sexta-feira, julho 04, 2008

Cinema

Ponto de equilíbrio


Será que a Marvel não sabe o que significa meio-termo?

Não deixa de ser curioso observar a trajetória do Hulk nos cinemas. Após protagonizar um fracasso de bilheteria, comumente explicado pela trama existencialista demais para os padrões dos fãs de quadrinhos, o personagem ganhou nova chance em um filme que não poupa em cenas de ação e, de vez em quando, se esforça para ser suficientemente simples para não torrar um mísero neurônio da audiência. O resultado: mais um retumbante fracasso de bilheteria.

O que a Marvel deverá culpar desta vez? Ela terá coragem de responsabilizar os atritos com o roteirista-produtor-potagonista Edward Norton? Jogará a bomba em cima da inexperiência de Louis Terrier? Ou será que o estúdio capitaneado por Kevin Feige terá a hombridade de assumir os erros pela política “oito ou oitenta” que norteou as aventuras cinematográficas do “golias esmeralda”?

Tomara que a última opção mostre-se verdadeira. Seria muito fácil culpar Terrier, diretor fraco e sem estilo próprio, contratado unicamente porque a Marvel queria trabalhar com um diretor totalmente submisso à decisão de entupir a fita de ação. Terrier, por sua vez, poderá usar como álibi as amarras criativas impostas pelo ego inflado de um Norton descontente com os rumos impostos pelo estúdio. O ator também poderá empurrar a responsabilidade para debaixo do tapete de quem melhor lhe convir, mas que fique claro: o Hulk poderia fazer sucesso se tivesse tido um tratamento igual ao dado a Homem de Ferro, só pra ficarmos com um exemplo recente de adaptação que respeita o material original, a inteligência dos fãs e a arte de se fazer cinema.

Considero que pouco importa o tempo decorrido de cenas de ação em um filme quando o conjunto da obra é consistente e completo. É preciso equilíbrio, e neste ponto ambas as produções falharam. Admito que gosto muito mais do filme de Ang Lee, inclusive considero que ele possui sim bons momentos de ação, mas acredito que um meio termo entre as duas fitas conseguiria um retorno bem melhor. Duvidam? Vejamos como seria um filme do Hulk caso eu estivesse no lugar do Sr. Feige:


Edward Norton como Bruce Banner: Eric Bana não deixou saudades...

Primeiramente, manteria a história de origem do primeiro longa, mas com Norton encabeçando o projeto. O ator dá vida a um Bruce Banner quase tão perfeito quanto o Tony Stark de Robert Downey Jr. (que dá as caras no final do novo filme) e sem dúvida muito melhor do que aquele vivido por Eric Bana, que apesar de bom ator, pouco tinha haver com o personagem. Já Liv Tyler fica muito aquém de Jennifer Conelly como Betty Ross, não sendo mais do que uma mocinha bonita em perigo, sem conseguir passar o desespero que a personagem exige. Sam Elliot e Willian Hurt mostraram-se igualmente competentes na pele do General Ross (aliás, é até difícil diferencia-los!). Qualquer um dos dois poderia ficar com o papel. O personagem de Nick Nolte teria sua participação reduzida em prol da inserção do Abominável vivido por Tim Roth, talvez o grande achado da segunda produção. A trama de origem favoreceria o drama, e teríamos como contraponto a origem de um grande vilão, o que garantiria a ação do filme. Junte tudo isso ao visual mais realista do Hulk do segundo filme e entregue nas mãos de um diretor competente (podia até ser o Ang Lee de novo). Pena que o Hulk deverá ter seu futuro cinematográfico restrito aos filmes dos Vingadores...

terça-feira, junho 03, 2008

Cinema

Personificação inoxidável!

