segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Cinema

Ressaca do Oscar


Tão enfático quanto José Wilker...

Desta vez resolvi inovar e postei uma análise em vídeo da 79ª premiação do Oscar. Não deixem de comentar!!!

ERRATA: Babel venceu sim um Oscar. O longa de Iñarritu foi premiado com a estatueta de melhor trilha sonora. Desculpem-me pelo deslize!

sábado, fevereiro 24, 2007

Cinema

Agente duplo


Clint Eastwood dirige japoneses em "Cartas de Iwo Jima"...

Pra mim é difícil falar de Clint Eastwood sem ser parcial. Não chego a considerá-lo um de meus diretores favoritos, mas tenho o velho caubói como um modelo de conduta com relação aos seus projetos. Aos 76 anos de idade, Clint continua firme, emendando um bom lançamento atrás do outro, passando longe dos dois maiores males que podem acometer um artista: a preguiça e o ego.

Com mais de trinta anos de carreira e dois Oscars de melhor diretor, Eastwood poderia facilmente ter sido tomado pela soberba que domina tantos diretores. M. Night Shyamalan, Tim Burton e até Martin Scorsese são exemplos de diretores talentosos que já fizeram filmes com ares de alto-indulgência. Clint, por sua vez, prefere contiuar falando sobre assuntos mais próximos de sua personalidade, utilizando sua habitual narrativa detalhista. O que impressiona é ver que apesar de manter uma fórmula, o diretor não costuma se repetir.

Quanto à preguiça, os últimos trabalhos do diretor são a prova definitiva que ela passa longe de sua rotina. Clint resolveu estrear no gênero da guerra, famoso pela complexidade técnica, mas ele não se deixou intimidar, e resolveu filmar não apenas um filme, mas dois, contando a história da batalha de Iwo Jima sobre as perspectivas dos dois lados envolvidos, americanos (A conquista da honra) e japonês (Cartas de Iwo Jima). O diretor soube contornar a questão de sua nacionalidade e evitou o maniqueísmo habitual de filmes do estilo. O resultado é pra lá de satisfatório.

Isolados, A conquista da honra e Cartas de Iwo Jima são grandes filmes, com uma ligeira vantagem para o segundo, mas juntos, ganham ares de tratado anti-belicista. O primeiro fala sobre a história da famosa foto onde soldados americanos içam sua bandeira no alto do monte Iwo Jima, registro que ajudou a mudar o curso da guerra. Naqueles tempos os EUA estavam praticamente sem recursos para manter a gigantesca iniciativa de guerra, e a população do país já estava farta do combate. Graças a essa foto, estampada na capa de todos os jornais americanos, os estadudinenses foram tomados pelo patriotismo, e passaram a enxergar um sentido na batalha.

O governo percebe neste novo sentimento uma oportunidade para conseguir fundos para continuar com força total na investida contra o Japão. Um gigantesco esquema de publicidade é montado em cima do evento, distorcendo fatos em nome de uma versão mais emblemática para o público. Os sobreviventes presentes na foto são convocados de volta aos EUA para servirem de garotos propaganda para venda de títulos para a guerra.

Cartas de Iwo Jima se concentra na preparação das tropas japonesas para se defender do iminente ataque americano. Conscientes da grande desvantagem numérica, a maioria dos soldados vê o combate como uma forma de morrer honrosamente. Não é o caso do general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), comandante das tropas. Ele acredita que suas tropas devem empregar todas as forças para segurar o inimigo pelo maior período possível, possibilitando que o restante do Japão tenha tempo para se reestruturar para as próximas batalhas. O conflito de ideologias dá o tom do filme, auxiliado pela dinâmica do relacionamento dos soldados, e do assombro dos mesmos diante de uma inevitável morte.

Aliás, analisar o comportamento humano sempre foi um dos fortes do diretor. Ambos os filmes contam com diversas cenas de combate impactantes, mas elas são apenas pano de fundo para a preocupação maior de Clint, analisar a mente dos soldados, vítimas de combates irracionais criados por burocratas engravatados, que na grande maioria das vezes, fica muito longe dos campos de batalha. Uma triste realidade que perdura até os dias de hoje. Basta olhar o esforço dos governantes para acobertar as mentiras por trás da histórica foto do primeiro filme. Qualquer semelhança com o governo Bush e sua “Guerra contra o terror” não é mera coincidência.

Vale destacar também a bela fotografia, extremamente dessaturada, deixando ambos os longas próximos do preto e branco, e da direção coesa de Eastwood, que só pecou pela grande quantidade de flashbacks em A conquista da honra (que comprometem o ritmo da produção). Ironicamente, torço para que Clint perca o Oscar nesse domingo. A noite é de Martin Scorsese. Eastwood certamente não se importará, não porque ele já ter duas estatuetas, mas pela certeza de que se continuar mantendo a postura que tanto admiro, ele ainda concorrerá para muitos outros.


... e americanos em "A conquista da honra".

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Cinema

Último assalto


Stallone aos sessenta anos. Alguém duvida que ele é o mais forte?

A arte imita a vida, e a máxima também vale para Sylvester Stallone. A trajetória do ator-diretor-roteirista-produtor se confunde com a de sua criação suprema, o boxeador Rocky Balboa. Ambos iniciaram carreiras desacreditados. Lutaram para se afirmar no show bizz, enfrentando, respectivamente, bordoadas de críticos e pugilistas. Provaram que o sucesso pode ser alcançado através de muita luta e dedicação.

Rocky - Um lutador (1976) personificava com perfeição o ideal do sonho americano. A identificação do público foi imediata. Um cara humilde, americano típico, que vencia na vida graças ao esforço e persistência com que ele perseguia seus ideais. O filme se tornou um sucesso de público e crítica, faturando até o Oscar de melhor filme em 1977, elevando Stallone, antigo ator de filmes pornográficos ao status de estrela de primeira grandeza.

Os anos que se sucederam à premiação reservaram bons frutos para a dupla. Enquanto as continuações do filme do boxeador mostravam o caminho de Rocky até o topo dos ringues, “Sly” se firmava como o grande nome dos filmes de ação dos anos 80 (ao lado de Arnold Schwarzenegger). Criador e criatura desfrutavam agora de fama, dinheiro e respeito.

A esta altura, Stallone já admitia que havia se inspirado em sua própria vida para dar luz às aventuras de Rocky. Ele só não poderia imaginar que o processo contrário pudesse acontecer quando decidiu dar mexida na fórmula. Rocky V (1990), mostrava o declínio do boxeador em um filme sofrível, que acabou tragando Stallone para o mesmo limbo que ele havia reservado para sua contraparte pugislista.

Foram anos sofríveis para a carreira do ator, que amargou um fracasso atrás do outro. Apenas um bom filme (Cop Land, 1997) e nenhum sucesso comercial. Prestes a ser relegado ao esquecimento, restou a “Sly” acenar um retorno de franquia Rocky. Porém, perto dos sessenta anos, ele não foi levado a sério.

