, ela nem consegue perceber o novo cenário político que emerge no país, dominado pelas forças de Napoleão. Republicanos chegam até a Espanha prometendo as melhorias da democracia e a libertação da opressão religiosa. Promessas que, por ironia do destino, são disseminadas pela mais improvável das figuras. É aí que uma nova incursão estrangeira chega ao país, e com ela, uma nova inversão de papéis acontece.


Javier Barden rouba a cena na pele do soturno Padre Lorenzo

O filme não representa uma crítica direta aos atos da Inquisição. Tampouco àqueles cometidos pelos invasores franceses ou pelos ingleses que os sucederam. Forman não faz distinção entre os lados e mostra que, apesar de rotularem-se como diametralmente opostos, seus métodos são extremamente parecidos.

Vale destacar a ótima interpretação de Javier Barden na pele do padre Lorenzo e a beleza e sensibilidade de Natalie Portman como Inês e, posteriormente, no papel de sua filha adolescente. Mas a grande força de Sombras de Goya reside na mão firme de Milos Forman. Aos 75 anos, o diretor mostra que, apesar de não ostentar o respeito que merece após uma carreira marcante, continua apaixonado pelo cinema e sua riqueza narrativa.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Cinema

Sem medo de ser "trash"

Rose McGowan alimenta o fetiche dos fanáticos por armas de fogo

Quentin Tarantino e Robert Rodriguez podem até não ser unanimidade em Hollywood, mas poucos contestam que a dupla seja responsável pelas maiores revoluções no formato do cinema norte-americano atual. Agora, os dois voltam a somar forças. Desta vez eles não tentam criar novos parâmetros para a indústria, apenas resgatar do limbo um estilo que fervilhava nas salas ianques durante as décadas de 60 e 70. Eram as grindhouses, sessões duplas do que de melhor – ou seria pior? – existia no cinema B do Estados Unidos.

Como a fórmula nunca pegou fora da terra do Tio Sam, o projeto intitulado Grindhouse chegou dividido às telonas brasileiras. Rodriguez responde por Planeta Terror, segmento que homenageia filmes de zumbis clássicos, em especial os criados por George Romero. Tarantino manda ver com À prova de morte, fita que remete aos tradicionais thrillers estrelados por carros assassinos.

Apesar de terem grande afinidade estética – ao ponto desta ser a quinta vez em que trabalham juntos – Rodriguez e Tarantino possuem estilos bem peculiares de direção, o que torna as duas metades de Grindhouse bastante diferentes entre si. Rodriguez mostra-se dono de uma veia mais mainstrem, e Planeta Terror, apesar de proposto como uma homenagem ao estilo trash, possui uma das produções mais bem acabadas do ano, que deve cair no gosto da molecada. Os efeitos especiais são de primeira, verdadeiro deleite para fãs do estilo gore, ou seja, não falta sangue e vísceras. Apesar disso, o filme não se propõe a provocar sustos no espectador, preferindo ficar no tom da paródia, seja através do nojo provocado pelas inumeráveis mortes bizarras, ou pela profusão de personagens esdrúxulos que dominam a telona. Destaque para o perito em armas El Wray (Freddy Rodríguez), a enfermeira Dakota Block (Marley Shelton) e seus problemas conjugais e, principalmente, para Cherry Darling (Rose McGowan), dançarina exótica que ganha uma metralhadora no lugar da perna.

À prova de morte soa como uma real tentativa de revisionismo do estilo grindhouse. Sem dúvida ele está muito mais próximo do clima daqueles filmes antigos, que ficaram famosos no Brasil durante as antigas sessões do Cine Trash da Rede Bandeirantes. O problema é que aqueles que se empolgarem com a ação frenética presente no filme de Rodriguez podem acabar entediados com a lentidão do filme de Tarantino, quase todo composto por diálogos, filmados em pouquíssimos ambientes. A boa notícia é que o diretor responsável por Pulp Fiction ainda constrói alguns momentos geniais, e apesar de À prova de morte ser provavelmente seu pior filme, não deixa de estar em um patamar superior ao da maioria dos longas exibidos neste ano. As interpretações inspiradas de Kurt Russel – como Stuntman Mike, dublê maníaco que usa o próprio carro como ferramenta de execuções – e do grande elenco feminino, que serve ora como vítima, ora como flerte para o vilão motorizado, contribuem para a força do projeto.