Downey Jr. dá vida a melhor transposição de um super-herói para o cinema

Se 2007 foi marcado pelas continuações histriônicas que, apesar de campeãs de bilheteria, pareciam atestar ser impossível produzir blockbusters de qualidade, 2008 veio para provar que sim, é possível criar arrasa-quarteirões para um público dotado de mais de dois neurônios. São filmes que não se utilizam somente de efeitos especiais ou de uma franquia estabelecida para angariar público, embora precise ficar claro, tais chamarizes também estão presentes, mas dividem espaço com roteiros inteligentes e uma boa dose de diversão descompromissada. O primeiro e melhor exemplo desta leva, até agora, é Homem de Ferro, mais nova adaptação da interminável lista de personagens oriundos dos quadrinhos.

E para quem achava que tal fórmula já tinha saturado, a Marvel mostra que a era dos heróis no cinema pode estar, quem diria, apenas começando. Homem de Ferro é o primeiro filme completamente bancado com recursos da editora – agora também estúdio – propiciando um tratamento mais cuidadoso com o personagem, o que na prática significou bancar decisões que certamente seriam barradas por um estúdio parceiro. É o caso da escolha de Robert Downey Jr. para o papel principal. Embora hoje saibamos tratar-se de uma escalação perfeita, verdadeira encarnação do vingador dourado em celulóide, Downey Jr. não parecia ser o nome mais indicado quando o projeto ainda estava no papel. Um ator reconhecidamente de filmes, digamos, de viés artístico e pouco comercial, e que nunca havia participada de um projeto tão grande era uma aposta muito arriscada. Somente quem conhecia muito bem o produto que tinha em mãos poderia fazê-la.

Além da semelhança física entre ator e personagem ou mesmo da trajetória de vida desses dois assumidos beberrões, Downey Jr. tinha algo mais para emprestar ao seu Tony Stark: uma alma. Consciente de que esta era sua grande e talvez derradeira oportunidade para desfilar entre as estrelas de primeiro escalão, o protagonista não se contentou em criar um Tony Stark, tornando-se o próprio. Em cada tirada cômica do ótimo roteiro – e são muitas – na canastrice típica de um playboy milionário de meia idade ou na interação com os ótimos Jeff Bridges e Gwyneth Paldrow, Downey Jr. mostra que o filme é dele. Consciente disso, o diretor Jon Favreau trata de construir a atmosfera perfeita para o astro brilhar, garimpando o melhor da origem do Homem de ferro dos quadrinhos, modernizando tudo para o século XXI para criar uma história alicerçada na atual política econômica americana, mas sem as amarras de um didatismo que poderia comprometer o ritmo da história.


Gwyneth: "Eu sei que sou coadjuvante, mas isso não é demais?"

Para quem não o conhece da versão em quadrinhos – e imagino que não sejam poucos – Tony Stark é um super-gênio da ciência, dono da competência de um Professor Pardal mesmo quando a situação o obrigue a trabalhar com menos do que McGyver gostaria de dispor. Herdeiro de um gigantesca corporação armamentista, Stark se define como um patriota, homem que sente orgulho por produzir máquinas de destruição que fomentam o “american way of life” e disseminam a ideologia de Bush pelo mundo. É claro que isso é o mais longe da definição de “herói”, mas não o culpem. Como não ser alienado com tanto dinheiro, uma garrafa de whisky na mão e uma modelo capa da Maxin na outra?

Tudo muda quando o figurão é seqüestrado por rebeldes afegãos que querem obrigar Stark a dar um upgrade em seus armamentos. Ao constatar ter sido emboscado com a ajuda do armamento que produz, Stark percebe que, ao contrário do que ele sempre imaginou, suas armas não são invenções a serviço da liberdade, mas daqueles que pagam mais. Com o pouco que tem em mão o inventor decide dar uma guinada radical em sua vida, construindo algo que possa de fato fazer a diferença para um mundo melhor. Ou pelo menos que o possibilite figurar com pose de super-herói por entre o público feminino, pois Homem de ferro é um perfeito exemplar de filme de super-herói, com bem e mal perfeitamente definíveis, mas com fatores motivacionais menos altruístas, que escapam ao maniqueísmo habitual do estilo.


E como não poderia deixar de ser, o filme possui excelentes cenas de ação

quarta-feira, maio 07, 2008

Cinema

Chega de severidade!


Um beijo roubado não é o melhor Kar-Wai, mas é sim um bom filme!