Inicialmente, o roteiro seguiria de perto os passos do ex-pugilista George Foreman, campeão dos pesados aos cinqüenta anos de idade, após um bem sucedido regresso da aposentadoria. Foram anos tentando adequar o texto, que nunca conseguia agradar ao próprio autor. “Ele não parecia sincero”.

Era óbvia a resposta: faltava a vertente humana que Stallone sempre foi buscar em sua própria vida. A história deles se cruzava novamente, no exato ponto onde tudo começou. Desacreditados, Rocky e “Sly” poderiam partir para um round final para suas carreiras, sem vergonha de se fundirem em busca de redenção.

Rocky Balboa se torna um filme forte graças a este almágama. O discurso do pugilista, até certo ponto clichê, é tão sincero que e é capaz de comover até os mais desconfiados. Nesta última jornada, Rocky decide voltar a lutar para apagar a sombra do passado vitorioso, esquecer a dor da perda da esposa e reaproximar-se do filho. Stallone luta para recuperar o respeito perdido.

“Sly” demonstra habilidade e sensibilidade para encerrar a trajetória vencedora de Rocky. Como a carreira do artista irá continuar, nada melhor do que voltar as atenções para o resgate de outra franquia de sucesso. Rambo volta às telas em 2008, mas é uma pena que este último não tenha tanto em comum com seu criador.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Cinema

Apocalypto Now!!


Mel Gibson na direção: sinônimo de línguas exóticas e muita violência

De uns anos pra cá, muitos foram os críticos que exultaram a originalidade do cinema oriental. Não faltaram adjetivos para enaltecer as exóticas estruturas narrativas de longas como O tigre e o Dragão ou OldBoy, filmes que também ganharam o aval do público ocidental. Mas todo este frenesi acaba gerando a pergunta: o que difere aquele cinema do nosso? Seriam as experiências que estes povos vivenciam e, consequentemente, retratam em película, tão diferentes das nossas? Teriam eles realmente desenvolvido uma maneira diferente de contar histórias? Ambas as possibilidades?

Apocalypto, novo filme de Mel Gibson, pode até não abordar temas sobre a civilização oriental, mas ajuda a esclarecer a questão. O filme conta a história de Pata de Jaguar, índio pertencente a uma tribo de caçadores da América Central, que acaba sendo capturada por uma tribo maia para serem sacrificados como oferenda aos deuses, para que este providencie colheitas melhores. Durante a batalha, nosso herói consegue esconder a esposa grávida e o filho pequeno, mas acaba preso nas mãos dos agressores.

O que se vê em seguida é o mais típico filme de ação Hollywoodiano, quando Pata de Jaguar consegue escapar e passa a ser perseguido pelos seus raptores enquanto procura o esconderijo da mulher amada. Tudo acontece de forma frenética, não dando muitas oportunidades para o espectador respirar. Mesmo assim, Apocalypto é certamente um filme único, que exala frescor em sua narrativa. Mel Gibson não se preocupou em se ater aos aspectos históricos, tomando diversas liberdades criativas. Apesar disto, o longa se mostra extremamente verossímil, em boa parte por ser todo falado em iucateque, antigo dialeto maia, o que revela uma certa paixão de Gibson por línguas extintas (como visto em A paixão de Cristo, falado em aramaico) e muita coragem para realizar projetos que, não fossem a persistência e teimosia do diretor, jamais sairiam do papel.

Mas mesmo que Apocalypo fosse falado em inglês, ele ainda despontaria como uma produção atípica. Seus protagonistas não são interpretados por atores famosos e suas feições nem de longe remontam ao padrão europeizado de beleza. Rostos de pele vermelha, marcados por adereços e tatuagens, são uma atração à parte. Não deixa de ser reconfortante assistir a um longa que se dedica a apresentar um padrão de beleza tão comumente menosprezado.

A ação também ganha um contexto totalmente novo. Apesar da perseguição praticamente não possuir diálogos e transcorrer de maneira semelhante a maioria das outras perseguições já realizadas no cinema, a fuga de Pata de Jaguar se destoa das demais simplesmente porque abdica das usuais metralhadoras e rifles, para fazer uso de armar indígenas como zarabatanas, lanças e arco e flecha. Alguns utilizados de forma extremamente criativa, cativando o público.

O último diferencial que merece ser citado tem mais a ver com o fato deste filme ser dirigido por Mel Gibson do que pela abordagem da civilização maia. Novamente o diretor abusa da violência. Em nenhum momento Gibson faz concessões e nos poupa de observar degolações. crânios serem esmagados, corações arrancados, além de torturas diversas. A brutalidade também ajuda a tornar crível todo aquele ambiente. Infelizmente, o mundo real trata de nos mostrar diariamente que os seres humanos são capazes das mais diversas barbaridades.

Estou quase terminando o texto, e o leitor mais atento deve estar se remexendo na cadeira: “Ué Luis! Como este filme pode ajudar a entender a nossa fascinação pelos filmes orientais?” Apocalypto segue a estrutura habitual das histórias ocidentais, mas acaba sendo único pela pouca exposição que temas sobre a civilização maia têm em nosso dia-a-dia. Só conseguimos nos identificar com esta história porque os conceitos de família, liberdade e agressão presentes na mesma são universais na cultura humana. Portanto, se somos capazes de nos identificar com histórias de culturas tão distintas, é porque o gênero humano ainda é muito parecido. Diferentes civilizações apenas escolhem maneiras distintas de representar as mesmas idéias. Resumindo: só achamos os orientais originais porque nunca tínhamos reparado neles antes!!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Cinema

Falta de comunicação


Apesar de desconexo, trecho japonês é o destaque de Babel.

Alejandro Gonzales Inarritu gosta mesmo de sofrimento. Todos os seus filmes têm tragédias como fio-condutor, estas desencadeiam outras, provocando uma reação em cadeia. Em Babel não é diferente. Mas agora o diretor testa sua equação de desgraças num contexto global, com a premissa de que o disparo de um rifle no Marrocos pode emitir vibrações que ressoarão na vida de pessoas por todo o globo.

Além das habituais tragédias, o filme também traz a já tradicional narrativa entrecortada presente nos filmes de Inarritu. Talvez esta tenha sido a forma do diretor mostrar como uma tragédia passa a refletir em toda nossa vida, alterando nosso futuro e mudando nossa percepção do passado. Mas se em 21 gramas a experiência de “participar” do montagem do filme se revelava fascinante, em Babel ela pouco infere sobre a trama, tamanha sua simplicidade.

Outro aspecto negativo está na própria pretensão de Inarritu de mostrar nosso mundo como uma grande aldeia global onde uma simples ação pode afetar a vida em todos os lugares. Simplesmente não funciona! Isto porque esta embora as fronteiras estejam cada vez menos nítidas e do tiro que alveja Cate Blanchet ser tratado como ato terrorista pelo governo dos EUA, as reações em cadeia não são capazes de reverbar com intensidade suficiente para fugir do círculo da família da vítima ou dos diretamente envolvidos. O diretor até tenta inserir uma ligação com uma família japonesa, mas a tragédia que esta enfrenta é totalmente singular ao restante da trama, causando ao espectador uma sensação de que esta história está literalmente “sobrando” na trama.