Após assistir aos dois longas confesso ter ficado surpreso por gostar mais da fita dirigida por Rodriguez. Tarantino sempre foi um de meus diretores preferidos, mas após o excelente Kill Bill, ele deve ter ficado com o ego nas alturas, a ponto de parecer pouco empenhado em seu projeto mais recente.

Ah! Vale destacar os ótimos trailers falsos que permeiam os dois longas, com destaque para o hilário Don’t – do diretor Edgar Wright, de Todo mundo quase morto – e para Machete, do próprio Rodriguez, ao melhor estilo diversão descompromissada do diretor mexicano. A brincadeira fez tanto sucesso que Rodriguez já almeja fazer um filme de verdade para seu trailer falso. Fico na torcida!

Fale a verdade: você teria coragem de pedir carona para este sujeito?

sábado, dezembro 01, 2007

Cinema

A velha mania de comparar


Tropa de elite teria condições de trazer o Oscar?

Vez ou outra, notamos semelhanças entre o cinema nacional e o futebol tupiniquim. Ambos ressaltam o temperamento brejeiro e festivo dos brasileiros, garimpam talentos em meio à vida dura nas favelas e estão sempre a procura de um novo fenômeno para garantir uns trocados a mais. A última “bola da vez” no campo do cinema é o onipresente Tropa de elite, sucesso nas telonas e camelôs.

Tropa de elite já foi analisado e discutido à exaustão. Todos os aspectos do longa parecem ter sido esgotados por inúmeras discussões suscitadas pelas mais diversas variantes do público, desde os cinéfilos acadêmicos até os adeptos da pirataria, passando pela lente global de Luciano Huck. Prefiro, portanto, ater-me a comparação do longa com o universo futebolístico, estratégia que rende magníficos dividendos políticos para nosso Presidente da República.

Assim como um grande time, que joga de forma vistosa para encher os olhos da torcida, Tropa de elite preocupa-se em mostrar na telona o que boa parte da população brasileira anseia ver: criminosos sendo exterminados. Mesmo sem analisar o mérito da questão, é impossível negar que o longa é na verdade um grande show, tal qual aqueles oferecidos pelos craques dos gramados, e por isso, angaria uma torcida pra lá de entusiasmada.

Estes querem o Oscar, um dos raros “canecos” que nenhum brasileiro teve o privilégio de erguer. O problema é que a Tropa liderada pelo Capitão Nascimento sequer entrará em campo para a disputa, pois o filme acabou preterido em relação ao longa O ano em que meus pais saíram de férias, do diretor Cao Hamburguer.

A torcida pode até chiar, mas a verdade é que a possibilidade de que Tropa de elite levasse a estatueta era tão grande quanto a de que Romário volte a seleção para a Copa de 2014. Embora seja um grande filme, Tropa de elite não possui o viés artístico necessário para encantar os jurados da Academia. A coisa piora se lembrarmos que superproduções com o pé fincado na análise social não são nenhuma novidade em Hollywood.


Policiais, bandidos e armas...
Confronto tão apoteótico quanto uma final de campeonato.


Mas os fãs seguem inconformados, em boa parte devido às inevitáveis comparações com Cidade de Deus, este sim inegável injustiçado pela Academia. As semelhanças residem na temática da violência urbana no Rio de Janeiro, mas caso nossas superproduções estivessem disputando entre si as inúmeras categorias do Oscar, Cidade de Deus certamente venceria com folga. Tropa de Elite teria de contentar-se com uma estatueta para Fernanda Machado como melhor atriz coadjuvante e um merecido prêmio para Wagner Moura como melhor ator, afinal, ele é o dono do filme.

Antes que o séquito de fãs do longa amaldiçoe minha existência, reitero minha opinião esclarecendo que considero Tropa de elite um ótimo filme. O problema é que Cidade de Deus é uma obra-prima, do nível da inesquecível seleção de 1982. Infelizmente, por alguns caprichos do destino, a qualidade de ambos não foi suficiente para que conquistassem os respectivos títulos.

sábado, novembro 10, 2007

Cinema

Compromisso com a diversão


Poucas vezes um título casou tão bem com o conteúdo.

Ao assistir Mandando bala, filme de ação que deve projetar o nome do desconhecido diretor Michael Davis, foi impossível não lembrar daquelas listas recheadas de feitos extraordinários que pipocam na internet, algumas atribuídos a Chuck Norris, outras a Jack Bauer. Até mesmo o já lendário Capitão Nascimento possui uma relação de façanhas espalhada pela net. Mandando bala nada mais é do que a formatação dessas peripécias mirabolantes em película, realizadas por um cada vez mais carismático Clive Owen na pele do casca-grossa Sr. Smith, sujeito que de tão durão, deixaria os rivais acima citados perplexos.