Ser considerado um ícone no mundo das artes não é ocupação fácil, não importa o campo em que você atue. Depois que um artista consegue renome mundial e tem seu talento venerado, as expectativas em torno de seu próximo projeto tornam-se elevadas demais, o que muitas vezes acarreta julgamentos que, de tão severos, revelam-se um tanto míopes.

As críticas pra lá de duras a Um beijo roubado, primeira incursão do cineasta chinês Wong Kar-Wai no cinema americano, são um exemplo perfeito de como boa parte da crítica se deixa levar pelo “tietismo”, abandonando critérios mais objetivos em suas análises. O novo trabalho de Kar-Wai de fato não está entre os melhores de sua extensa filmografia, mas nem de longe é tão ruim quanto foi dito. Ora, é totalmente compreensível que não se possa criar um Amor à flor da pele todos os dias.

A mudança de ares talvez seja a culpada por tanta falação. É sabido que boa parte da crítica detesta os Estados Unidos, sendo incapaz de ver um filme bom sair daquelas bandas. Mas mesmo a defenestrada Hollywood não foi capaz de limar as peculiaridades do cinema de Kar-Wai, aquelas que o elevaram a condição de ídolo. Em Um beijo roubado estão presentes os personagens melancólicos, a vida noturna permeada pelo neôn, a câmera lenta e a fotografia de planos elaborados, que desta vez fica a cargo de Darius Khondji (Se7en). E para estrear com o pé direito no cinemão ianque, nada melhor do que ter uma protagonista também estreante a tiracolo. A cantora Norah Jones faz sua estréia em Hollywood e não faz feio em frente a nomes consagrados como Rachel Weisz e Natalie Portman, garantindo mais alguns holofotes para o projeto.

Jones vive Elizabeth, garota que acaba de terminar uma relação amorosa e vai buscar consolo com Jeremy (Jude Law, em modo automático) um perfeito exemplar de barman-psicólogo. Após algumas lições de vida meio insossas (Ei, calma! O filme já vai ficar bom!) Elizabeth decide exilar-se de suas recordações e parte para uma jornada rumo ao oeste dos Estados Unidos – seria esta uma referência de Kar-Wai ao western, o “gênero americano por natureza”?


Ironia: O personagem de Jones funciona melhor quando fora de foco

E é quando nossa protagonista passa a ser apenas uma coadjuvante que as estrelas de Jones e Kar-Wai passam a brilhar, ajudados pelas soberbas interpretações de David Strathain, como o policial que não consegue tirar a ex da cabeça; Rachel Weisz, a ex que só quer a chance de seguir em frente; e Natalie Portman, a jogadora inveterada que não se entende com o próprio pai. Todos conferem uma tridimensionalidade marcante para os personagens que vivem. Sentimos que podemos topar com algum deles a qualquer momento, numa destas esquinas da vida, que como bem aprendeu Elizabeth, podem ter muito a nos ensinar. Diante dos dramas alheios que ela passa a acompanhar, sua desilusão ganha contornos medíocres. Elizabeth amadurece, e está pronta para o retorno.

segunda-feira, abril 14, 2008

Cinema

Olhando para trás...


Se Stallone pode, porque eu não poderia?

Antes de mais nada, preciso me desculpar pelo marasmo e preguiça que tomaram minha rotina nos últimos dias. Abril já está pela metade e em breve os blockbusters do verão americano aportarão em solo tupiniquim. Sem dúvida um momento propício – talvez o último! – para lançar um olhar mais crítico e analítico sobre as produções que marcaram o mês de março. Aqui vai uma análise sobre três filmes que assisti durantes aquele mês.

Começo por Rambo IV, a mais nova visita de Stallone ao próprio passado. Aqui ele segue a risca a fórmula apresentada em Rocky Balboa, “um homem tentando encontra sua essência e provar seu valor”. O problema é que o retorno do boxeador emanava certo charme. Era um retorno improvável, ridicularizado por todos, dentro e fora das telas, trajetória que se mesclava com a do próprio Stallone. Torcemos para o triunfo de Rocky sem que para isso o diretor tivesse de apelar ao maniqueísmo. Não existem vilões e mocinhos, apenas um homem que compreende o que é e clama por uma nova chance.