Inspirado pela antiga lenda da Torre de Babel, Inarritu é sábio ao mostrar que os contrastes culturais representam obstáculos muito maiores do que as fronteiras impostas pela linguagem. Personagens como o casal vivido por Brad Pitt e Cate Blanchet geralmente dispõe de um tradutor, quando não, conseguem se comunicar através de sinais. Porém, isso não garante que suas idéias sejam compreendidas. Apesar das distâncias terem diminuído com a tecnologia, o preconceito tratou de afastar ainda mais as pessoas.

A babá mexicana Amélia (vivida por Adriana Barraza) também não apresenta dificuldades para se comunicar com os filhos do casal protagonista em sua língua pátria (espanhol), uma forma de mostrar que o atualmente o idioma funciona como uma língua extra-oficial nos EUA, atestando a força e importância que os latinos têm naquele país, apesar dos esforços de alguns governantes para provar o contrário.

Curioso perceber que a linguagem se torna uma barreira tangível exatamente na subtrama envolvendo a família japonesa, que parece estar desconexa em relação às demais. Rinku Kikuchi vive Chieko, uma jovem com problemas auditivos. As dificuldade impostas pela deficiência de comunicação fazem com que a maioria das pessoas se afastem da garota, alimentando um sentimento misto de revolta e baixa auto-estima. A cena em que um pretendente interrompe o flerte ao descobrir que ela é surda talvez seja a mais impactante de todo o longa. Apesar de parecer desconexa com o restante da trama, a força desta subtrama em si acaba explicando o porque de sua inserção. É uma pena que esta tenha se dado de maneira tão gratuita. Uma solução muito melhor seria realizar um filme apenas para contar esta história.

Outro ponto forte desta seqüência é a manipulação do silêncio por parte do diretor, para partilharmos com Chieku a perspectiva de um mundo sem sons. Mas mesmo com toda esta sensibilidade, não consegui evitar a tristeza ao perceber que um deficiente auditivo não poderá compreender a mensagem que traduz suas dificuldades para o restante do mundo.

Apesar destes deslizes, Babel é um bom filme. O mais fraco da carreira de Inarritu, com certeza. Algo que pode ser relevado se lembrarmos que o restante de sua filmografia é composta pelos excelentes 21 gramas e Amores brutos. Babel até merece estar no Oscar, mas caso ganhe, como já fez no Globo de ouro, será um grande exagero.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Cinema

Entretenimento lapidado


Elenco estrelado garante brilho de produção politicamente engajada


Ativismo político não é novidade em Hollywood. Até mesmo Chaplin aproveitou o auge da fama para realizar um verdadeiro panfleto contra o nazismo em O grande ditador, onde teve oportunidade de ridicularizar a figura de Hitler. Mais do que bilheteria, este gênero de filme costuma ter grande repercussão na mídia por apresentar à sociedade diversos temas de extrema importância, que muitas vezes são relegados pelos noticiários convencionais.

Neste quesito, o continente africano parece despontar como uma “mina de diamantes” para inspiração de roteiristas engajados, ainda mais agora, quando a África está “na moda”, graças a uma sucessão interminável (e até certo ponto, questionável) de adoções realizadas por celebridades. Muitas outras, engajam-se em missões humanitárias. Estes atos atraem, invariavelmente, a atração da mídia global.

Desta forma, rodar um filme que aborda o problema político, social e econômico gerado pela extração de diamantes em zonas de conflito não chega configurar como uma idéia muito original, mas revelar o assustador quadro financiado pela indústria de jóia parece essencial. Atualmente, brilhantes servem como moeda para financiar milícias rebeldes e até mesmo alguns exércitos nacionais. Estes se digladiam de forma incessante, deixando o povo a mercê da miséria e destruição causada pelos conflitos.

O diretor Edward Zwick acertou a mão neste ponto. Diamantes de sangue não tem pudor de mostrar as barbáries cometidas por ambos os lados. Escravidão, chacinas e recrutamento de crianças para o combate podem não ser temas muito atrativos para pessoas que estão atrás de diversão escapista, mas sem dúvida são capazes de suscitar um pouco mais de reflexão.

Mas é claro que se o filme tivesse apenas esta intenção, quase ninguém iria aos cinemas, e fazer um panfleto para convertidos não ajudará a mudar o quadro. Por isso, Zwick optou por uma constelação de estrelas para o elenco. Leonardo DiCaprio encabeça a lista, na pele de Danny Archer, inescrupuloso mercenário que está atrás do diamante encontrado pelo pescador Solomon Vandy (Djimoun Housson, em ótima atuação). A maravilhosa Jennifer Connely dá vida à jornalista Maddy Bowen, uma idealista que cruza o caminho de Archer e se torna o interesse romântico do rapaz, e até certo ponto, sua consciência.

Recheado de ação e com diversas seqüências de tirar o fôlego, Diamantes de sangue pode ser rotulado como um blockbuster politicamente engajado. Deve agradar tanto aos fãs de filmes de ação, quanto adeptos de um cinema mais “cabeça”. Estes últimos certamente irão reclamar de alguns deslizes do filme, como a forçada relação entre Archer e Bowen, ou mesmo o final feliz, que causa a falsa impressão de que no mundo real os problemas também se resolvem naturalmente.

Diamantes de sangue tem tudo para atrair um grande público e alimentar calorosos debates sobre a exploração dos diamantes de conflito. Sem dúvida ele não fornece embasamento necessário para uma argumentação mais criteriosa, mas serve como primeiro passo. Também é certo que muitos permanecerão incessíveis à mensagem, guardando na memória apenas os espetaculares tiroteios, ou a beleza do casal protagonista. Lembro-me de que, na estréia de Super size me, filme que retrata os malefícios que a dieta fast food pode causar, muita gente saiu do cinema e foi direto para o McDonalds! Portanto, se Zwick não conseguir mobilizar tipos assim, não vamos culpá-lo!!!

sábado, janeiro 06, 2007

Cinema

Melhores de 2006


Ano novo, hora de estender o tapete vermelho para os melhores de 2006...

Início de ano, época das mais diversas tradições. Fogos, roupa branca, lentilha, Big Brother, oferendas à Iemanjá e, é claro, fazer a tradicional listinha do que houve de melhor no ano que passou. Comecemos pelos filmes, e feliz ano novo!!!

1° Filhos da esperança
Ação, drama e protesto se fundem com maestria neste filmaço dirigido por Alfonso Cuáron. A história de um mundo sem crianças e, conseqüentemente, sem esperança ainda será capaz de produzir muitas lágrimas mundo afora, graças à atualidade dos temas que aborda. Destaque para as interpretações magníficas de Clive Owen, Julianne Moore e Michael Caine, além da direção magnífica de Cuáron.