Com uma proposta dessas fica fácil prever que o enredo da história não será dos mais complexos. O lema aqui descomplicar. Sr.Smith é um tipo rude que detesta caras que se comportam mal, e por isso não exita em ir ao socorro de uma grávida perseguida por um grupo de extermínio. Não é preciso revelar o passado do personagem ou suas motivações. Menos é mais, e de mirabolante bastam as inúmeras cenas de ação, exageradas ao ponto de não poderem ser levadas a sério. E o charme do filme reside exatamente nisso: diretor e elenco nunca se esquecem que estão produzindo uma grande piada. O legal é que ela funciona.

É preciso entrar no clima hiperbólico da ação para rir de um parto onde o cordão umbilical é cortado com um tiro, ou com a constatação de que cenouras podem ser muito mais mortais do que armas de fogo (pode apostar nisso!). O clima de paródia permite analogias com o desenho do Pernalonga e cenas onde um casal não para de fazer sexo mesmo enquanto troca tiros com dezenas de criminosos. A produção não consegue cair no ridículo graças ao empenho do já citado Clive Owen e de outras feras do porte de Paul Giamatti, como o ótimo vilão Hertz, ou da lindíssima Monica Bellucci, personificando a deslumbrante prostituta Donna Quintano, interesse romântico do protagonista.

A competência do diretor para construir cenas de ação únicas e prá lá de impossíveis certamente cativará os amantes da cultura pop em geral. A arquitetura das seqüência lembram as intrincadas armadilhas desenvolvidas pelo Coiote para capturar o Papa Léguas. Quando você espera que o filme não conseguirá mais superar-se em seu próprio exagero, voi-lá, somos apresentados a uma cena ainda mais maluca. É certo que para um filme constituído nesses termos não faltarão críticos. Estes taxarão o longa de “acerebrado”. Mas até para isso o Sr. Smith possui uma resposta na ponta da língua, afinal, “o que ele mais odeia nos críticos é a carência de senso de humor”.


Não se deixe enganar, a ação não terá respiro durante o romance...

sábado, agosto 04, 2007

Cinema

Atropelando os pequenos


Transformesrs: definição mais que perfeita para blockbuster.

Ficou difícil para o vendedor de pipoca disfarçar o sorriso. A enxurrada de filmes arrasa-quarteirões que têm permeado 2007 foi capaz de devolver as cifras astronômicas de bilheteria às produções made in Hollywood. É claro que o retorno das “verdinhas” foi comemorado pelos estúdios americanos, que enxergam nesse crescimento um possível ponto final para a crise que assolou o mercado no início da década.

O ponto alto desse “pesadelo” aconteceu em 2005, quando a arrecadação com ingressos sofreu uma queda de 2,5 bilhões em relação ao ano anterior. Estúdios já se preparavam para fechar mais um ano no vermelho quando 2006 foi encerrado com a grata surpresa de um crescimento positivo de 6%. Um valor pequeno para grandes comemorações, porém, capaz de fazer alguns executivos respirarem aliviados. Foram 6,5 bilhões de dólares arrecadados em todo o mundo, valor ainda menor que o arrecado em 2004, e que deve boa parte de seu sucesso à generosa contribuição dada por Piratas do Caribe: O baú da morte, filme que, sozinho, somou mais de um bilhão para os cofres da Disney.

A quantia vultuosa serviu de mapa para que outros estúdios copiassem a receita. Era hora de voltar a apostar pesado nos blockbusters, de preferência àqueles capazes de render franquias recheadas de seqüências turbinadas. Plano que já está sendo seguido a risca, com 2007 capitaneado pelos estrondosos sucessos de Homem-aranha 3, Shrek Terceiro e Piratas do Caribe: No fim do mundo, todos capítulos finais de suas respectivas trilogias. Juntos, fizeram mais de 2 bilhões. Somados aos outros sucessos lançados no primeiro semestre, Harry Potter e a ordem da fênix, 300 e Transformers, respondem por mais da metade da arrecadação do ano passado. É amigo, isso em apenas seis filmes.