Rambo também compreende sua essência, algo que fica claro no flashback que utiliza cenas das produções anteriores. Mas tentativa de Stallone em traçar um paralelo entre a trajetória dos dois maiores personagens falha porque, ao contrário de Rocky, Rambo não precisa provar mais nada a ninguém. Isso obriga o diretor a criar uma situação justificável para o retorno do herói, que assume a forma de um roteiro bobo, repleto de vilões que são verdadeiras caricaturas para o “mal encarnado”. Ainda sobrou tempo para inserir um grupo de missionários que terão uma “lição de vida” por meio da retórica de Rambo, um interesse romântico (!?) pra lá de forçado e um grupo de mercenários que só estão lá para servir de parâmetro para a inacreditável aptidão do protagonista para a guerra. Tudo elevado a enézima potência no quesito violência, onde Rambo IV estabelece novos recordes para derramamento de sangue em película.

Violência também é uma constante na vida do mafioso russo Nikolai, personagem vivido por Viggo Mortensen no bom Senhores do crime, novo fruto da parceria com o diretor David Cronenberg, que já rendeu o aclamado Marcas da violência. O interessante é que a dupla cria uma história que evolui de forma quase contrária a do longa anterior. Se em Marcas da violência Mortensen constrói um personagem pacato e simples, que aos poucos revelava uma faceta assustadora, aqui ele dá vida a um assassino frio que, com o desenrolar da história, apresenta-se como sujeito de motivações nobres, preocupado com o bem-estar do próximo.

Naomi Watts vive Anna, enfermeira de Londres que presencia a morte de uma prostituta russa em pleno parto. Como a filha da jovem sobrevive, Anna, descendente de russos, assume o compromisso de traduzir o diário da garota a procura de parentes que possam assumir a guarda da criança. Com a ajuda do tio e de um enigmático dono de restaurante – Armin Mueller-Stahl, ótimo – que é mais do que aparenta ser, Anna acaba no meio de uma trama que pode levar a prisão do chefe local da máfia russa. O filme ainda conta com a participação de Vicent Cassel no papel que ele mais gosta de interpretar, o de bandido com sérios distúrbios sexuais. Cronenberg pode não ter atingido aqui o patamar de excelência do filme anterior, mas prova nunca devemos relegar atenção as produções com sua assinatura.


Além de exímio matador, Mortensen leva jeito com as mulheres.

Também é bom prestar atenção ao novo longa de James Magold, Os indomáveis, refilmagem do faroeste Galante e sanguinário, de 1957. O trabalho com um texto clássico, do qual Magold é profundo admirador, faz com que os rumos da história continuem os mesmos, mas com a vantagem de uma produção obviamente mais requintada, com direito a atores tão dedicados quanto os do original. Christian Bale dá vida a Dan Evans, ex-soldado manco que tornou-se fazendeiro e tenta ganhar a admiração do filho ao aceitar escoltar o criminoso capturado Bem Wade – Russel Crowe, magnífico – até o trem que leva os prisioneiros até a detenção da cidade de Yuma.

Logo percebemos que Wade não se encaixa na imagem que Evans faz de um bandido. Consciente da gravidade de seus crimes, Wade jamais tenta se passar por um bom sujeito, o que não impede que ele tenha bons modos e siga um código de honra em certos pontos mais elaborado do que o cultivado pelos guardas que acompanham Evans na jornada. Logo a dupla conquista nossa simpatia, tendo suas performances ofuscadas somente quando um dos pistoleiros comandados por Wade – vivido por um quase sobrenatural Ben Foster – surge na tela, sempre tentando devolver a liberdade do chefe.


Bale e Crowe estão impecáveis nesta refilmagem de um faroeste clássico.