2° Ponto final – Match point
Esquecido na última premiação do Oscar, a última produção de Woody Allen é uma antítese na carreira do diretor: um suspense, e rodado em Londres, bem longe da velha conhecida Nova York. Talvez tenham sido os novos ares, ou quem sabe a presença da nova musa Scarlett Johanson, o fato é que Allen nos brindou com uma tese sobre sorte em forma de filme. Brilhante!!

3° Os infiltrados
Se Allen primou por se afastar de seu estilo habitual, Scorsese voltou a brilhar fazendo justamente o contrário. Novamente com Leonardo DiCaprio à tiracolo, mas desta vez muito bem acompanhado por Jack Nicholson e Matt Damon, o diretor nos apresenta uma sangrenta refilmagem do longa chinês Conflitos Internos. Um policial infiltrado na máfia e um mafioso infiltrado na polícia brincando de gato e rato, cenário propício para Martin distribuir tiros intercalados por diálogos arrebatadores.

4° A máquina
Um filme nacional com um jeitinho brasileiro irresistível de ser. Esta é a melhor maneira de definir o debut do diretor João Falcão no cinema. Ajudado por recursos teatrais e uma narrativa calcada no realismo mágico, Falcão nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros e prova que dá pra fazer cinema no Brasil sem recorrer aos estereótipos habituais.

5° Volver
Almodóvar é outra figura que aproveitou 2006 para voltar às raízes. Volver marca o reencontro do diretor com suas duas musas – Carmem Maura e Penélope Cruz – e com o universo feminino que ele retrata com profundo conhecimento. Aqui vemos mulheres fortes, que encontram nos laços familiares, ou amizades, pilares para conseguir se defender do sofrimento imposto pelo sexo oposto.

6° Pequena Miss Sunshine
Sundance caiu de joelhos diante desta magnífica tragicomédia familiar. Aliás, quem foi capaz de resistir aos encantos da pequena Olive ou segurar o riso diante das brilhantes tiradas do avô da menina? E mais, que atire a primeira pedra aquele que não ficou com vontade de cruzar o país à bordo de uma kombi amarela! A julgar pela qualidade desta obra de estréia, o casal Jonathan Dayton e Valerie Farris ainda vão dar muito o que falar!

7° O segredo de Brockeback Mountain
Muito já foi dito sobre os efeitos que o sucesso de Brockback Mountain terá sobre o cinema no futuro. E nesta onda de bancar o Nostradamus muito crítico deixou de dizer o essencial: o longa de Ang Lee é uma senhora história de amor, que atravessa as barreiras dos gêneros e preferências sexuais. Impossível não se sensibilizar com a dor dos cowboys Jack Twist e Ennis Del Mar.

8° V de Vingança
Alan Moore pode esbravejar o quanto quiser mas a verdade é que finalmente fizeram um grande filme em cima de um de suas obras-primas. Ouso inclusive dizer que esta versão da história de V é mais bem contada que a original. Livre de algumas crenças e referências que condiziam muito mais com Moore do que com seus personagens, a versão comandada por James McTeigue conta ainda com marcantes interpretações de Natalie Portman e Hugo Weaving.

9° Soldado Anônimo
O caos do Iraque não parece ter data para terminar, mas neste longa o diretor Sam Mendes resolveu ir até as raízes do problema, a Guerra do Golfo. Um filme de guerra diferente, onde o marasmo e a falta de ação, conseqüências da modernidade das armas atuais, realiza uma verdadeira lavagem cerebral em soldados como Anthony Swofford (Jake Gyllenhal), que chegam a implorar pela oportunidade de matar um inimigo. Perturbador.

10° O grande truque
Christopher Nolan deixou Shyamalan comendo poeira no quesito “brincar com o lado detetive do público”. Apesar de já irmos ao cinema preparados para uma reviravolta, em nenhum momento o longa de Nolan mostra-se desinteressante. Muito pelo contrário: muitos devem ter repetido a sessão apenas para tentar achar as pistas que ajudam a desvendar o final.

Quase chega: 007 - Cassino Royale
Bond, James Bond. O agente 007 sempre foi conhecido pelos inúmeros clichês. Mas isso deve se tornar coisa do passado. A entrada de Daniel Craig na franquia impôs um novo ritmo para as aventuras do agente britânico. O filme segue a cartilha de Batman Begins, reinventando o personagem para situá-lo no contexto do século XXI. Talvez seja cedo para dizer que é o melhor Bond de todos os tempos, mas apenas porque Craig estará de volta para novas missões!!!

Pior filme: Xuxa Gêmeas
Não, não assisti. Mas alguém tem alguma dúvida de que se trata da bomba do ano?

Melhor diretor: Alfonso Cuáron (Filhos da esperança)
Seria indelicado com caras como Woody Allen e Scorsese dizer que este prêmio foi uma barbada, mas não dizer é uma profunda injustiça com o genial trabalho deste mexicano. Filhos da esperança é um dos longas mais bem dirigidos da atualidade em todos os aspectos, e se passar em branco durante o Oscar provará de uma vez por todas que a Academia não entende nada de cinema.

Melhor Ator: Clive Owen (Filhos da esperança), Hugh Jackman (Fonte da vida)
É, um empate… Justo eu que detesto ter que recorrer a este recurso não tive outra opção a não ser dividir as glórias. Owen garante o bi-campeonato com a interpretação perfeita de um herói ocasional. Durante a juventude, Theo Faron sonhava mudar o mundo. A chance só aparece quando nada mais importa. Destaque para a explosão do personagem, que se afasta dos outros para poder chorar a morte da amada. Jackman, por sua vez, foi figurinha carimbada aparcendo em três longas de destaque (O grande truque, X-MEN: O confronto final e Fonte da Vida). Neste último, Jackman transborda emoção durante todo longa, interpretando três personagens distintos que, na verdade, são um só. O filme se sustenta em sua atuação, já que praticamente não há história, apenas a descrição do desespero de homens que perderam a mulher amada.

Melhor Atriz: Natalie Portman (V de Vingança)
O destino me pregou uma peça. Ano passado deixei Natalie em segundo lugar para prestigiar Hillary Swank, mas durante todo ano me perguntei se não tinha errado em meu julgamento. Talvez este comportamento tenha sido apenas reflexo da soberba interpretação de Portman como Evey Hamond, encarnando dor e revolta com uma sensibilidade incomum para uma atriz de sua idade. Destaque para a cena da chuva, que já nasceu antológica!

domingo, dezembro 31, 2006

Cinema

Alimentando a esperança


Clive Owen, especialista em atuar nos melhores longas do ano

Inúmeras obras já fizeram a associação entre crianças e o sentimento de esperança. Desde sempre, os pequenos simbolizam o futuro, período de tempo em que residem nossas maiores expectativas, as esperanças de dias melhores. Não se trata, portanto, de uma idéia original, mas o longa Filhos da esperança consegue elevar o conceito até um novo patamar, justamente porque constrói toda sua narrativa na premissa de que uma sociedade sem crianças é uma sociedade sem esperança. A diferença aqui é que o filme é capaz de nos convencer totalmente da idéia.