Os efeitos desta avalanche bilionária foram facilmente sentidos por quem gosta de cinema. Produções mais modestas, de cunho artístico, ficaram relegadas a circuitos extremamente restritos, pois praticamente todas as salas estavam reservadas às superproduções norte-americanas. Se você mora no interior, provavelmente ainda não conferiu filmaços como Maria Antonieta, O homem duplo, O Hospedeiro ou os brasileiros O cheiro do ralo e O céu de Suely. Longas que simplesmente não entraram em cartaz nestas cidades. Entretanto, mesmo os moradores das grandes capitais também têm do que reclamar. Esse tipo de filme geralmente fica em cartaz por apenas duas semanas, e em uma única sala. É a lógica do capitalismo, grande oferta para grande procura.

Política que gera um curioso fenômeno: a migração de cinéfilos, que deixam as filas de cinema para ocupar os saguões das locadoras (quando não sedem a tentação da pirataria). Alguns títulos geram listas de espera de semanas para serem alugados. E ao julgar pelos lançamentos previstos para o próximo ano, o quadro não deve sofrer alterações. Quem quiser ver um filme mais intimista na tela grande terá que juntar dinheiro para comprar uma boa TV de plasma. Comemoram os executivos; do cinema, dos eletrodomésticos e da pipoca, é claro!

sábado, julho 21, 2007

Cinema

Com os ingredientes certos


Alguém duvida que vencerá o Oscar?

Ratatoille vai ganhar o Oscar de animação deste ano”. Fiz essa afirmação meses atrás, quando tudo o que tinha vista do novo longa da Pixar eram alguns pôsters e um teaser meia-boca. Como explicar então minha convicção? Simples! Uma simples frase estampada no canto daqueles pôsters: “Dirigido por Brad Bird”. Ele mesmo, o gênio por trás de duas verdadeiras obras-primas da animação, O gigante de ferro e Os Incríveis.

Quando você passa a gostar muito de cinema e se dedica a assistir diversos filmes, invariavelmente você acaba entendendo um pouco do assunto. Basta assistir a um filme de determinado diretor para saber se o cara tem talento e merece ter a carreira acompanhada. Raramente há exceções, e Brad Bird, felizmente, não é uma delas. Quando fui ao cinema assistir Os Incríveis, esperava ver apenas mais uma boa animação realizada pela Pixar,e me deparei com um dos melhores longas daquele ano em todos os sentidos, desde o desenvolvimento dos personagens e suas motivações, até a belíssima trilha sonora.

Percebi que Bird domina a linguagem cinematográfica. Não se atêm a algumas convenções que limitam o gênero da animação. Os Incríveis pode muito bem se entendido pela criançada, mas passa longe de ser um filme apreciável apenas pelos pequenos. O mesmo acontecia com O gigante de ferro, longa que assisti em vídeo. A fórmula de Bird é semelhante a de outros cineastas criativos, artistas que unem diversas influências sob um elo forte e consistente, capaz de fornecer uma roupagem moderna para temas abordados anteriormente diversas vezes. É o caso da Guerra-fria em O gigante de ferro, ou da temática dos super-heróis, atualizada para a burocracia contemporânea em Os Incríveis.

Para Ratatoille, filme sobre um ratinho que sonha em se tornar cheff em um importante restaurante francês, Bird sabia que, com o perdão do trocadilho, a receita não podia ser mudada. Aqui ele resgata o melhor do universo cartunesco de Tom e Jerry (talvez o melhor desenho já produzido) modernizando tudo para contar uma fábula sobre o valor dos sonhos e a importância de perseguí-los, por mais improváveis que sejam, como um rato, animal tido como asqueroso, tornar-se o melhor cheff da França.

No making-off de Os incríveis, Bird revela que seu lema de trabalho é “usar todo o búfalo”, em referência aos índios, que aproveitam carne, couro, chifres e ossos deste animal após abatê-lo. Ao assistir Ratatoille é fácil perceber que o cineasta não utiliza esse ideal como frase de efeito aos moldes dos guias de auto-ajuda. Cada cena é parte fundamental do projeto e, se ora a narrativa explora o melhor das perseguições a lá gato e rato, em outro momento pode dar lugar a um inspirado monólogo sobre o valor da crítica perante realizações concretas. Pois bem, depois de duas horas de projeção mantenho minha previsão para o Oscar, agora com uma certeza quase inabalável, pois, para Ratatoille não vencer, teremos que nos deparar com um filme que será, no máximo, tão bom quanto ele.