Em breve prometo escrever sobre outras produções que chamaram minha atenção nestes últimos dias. De cara, faço questão de recomendar o novo filme de Wong Kar-wai, Um beijo roubado, que embora não seja a melhor obra do diretor, é um belo filme e uma das melhores pedidas para o fim de semana. Abraços!

segunda-feira, março 17, 2008

Cinema

Fazendo Justiça


Wilson e Winlet sucumbem a tentação e arriscam seus casamentos

Assisti Pecado íntimos somente nesta semana e sinto que cometi uma injustiça na minha lista de melhores produções do ano passado. É claro que é humanamente impossível assistir a todos os filmes que são produzidos durante um ano mundo afora, mas o longa dirigido por Tood Field merecia minha atenção e eu passei batido. Contando com um elenco excepcional Kate Winslet e Patrick Wilson estão matadores nos papéis principais; Jack Earle Haley e Jennifer Connely são coadjuvantes de luxo – e também com um texto afiado e preciso, que discorre sobre as desilusões de levar uma vida diferente daquela sonhada na juventude. Permeado por narrativas em off, atestando que o formato tem foça quando usado de forma apropriada, Pecados íntimos é daqueles filmes que precisámos ver e rever só para passar algumas horas debatendo com os amigos. Recomendadíssimo! Não refaço a lista supracitada, mas é certo que este longa figuraria nas cabeças...

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Cinema

Jovialidade contagiante


Ellen Page conquista o mundo como uma simpática grávida adolescente

Ah, a adolescência! Basta envelhecermos um pouquinho para passarmos a maldizer as gerações atuais. Quantas vezes estive entre amigos reclamando da superficialidade dos ídolos teens, da onda de consumismo aparentemente irrefreável que assola os mais jovens ou da preocupação quase que exclusiva deles para com os temas mais fúteis possíveis. Procurava entender porque as novas gerações insistiam em avalizar porcarias como as terríveis besteiras protagonizadas por gente como Rob Schneider ou os irmãos Wayans. E olha que eu nem sou tão velho assim!!! Tenho só vinte três anos, e sob a ótica de alguns analistas atuais, ainda posso ser chamado de adolescente.

Mas eis que surge no horizonte uma produção chamada Juno, comédia sobre adolescentes voltada para os adolescentes e que, surpresa, não os trata como idiotas. Talvez isso se deva a postura da roteirista revelação Diablo Cody, que parece realmente conheçer o público alvo, ao contrário de tantos executivos que costumam abdicar do cérebro, utilizando os bolsos para pensar. Melhor ainda é saber que o filme é um sucesso arrebatador em todos os lugares que passa, provando que ainda existe muito jovem a fim de utilizar os neurônios, o que destrói meus argumentos iniciais.

Juno, personagem que dá nome à produção, é um bom exemplo desta leva. Com apenas dezesseis anos, a garota interpretada por uma surpreendente Ellen Page encara a vida com maturidade e franqueza raras até em pessoas muito mais velhas. Despojada e espontânea, Juno não economiza em tiradas ácidas, sempre muito segura de suas decisões. A única coisa que falta à garota é um pouco de experiência. Caso ela a tivesse, provavelmente não teria engravidado logo em sua primeira transa.


Um casal; uma gravidez indesejada: fórmula batida; roteiro primoroso

E é esta gravidez indesejada, roteiro já trivial no cotidiano adolescente, que move uma das produções mais encantadoras dos últimos anos. Ancorada em ótimos personagens, todos bem construídos, Juno narra as reações da personagem título diante da “incômoda” situação. Sempre independente e decidida, Juno nem cogita entregar parte da responsabilidade para o pai da criança, Paul Bleeker (Michael Cera), o nerd apaixonado pela personalidade única da garota. Após ter desistido de optar pela “alternativa” mais fácil (um aborto), Juno comunica a gravidez aos pais, e explica que entregará o menino para um casal que ela encontrou nos classificados.

Bonito e bem sucedido, o casal formado por Mark (Jason Baterman) e Vanessa (Jennifer Garner) chama a atenção da garota, que procurou selecionar os melhores partidos para o rebento. Logo ela descobre que os dois são muito diferentes entre si, e que Mark, do alto de seus trinta e poucos anos, é muito mais “adolescente inseguro” do que ela própria. As reviravoltas que sucedem a descoberta descambam para um final que, embora feliz, é demasiadamente inusitado.