Estamos em 2027. Há dezoito anos a humanidade foi abalada por uma súbita crise de infertilidade. Sem poder constituir famílias e levar adiante nosso legado, a população passa a se revoltar com a própria existência sem sentido, transformando o mundo num cenário sombrio, devastado por inúmeras guerras e pelo desespero diante do armagedom inevitável. Apenas a Inglaterra sobrevive como uma nação típica e estruturada, condição garantida graças ao feroz regime totalitarista que tomou o poder, perseguindo a qualquer custo os imigrantes que tentam desfrutar da “ordem” vigente.

Para piorar, o mais jovem humano (o “bebê Diego, um argentino de dezoito anos que se tornou uma celebridade instantânea) acaba de ser assassinado por um fã, apenas por ter recusado um autógrafo. Não que isso seja capaz de abalar Theo Faron (Clive Owen). Na verdade, o protagonista da história aproveita toda comoção gerada em cima do funeral para conseguir um dia de folga para passear na fazenda do amigo Jasper (Michael Caine), única atividade que ainda lhe traz um pouco de alegria.

Theo é o herói típico. Passou a juventude lutando contra os desmandos do governo, em busca de uma sociedade mais justa, capaz de entregar um mundo melhor para as gerações posteriores. Encontrou sua cara-metade em Julian (Julianne Moore) e com ela decidiu constituir família. Porém, o sonho de felicidade do casal terminou rápido, após a perda do filho ainda pequeno. A misteriosa onde de infertilidade impossibilitou o casal de ter mais filhos. Consternados, eles acabam se separando. Theo, desiludido, passa a aguardar o fim de tudo sem resignar-se. Julian, por sua vez, vai buscar forças na militância do passado. Nada disso aparece no filme, mas em poucos diálogos somos capazes de presenciar toda a situação.

O destino se encarrega de reencontrá-los quando Julian pede ajuda a Theo para realizar uma operação que pode mudar o curso da humanidade. Theo é o único que pode conseguir um passaporte para Kee, garota que se torna a chave para resolver o problema da infertilidade. A volta da mulher amada e a natureza da missão em si reascendem a esperança de Theo de que seus esforços possam garantir um futuro melhor.

Apesar da estrutura, Filhos da esperança não pode ser classificado apenas como um filme de ação (mesmo contando com algumas das melhores seqüências da história do gênero). A produção também assume contornos panfletários, ao realizar um excelente paralelo entre àquele futuro sombrio e nossa realidade pouco animadora. O longa também funciona como um excelente drama, graças aos personagens profundos e interpretações pra lá de dedicadas.

A única falha está no final do filme. Não que eu discorde do rumo que a história segue, apenas acredito que ele termina de uma maneira um tanto abrupta. Mas nem isso é capaz de tirar o brilho desta aula de cinema dirigida pelo mexicano Alfonso Cuáron (E sua mãe também). Aqui, ele se supera: além de ter tirado o máximo de um elenco estrelado, rechear o longa com diálogos e cenas emocionantes, o diretor constrói tudo com uma perfeição técnica absurda em todos os aspectos. Destaque para o plano-seqüência que mostra a fuga de Theo e seus aliados.

A seqüência começa em uma conversa corriqueira, onde a câmera gira por dentro do carro para mostrar o diálogo de todos os ângulos. De súbito, um carro incendiado aparece logo à frente, e o que parecia ser apenas uma conversa reveladora torna-se uma dramática perseguição. A câmera entra e sai do carro, mostra a cena em todos seus detalhes para voltar ao carro e nos apresentar as conseqüências e depois repetir todo processo. É quando você se dá conta de que não há cortes, pelo menos não aparentes. São quase oito minutos de ação ininterrupta, o que eleva o suspense ao nível máximo do suportável. Um show, digno de todos os prêmios possíveis.

Na minha modesta opinião, o filme do ano. Mais que isso: um dos melhores que já pude assistir.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Quadrinhos

Poder Supremo


Panini 2007: uma quase "exclusividade" no mercado de HQ's

Acabou o mistério. Depois de alguns meses cheios de dúvidas e especulações a Panini correu atrás e renovou o contrato que garante a publicação das séries de quadrinhos da DC Comics em terras tupiniquins. A notícia consolida o status de superpotência dos quadrinhos nacionais que a editora italiana passará a exibir em 2007. Além das histórias da DC, a editora publicará séries regulares da Marvel, Top Cow, diversos mangás, títulos europeus e a Turma da Mônica, que muda para a nova casa em janeiro. De tiragem relevante ficaram de fora apenas títulos da Disney, alguns fummetos e títulos da Wildstorm, Image e Vertigo. Estima-se que a empresa responda por cerca de 80% a 90% do mercado no próximo ano.

Tal notícia, ironicamente, apresenta vantagens e desvantagens para os apreciadores de hq´s. As primeiras dizem respeito à qualidade do trabalho da Panini, principalmente no filão dos super-heróis. É impressionante o volume de material que chega às bancas e lojas especializadas, entre séries regulares e encadernados especiais, títulos que geralmente contam com acabamentos muito superior aos dados pelas antigas responsáveis por tais publicações. Louvável também foi a iniciativa da Panini em colocar encadernados de luxo nas bancas, com pequenas tiragens de distribuição setorizada. O sucesso desta empreitada abriu espaço para que outras editoras fizessem o mesmo, o que possibilitou que nós brasileiros conferíssemos muitas obras que em no passado dificilmente chegavam por aqui.

Mas nem tudo são flores, e o “quase” monopólio da Panini seguramente trará prejuízos para os consumidores. Sem concorrentes, a “gigante” sofrerá menos pressão para resolver os constantes problemas de atrasos, erros de impressão e má qualidade do papel de alguns títulos. Também diminui-se a esperança de uma queda de preços, ou mesmo que estes permaneçam sem reajuste.

A história poderia ter sido bem diferente caso a DC realmente migrasse para a Pixel Media. As negociações começaram em agosto deste ano, e faziam parte da estratégia da DC em transportar a concorrência com a Marvel para a esfera global. Como em diversos países os principais títulos das duas “majors” americanas são publicados pelas mesmas editoras, a disputa entre as duas não ocorre de maneira plena.

Contra a Pixel pesou a falta de tradição e pequeno porte, características típicas de uma jovem empresa, que apesar de realizar um ótimo trabalho em algumas publicações da Image Comics, possivelmente teria dificuldades com na distribuição de títulos de maior peso em todo o território nacional, um problema que aflige até mesmo a Panini.

E mesmo sem ter de temer a concorrência, algumas dores de cabeça ainda deverão atormentar a Panini no próximo ano. Apesar do aumento da oferta de títulos, o mercado brasileiro atualmente amarga um processo de encolhimento em suas tiragens. Hoje a Panini sofre com encalhes de edições de tiragens de apenas 20 mil exemplares. Há também a questão da pirataria através da Internet, onde edições inteiras são escaneadas e colocadas para download gratuito. Apesar do enorme poder que desfruta hoje, o cenário ainda é pouco animador para a Panini. Resta torcer para que o poder não suba a cabeça e que a editora não se contente apenas em manter o mercado que já possui, e sim investir para atrair novos consumidores, com produtos e preços cada vez mais atrativos.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Cinema

Voltando à boa forma


Nicholson: "É sério, depois da segunda estatueta aquilo tudo perde a graça..."

Leonardo DiCaprio pode ser perdoado. Se ainda existiam suspeitas de que o ator fosse responsável pela baixa qualidade dos últimos filmes de Martin Scorsese (Gangues de Nova York e O aviador, respectivamente) estas terminam após uma sessão de Os Infiltrados, filmaço que entra fácil em qualquer lista de melhores longas do ano e recoloca Scorsese no posto do qual nunca deveria ter saído: de um dos maiores gênios da história da sétima arte.

O filme conta a história de Colin Sullivan (Matt Damon) e Willian Costigan (Leonardo DiCaprio). O primeiro é protegido do mafioso irlandês Frank Costello (vivido magistralmente por Jack Nicholson, atuação que deve assegurar mais uma indicação da academia). Colin se infiltra na polícia de Boston para conseguir informações que ajudem Costello a assegurar o controle do crime organizado. Graças a informações passadas pelo mafioso, “Collie” consegue uma ascensão meteórica na polícia, chegando aos postos mais altos, onde ele tem acesso às informações mais restritas do departamento. Já Willian Costigan faz o caminho inverso: policial, é designado para se infiltrar no bando de Costello por possuir antepassados com antecedentes criminais na máfia irlandesa, o que diminuiria as suspeitas acerca dele ser ou não um “rato” infiltrado.

Desta maneira, o foco narrativo gira em torno da tensão da atividade dos dois infiltrados, que a cada nova ação podem ser descobertos pelo outro lado, ou mesmo descobrirem um ao outro, já que ambos ficam sabendo da existência de um “rato” em suas respectivas bases. O roteiro funciona como um cabo de guerra, onde as novas descobertas e informações de um lado forçam o outro a agir em resposta com igual intensidade.

A situação se complica quando Sullivan começa um relacionamento amoroso com, psicóloga da polícia, designada para dar assistência ao personagem de DiCaprio, que também não demora a flertar com a moça. Os desencontros dos infiltrados e seus constantes esforços para conseguir mais respeito Costello para poder finalmente desequilibrarem o jogo criam uma atmosfera densa e delicada, gerando um show de reviravoltas que obrigam o espectador a não desviar a atenção da telona por nenhum um segundo.

Tudo isso enriquecido por ótimos personagens coadjuvantes, como a dupla de policiais Queenan e Dignan, vividos por Martin Sheen e Mark Walbergh, responsáveis por toda a logística para que Costigan não seja descoberto pelo inimigo. E não posso esquecer dos diálogos, simplesmente geniais, como aquele em que Sullivan diz que não “precisa de bandidos para ser policial, pois se eles acabassem, ele passaria a prender inocentes”.

Apesar de se tratar de uma refilmagem de um longa de Hong Kong (Conflitos Internos), Os infiltrados é Scorsese puro. Aqui o diretor prova mais uma vez entender o universo masculino e como funciona a cabeça dos homens. Neste mundo movido à testosterona (só existe uma personagem feminina com relevância para a trama), Scorsese mostra que os "machos" são movidos pela necessidade de respeito (reconhecimento), poder e sexo. Ao se depararem com a falta ou oferta de um destes elementos, não é raro que estes apelem para a violência. O diretor entende estas motivações e transforma a violência de seus filmes em algo cheio de significado, sempre de forma inteligente, algo que alguns puristas defensores das boas maneiras talvez não sejam capazes de entender...

sexta-feira, novembro 10, 2006

Música


Lily Allen: sensação musical graças a maneira "despojada" de ser


Se você está à procura de um popzinho suave e descolado, capaz de rolar na MTV, mas com personalidade própria, uma boa pedida é conferir o álbum Alright, Still... da inglesa Lily Allen. Muito bem executado e com letras pra lá de inusitadas, Allen é séria candidata a se tornar a nova queridinha da mídia.

Tudo graças à sua sinceridade. Depois de um mal sucedido disco de estréia, “Lily the Kid”, como é conhecida na Inglaterra, não deu bola para os executivos de sua gravadora e manteve o teor sarcástico de suas canções, de letras bem pessoais e, em alguns casos, sem muito pudor.

A decisão fez com que a cantora não recebesse o aval dos “engravatados da música”. Ainda sim Allen se mantinha irredutível, e já que estava sem gravadora, resolveu divulgar suas canções através de sua página do Myspace:
http://www.myspace.com/lilymusic. Não demorou para que Lily conquistasse o maior suporte que um artista pode contar: uma legião de fãs. Em pouco mais de um mês as músicas já haviam sido acessadas mais de 1 milhão de vezes. Lily se tornou a mais nova celebridade do mundo virtual, um sucesso tão retumbante para qual nenhuma gravadora poderia fechar os olhos.

Quando já podia escolher em qual selo ficar, Lily optou pela EMI, mas não abandonou a Internet. A cantora continua atualizando regularmente sua página pessoal do Myspace e um blog: http://www.lilyallenmusic.com/. Neles podemos conferir um pouco das desbocadas letras que garantiram o sucesso da cantora. Um exemplo? Que tal o hit Smile: “When you first left me I was wanting more. but you were fucking the girl next door, what you do that for?” “Quando você me deixou eu queria mais, mas enquanto você fodi@#$ a vizinha, o que você queria?”. Tudo isso produzido de forma açucarada, prontinho para ser o sucesso da estação. Alguém duvida?



Confira o talento da moça para o pop grudento no hit "LDN"

segunda-feira, novembro 06, 2006

Cinema

Poema em Celulóide


Fonte da vida: Hugh Jackman mostra o quanto pode brilhar

Minha expectativa para conferir Fonte da vida era enorme. Quase do tamanho da fila para entrar na primeira sessão do filme no Festival Internacional de Brasília. Quando as portas da sala 1 do Cine Academia se abriram uma pequena multidão passou a correr afoita em busca de um bom assento. Tudo porque o diretor do filme é Darren Aronofsky, o revolucionário responsável pelos magníficos Pi e Réquiem por um sonho.

O longa marca a volta do cineasta após um hiato de seis anos, período em boa parte dedicado a um ambicioso projeto que entrecruzaria três narrativas distintas, cada uma delas separadas quinhentos anos no tempo. Brad Pitt e Cate Blanchet estrelariam a produção, batizada de Fonte da vida, mas logo começaram a surgir as famosas “diferenças criativas” entre ator e diretor, culminadas com a saída de Pitt. Como o longa era todo construído em cima do personagem de Pitt, Blanchet pulou fora pouco depois. A produção ficou estagnada e a Warner optou por bloquear os oitenta milhões de dólares reservados ao projeto.