A direção precisa de Jason Reitman (Obrigado por fumar) e o texto afiado de Diablo Cody casam perfeitamente. Reitman embala seu produto com o típico visual indie pós Wes Anderson, e de quebra seleciona uma das trilhas sonoras mais inspiradas dos últimos anos. Com um orçamento estimado em pouco mais de dez milhões de reais, Juno é uma produção modesta para o padrão hollywoodiano, e seu sucesso prova mais uma vez que um bom texto, um diretor criativo e atores dedicados podem render dividendos maiores do que entupir filmes com efeitos especiais descerebrados. Juno é um alento para quem anda decepcionado com algumas atitudes da juventude, sendo a prova de que é melhor termos boa vontade com os adolescentes, afinal de contas, talvez sejamos nós que estamos ficando ranzinzas como nossos pais com o passar dos anos...

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Cinema

Crítica com vôo solo


Daniel Day Lewis personifica com maestria o capitalismo selvagem

É difícil não enxergar um “quê” de George W. Bush em Daniel Plainview, personagem que, literalmente, ganha vida na soberba interpretação de Daniel Day Lewis em Sangue Negro. O filme é a adaptação do épico livro Oil!, de Upton Sinclair, sob batuta do jovem, porém já renomado diretor Paul Thomas Anderson. Plainview é uma verdadeira alegoria para magnatas do petróleo e grandes corporações capitalistas, gente que, como ele, é capaz de passar por cima de qualquer princípio em troco de poder e lucro fácil, características compartilhadas pelo atual presidente dos Estados Unidos.

Plainview é o típico empreendedor norte-americano, figura que procura riqueza explorando a ingenuidade de potenciais “sócios” e a pujança de novos nichos de mercado. E no início do século XX, o petróleo era a bola da vez. Desde os primeiros e silenciosos minutos do longa, descobrimos que as atitudes de Plainview são movidas quase que unicamente pela ambição pelo poder. A dor física não deve ser empecilho para o sucesso e a construção de uma família só deve acontecer se esta possibilitar novos dividendos para o negócio. E se esta representar uma ameaça à saúde dos empreendimentos, ela deve rapidamente ser abandonada.

A ambição de Plainview pelo poder possui um fim nela mesma. Ele ludibria camponeses ingênuos, convencendo-os a conceder suas terras para a exploração de petróleo em troca das benesses proporcionadas pelo progresso capitalista, mas não faz isso pensando em enriquecer para poder desfilar pela alta-sociedade, ganhar passe-livre junto aos poderosos ou conquistar uma infinidade de mulheres e ostentar uma vida luxoriosa. Não, Plainview quer mais e mais petróleo apenas para poder dizer que o possui. Na cena em que vemos o brilho de seus olhos ao ter o corpo totalmente coberto pelo precioso líquido, que jorra de um de seus poços, entendemos que o petróleo é mais que um fetiche para Plainview, é o alimento de seu ego.

É claro que um projeto arriscado como este, clara crítica ao comportamento das mais poderosas corporações do mundo atual, poderia soar pretensioso e vazio caso não tivesse sido conduzido por mãos hábeis como as de Paul Thomas Anderson. Rompendo com o estilo herdado de Robert Altman, onde a narrativa fluía por meio de verdadeiros mosaicos de personagens, Anderson entrega seu Sangue Negro quase que inteiramente ao talento de Day Lewis. O filme é todo dele para brilhar, sendo que apenas três coadjuvantes têm real importância para a trama. São eles o filho adotivo H.W., que Plainview utiliza para ganhar um ar de empresário de família; o suposto irmão Henry, último elo do prospector com o antigo seio familiar; e o pastor protestante Eli Sunday, único rival à altura do protagonista, homem que capitaliza sua influência em torno da fé, mercadoria capaz de rivalizar com o dinheiro, embora ambas quase sempre andem de mãos dadas.