Aronofsky também pensou em abandonar o barco. Se envolveu nas pré-produções do novo longa de Batman e na adaptação de Watchmen, tudo para esquecer a desilusão de não filmar sua menina dos olhos. Mas o diretor não se identificou com estes projetos e em pouco tempo já procurava formas de recomeçar a produção de Fonte da vida
. Após enxugar o roteiro e reduzir os custos de produção em quarenta milhões, ele recebeu novamente o sinal verde da Warner. Hugh Jackman e Rachel Weisz tomaram os lugares reservados a Pitt e Blanchet, e a ambição de Aronofsky pode se completar.

A história de Fonte da vida não chega a ser tão complexa quanto as primeiras sinopses pintavam: é uma história sobre a fragilidade humana e nossa difícil relação com a morte, Jackman interpreta três personagens, um conquistador espanhol atrás da antiga lenda maia sobre a “fonte da vida”, um médico em busca da cura do câncer e um astronauta viajando em direção ao um agrupado de estrelas que, segundo as mesmas lendas maias, tem a capacidade de conceder vida eterna.

Para cruzar as linhas narrativas paralelas, Aronofsky constrói a trama que envolve o conquistador espanhol como um livro que Izzy (Weisz) escreve durante sua luta contra o câncer. Nada mais que um espelho da obstinação de seu próprio marido, que pesquisa as propriedades de cura de uma antiga árvore apenas para garantir que a mulher amada, objeto de sua adoração, sobreviva. O astronauta pode ser interpretado como o final da jornada do conquistador, mil anos no futuro, ou mesmo a destino do médico Tommy (Jackman), após encontrar o segredo da vida eterna em sua pesquisa. Os três podem ser considerados apenas um personagem, pois nenhum consegue lhe dar com a perda da mulher amada, e todos estão em busca da “fonte da vida”.

O enredo é muito simples e mesmo assim o filme é capaz de provocar as relações mais distintas e complexas. Algumas pessoas simplesmente não conseguiram compreender as conexões entre as tramas. Outras, por motivos religiosos ou filosóficos, não conseguem entender a dificuldade que os personagens de Jackman têm em aceitar a morte. Outros simplesmente acharam mo filme "vazio". O fato é que a produção é uma síntese perfeita da própria humanidade, que durante toda sua história (daí as narrativas separadas pelo tempo) se mostra incapaz de lidar com a morte, criando os mais diversos subterfúgios para aceitar o destino final, ou apenas diminuir a dor. Um tema que merece reflexão.

O longa é permeado por inúmeros efeitos especiais e planos pouco convencionais, marca registrada de Aronofsky, mantendo o estilo lisérgico das produções anteriores. Mas desta vez o diretor acaba escorregando em seqüências exageradamente grandiosas, que apesar de lindas, acrescentam muito pouco ao resultado final.

O mesmo não se pode dizer da interpretação de Jackman, uma das melhores já vistas no cinema. O ator é o pilar de sustentação do filme. Toda a dor e dificuldade de resignação só podem ser assimilidas graças à inacreditável sinceridade de Jackman em cena, transbordando emoção durante toda a fita. Aronofsky acertou em cheio neste ponto. Sem um um grande ator seria impossível rodar um roteiro tão minimalista. Weisz, por sua vez, cumpre seus papéis de forma correta, compondo o oposto de Jackman: uma pessoa conformada com seu destino. Interessante notarmos que a atriz é esposa de Aronosky, algo que deve ter contribuído para que o diretor se esforçasse tanto em transformá-la no motivo daqueles personagens viverem, a verdadeira “fonte da vida” de cada um deles.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Cinema

Volta as origens


Volver marca o retorno de Almodóvar aos temas femininos.

Olho no relógio: 20:30! O coquetel de abertura do Festival Internacional de Cinema de Brasília 2006 estava marcado para oito da noite, mas quem comprou ingresso foi obrigado a ficar do lado de fora, espiando alguns figurões desfilarem seus modelitos fashion pelo saguão do Cine Acadmia enquanto se empanturram com vinhos e salgadinhos. É preciso garantir o conforto de gente como o governador eleito do Distrito Federal, José Roberto Arruda, justo ele, que até um mês atrás não media esforços para ser visto no meio do povão...

Mas nem mesmo todo este constrangimento foi capaz de apagar o brilho desta sessão de estréia. Após degustar alguns salgadinhos e amendoins e esperar os políticos garantirem os melhores lugares, recostei minha cabeça na poltrona e esperei a projeção começar. Antes, uma pequena apresentação sobre o festival.

O filme escalado para abrir a mostra deste ano foi Volver, do espanhol Pedro Almodóvar, antecedido pelo curta Tarantino’s Mind, de Manitou Felipe e Bernardo Dutra. Os diretores brasileiros apresentam uma tese sobre o cinema de Quentin Tarantino, onde o personagem vivido por Selton Mello costura ligações entre todos os filmes dirigidos e roteirizados pelo diretor americano. Certamente os grandes fãs de Tarantino já haviam feito algumas das associações apresentadas, mesmo assim, o curta consegue ser bem divertido quando nos depara com referências que passaram batido. Um ótimo cartão de visita para a dupla de estreantes.

Era chegada a hora da atração principal. Volver (voltar em espanhol) logo se mostra um excelente título para o novo trabalho de Almodóvar. O reencontro conturbado entre mãe e filha é também a volta do diretor ao seu habitat natural. Aqui Almodóvar se reencontra com a musa Penélope Cruz, as cores vibrantes, a vida cotidiana e, principalmente, com o universo feminino, que ele compreende como poucos. As mulheres de Volver são fortes e independentes, e mantém uma relação de desconfiança com o os homens. Todas já tiveram grandes decepções com o sexo oposto, mas Almodóvar é sutil, ao ponto de não transformar seu trabalho em mais um panfleto para a eterna guerra dos sexos.

E trabalhar novamente com o universo que lhe é habitual não fez com que Almodóvar se repetisse. Longe disto! Volver apresenta um frescor raro no cinema atual, com um narrativa fluída, calcada na tradição oral de contar histórias do povo latino. Um “que” de realismo mágico permeia a produção e o cineasta brinca com o telespectador enquanto sugere levar a história para rumos pouco convencionais, mesmo sem fazer as experimentações estruturais apresentadas em longas como Má educação. Volver é linear e o desenrolar da história se dá como nos melhores segredos de família, onde cada peça do quebra-cabeça é descoberta meio que por acaso, justificando as atitudes tomadas pelos personagens anteriormente.

E que personagens!!! Bastaram poucos minutos de projeção para que a sala, completamente lotada, se visse conquistada pelo incrível carisma daquelas mulheres! Apesar da família composta por Irene e suas filhas Raiumunda e Soledad possuir características tão ímpares, é impossível não se indentificar com a forma como elas interagem entre si. Risadas e expressões de angústia ecoavam em uníssono no cinema, só terminando ao final história, um desfecho tocante, sem ser piegas. Bem diferente da maioria das produções que permeiam o mercado. Após a projeção, palmas mais do que merecidas.