Plainview é capaz de usar o filho adotivo para melhorar a própria imagem

Sunday revela-se um entrave para os projetos de Plainview. A capacidade oratória do pastor (vivido pelo jovem Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) rivaliza com a do prospector, e alguns fiéis passam a cobrar uma maior proximidade do empresário com os “assuntos divinos”. Algo que Plainview reluta em fazer, pois reconhece ele próprio na figura do pastor, um falso profeta que usa a boa-fé dos outros para conseguir prosperar. Em suma, Eli não quer ficar mais próximo de Deus, apenas ter mais poder e influência que o prospector.

Mas ao contrário do que o senso comum possa imaginar, Plainview não chega a configurar-se na personificação do mal-encarnado. Anderson é suficientemente sábio para não retirar todos os traços de humanidade do personagem, o que possibilita até mesmo uma certa identificação do público com aquele. Apesar de toda a ambição e de ter conseguido prosperar no negócio, podemos notar um vazio na alma do magnata do petróleo. Existe, sim, um afeto verdadeiro dele para com o menino H.W., apesar da forma pouco sensata que Daniel conduz a criação do filho. Posteriormente, a aproximação do suposto irmão revela que o protagonista sente falta de um ambiente familiar. Mas, novamente, basta seu “império” ser ameaçado para que o personagem volte a embarcar na solidão de seus projetos, realizando tudo conforme suas crenças, não lhe importando críticas externas ou o prejuízo das relações com terceiros. Alguém mais percebe um “quê” de Bush nisso tudo?

domingo, fevereiro 17, 2008

Cinema

Honrados mafiosos


Lucas: Esquema familiar para levar um negro ao topo do tráfico

Filmes de mafiosos são, desde muito tempo, um gênero em Hollywood. E não poderia mesmo ser diferente. O crime organizado é celeiro de histórias impensáveis no cotidiano do restante da sociedade, vivenciadas por homens que já viram e fizeram de tudo, conseguiram dinheiro e poder, e mataram para que estes não lhes fossem retirados. Sem dúvida, uma inesgotável fonte de inspiração para a indústria.

O fascínio exercido pelo mundo da ilegalidade retratou organizações criminosas oriundas dos mais diversos cantos do mundo, rendendo filmes memoráveis, mas nunca uma superprodução do gênero havia sido protagonizada por um negro. Uma aposta bancada pelo já calejado diretor Ridley Scott, que só agora resolveu aderir ao clube dos que abraçaram tal filão. E o personagem principal de O gângster não é um homem qualquer. Frank Lucas é um personagem da vida real, que virou de cabeça pra baixo o cenário criminoso da Nova York dos anos setenta, sendo o primeiro negro a conseguir ultrapassar o volume de negócios dos traficantes da máfia italiana.

Para contar sua história, Scott decidiu dividir o longa em dois focos narrativos paralelos. O primeiro diz respeito à ascensão criminosa de Lucas (encarnado com excelência por Denzel Washington) enquanto o segundo retrata o trabalho do investigador Richie Roberts (vivido por um competente Russell Crowe) para desvendar o esquema implantado pelo mafioso. O formato evidencia os contrastes entre os protagonistas – um é capaz de quase tudo para subir na vida, o outro não consegue se dar bem por ser incapaz de infligir regras – mas também deixa claro que o senso ético (conceito extremamente pessoal) é o pilar que sustenta as ações de ambos.

Lucas baseou todo seu negócio em um modelo familiar, empregando apenas fparentes, em uma estrutura semelhante a da máfia siciliana. Cortou os intermediários para os fornecedores e foi pessoalmente buscar heroína no Vietnã dominado pela guerra. Com o auxílio dos militares, conseguiu garantir o produto mais puro da cidade pelo menor preço, mas sempre atuando de forma discreta. Seu dia-a-dia era marcado por atividades corriqueiras, onde eram priorizados a família e o trabalho. O mafioso nunca quis ver seu nome catapultado para os noticiários, uma postura que dificultava o trabalho de Roberts, fator que adiciona um elemento de perseguição à lá “gato e rato” à trama.