Se você perdeu a exibição de estréia, não se desespere. Volver não irá demorar a aportar no circuito convencional. Sua estréia nacional acontece no dia 10 de novembro. Mas procure não perder esta segunda oportunidade, afinal, não é sempre que podemos assistir no cinema a um filme que já nasce clássico.

terça-feira, outubro 31, 2006

Cinema

Sem desculpa pra ficar em casa


Fonte da vida, uma das atrações do Festival Internacional de Brasília

Com dois grandes festivais engatilhados, novembro promete para os cinéfilos brasilienses. Logo de cara, no dia primeiro, começa o Festival Internacional de Brasília, mostra que reúne trabalhos de cineastas dos quatro cantos do globo. O final do mês fica reservado para a Mostra Nacional, com o melhor do cinema tupiniquim.

É verdade que o Festival Internacional de Brasília ainda não conta com o mesmo prestígio dos primos carioca e paulista, que concentram os principais lançamentos em suas sessões. Mesmo assim, o FIC deste ano exibe um cast de respeito, em parte pelo próprio atraso do festival, que ocorre tradicionalmente em julho, mas graças a "concorrência" da Copa do Mundo e das eleições, precisou ser adiado.

Este atraso possibilitou a inserção de produções muito aguardadas, que não poderiam estar presentes no mês habitual, ou por não estarem prontas, ou para não “furar” o Festival do Rio, que acontece em setembro. Películas de gente consagrada como Pedro Almodóvar, que aparece com Vover, e Darren Aronofsky, com Fonte da Vida, certamente irão atrair um grande público para a mostra. Totsy – Infância Roubada, documentário vencedor do Oscar, e Um bom ano, novo de Ridley Scott, são outros que devem lotar suas sessões.

Os organizadores garantem que os filmes com menor destaque na mídia não serão prejudicados pela concorrência com estes “arrasa-quarteirões” cult. Eles argumentam que as películas de grande projeção servem como iscas para o grande público, que acaba atraído pelas produções de menor divulgação, mas igual qualidade presentes no festival. Tomara que eles estejam certos!!! Aposto que filmes como Viva Zapatera! de Sabrina Guzzanni e CRAZY – Loucos de amor de Jean-Marc Vallé devem dar o que falar!!

As sessões serão no Cine Academia, as margens do Lago Paranoá, entre os dias 1° e 9 de novembro. Para conferir as salas e horários, ou ainda outros detalhes sobre o festival, visite o site oficial:
www.ficbrasilia.com.br

Em breve eu volto para falar sobre o Festival Nacional, que só acontece no final do mês, e para falar sobre o que vi nas salas de projeção da FIC.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Cultura

Como uma pedra rolando


Capas da Rolling Stone: estilo exaustivamente copiado em todo o mundo

Ávido freqüentador de bancas de revistas que sou – não passo um dia se quer sem visitar ao menos duas – observo com entusiasmo o grande aumento de publicações relativas à cultura pop nos últimos anos. Cinema, música, quadrinhos, seriados de TV e derivados nunca tiveram tanto espaço na mídia.

Apaixonado por todos estes temas, me vejo todo mês na ingrata tarefa de selecionar o que devo ou não levar para a casa. Com uma oferta tão vasta e pouco dinheiro na carteira, sou obrigado a folhear diversos títulos atrás daquele que apresente melhor relação custo-benefício. Algumas revistas já se tornaram praticamente obrigatórias, mas sempre pinta alguma surpresa. Neste mês de outubro ela atende pelo nome Rolling Stone.

Originária dos EUA, berço da esmagadora maioria da produção pop mundial, a Rolling Stone foi criada na década de sessenta, auge da contracultura. Nasceu para disseminar os ideais contestadores daquela geração. Seu jornalismo original, transgressor e de grande consciência política garantiram à publicação um lugar de destaque naqueles anos de revolução da arte. Os anos dourados chegaram ao fim e a revista seguiu em frente, tornando-se um verdadeiro ícone do universo que ela mesmo cobria.

Com todo este sucesso e importância na bagagem, sempre estranhei o fato da Rolling Stone não ter aportado pelas terras tupiniquins há mais tempo – não sabia que já houveram algumas experiências frustradas. Ora, uma revista que aborda todos os temas citados no início do texto e prima por reportagens aprofundadas e opinativas certamente teria seu espaço. Principalmente em um mercado repleto de publicações que parecem não fazer mais do que publicar releases das gravadoras e distribuidoras.


Capa da primeira edição


Número 1
A primeira edição estampa Gisele Bündchen na capa, “a maior pop star brasileira”, cparafraseando a revista. Isto revela que a edição nacional está preocupada em ser vista como um produto legitimamente nacional – mesmo que Gisele seja um ícone do Brasil com “Z”. A matéria de capa, de Ademir Correa, é bem escrita, mas não consegue fugir do lugar comum que são as entrevistas com a supermodelo.

Se destacam mesmo as matérias de menos destaque, como a entrevista com “Anel”, advogado do PCC; a reportagem que traça o perfil de Mariana Ximenes (na minha opinião, a atriz mais talentosa da nova geração); um panorama a produção cultural do Acre e a entrevista com o ator Jack Nicholson. Também se destacam as ótimas análises sobre os principais lançamentos no mundo da música, cinema e literatura. O legal é que apesar de ser um veículo extremamente comercial, a revista consegue dar grande espaço para produções independentes (indies).

Outro ponto forte, principalmente para quem gosta de quantidade, é o próprio tamanho da revista (138 páginas de 36x30 cm). Diagramada em quatro colunas por página e utilizando fonte Times New Roman tamanho 10, a revista é um verdadeiro oceano de informação. Se uma revista como a SET, com 82 páginas, pode ser “devorada” facilmente em apenas uma tarde, a Rolling Stone exigirá pelo menos o triplo de tempo para ser “absorvida”.

Em suma, uma ótima pedida para quem quer se manter antenado no mundo da música e cultura pop em geral. Espero apenas que a revista corrija alguns deslizes para sua próxima edição. Se a revista quer realmente ter uma imagem de produto feito no Brasil deve corrigir detalhes como o excesso de expressões estrangeiras. Se o motivo era tentar ser mais "cool", posso dizer que não ficou, de fato, "legal".

Mas a Internet é uma inimiga?
Este aumento de publicações que percebo nas andanças por bancas de revistas me deixa, no mínimo, curioso. Vivemos na era da Internet, a enciclopédia-mor da linguagem pop, e tenho certeza de que o grande público visado por estas publicações já está inserido neste contexto virtual. Então por que as pessoas passaram a procurar mais informações sobre algo que elas poderiam encontrar na rede facilmente?

É certo que a maioria destas novas publicações mal chegam a um ano de vida, fruto do mau planejamento que assola todos os campos de negócios em nosso país. Mas para cada uma que desaparece, outras duas dão as caras.

Isto deve provar definitivamente que a Internet e sua linguagem de hiperlinks são um estímulo para pessoas procurarem cada vez mais informação sobre o que lhes interessa. A rede pode até ser inimiga de algumas publicações, mas usada corretamente, se configura em uma grande isca para leitores em potencial.