Crowe é um coadjuvante de luxo, com direito a subtrama paralela

O detetive também coloca o trabalho em primeiro lugar, o que faz com que sua mulher o abandone, levando consigo o filho pequeno. Esta postura também dificultou a vida dele dentro da polícia. Após devolver um milhão de dólares encontrados no porta-malas de um criminoso, Roberts perdeu o respeito dos colegas, mas não se importou nem um pouco. Bastava que qualquer um deles pisasse na bola para que o investigador aplicasse o rigor da lei.

A força de O gângster reside justamente nesta dicotomia e na noção de que toda ela foi baseada em fatos reais. O retrato sem floreios da degradação do “sonho americano”, na corrupção das instituições e na apropriação do ideal de terra da “livre iniciativa”, como forma de endossar a opção pelo crime, confere caráter político ao enredo, uma constante no profícuo gênero dos filmes de gângsteres. Rildey Scott soube beber da fonte, deu forma para mais um grande representante do estilo e, ironicamente, renovou seu vocabulário adotando as nuances de um dos formatos mais difundidos e copiados em Hollywood.

domingo, fevereiro 10, 2008

Cinema

Bola da vez


Javier Barden e seu cabelo tigelinha dão vida a um soberbo assassino

Mesmo quando apelam para o humor mais fácil, em projetos com nítido viés comercial – Matadores de velhinhas e O amor custa caro são bons exemplos – os irmãos Joe e Ethan Coen dificilmente perdem o aval da crítica. Imaginem então como é a reação desta quando a dupla resolve entregar um produto maduro, enxuto de piadas prontas e com personagens extremamente densos, no que pode ser considerado um de seus melhores longas. Falo sobre Onde os fracos não têm vez, produção que deixou a crítica de joelho, e que vem arrematando uma quantidade cada vez maior de notas máximas nos veículos especializados.

Apesar de toda reverência dos críticos, os Coen nunca foram grandes “papadores” de Oscars – só levaram a estatueta de melhor roteiro original por Fargo, em 97. Onde os fracos não têm vez tem tudo para por um fim nesta escrita, sendo favoritíssimo na premiação deste ano, exatamente uma edição depois da academia ter agraciado o também injustiçado Scorcese por Os infiltrados. O interessante é que ambos os filmes não possuem o perfil usual de ganhadores da estatueta, sendo marcados pela violência e recheados com personagens de moral duvidosa.

A violência não é nenhuma novidade do cinema dos Coen, assim como a personagens com desvios de caráter também não. Mas em Onde os fracos não têm vez os irmãos abandonam a estética estilizada que os colocava próximos de gente como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. O tom sério e contemplativo do texto do escritor Cormac McCarthy – está é a primeira vez que os irmãos adaptam um texto – faz com que o conteúdo da fita situe-se em um ponto entre a caricatura e a realidade de um mundo cada vez mais violento, onde quem ainda segue as regras simplesmente “não têm vez”.


Tommy Lee Jones é um velho xerife que analisa a degradação da sociedade


O encarregado de deixar esta mensagem clara para o público é o xerife Ed Tom Bell, personagem de Tommy Lee Jones. Bell não protagoniza a história, mas torna-se uma espécie de “testemunha ocular” das atrocidades cometidas pelo assassino profissional Anton Chigurgh, em sua caçada empreendida ao cowboy Llewelyn Moss (Josh Brolin, outra grande atuação). Este teve a sorte – ou o azar – de encontrar uma maleta recheada de dólares perdida em meio ao cenário de uma chacina, e logo entrou na mira de Chigurgh. Cabe a Bell empreender uma investigação que possa ajudar Moss e a esposa a saírem com vida desta enrascada.

O problema é que os Coen não fazem concessão a um final feliz nem tentam fornecer um moral à história. Como bem diz Chigurgh para Moss, “eles sabem como aquilo irá acabar”, e diante daquela perseguição à lá gato e rato, fica claro que o desfecho não podia ser dos melhores. Embora não possua um clímax definido, Onde os fracos não têm vez funciona de forma soberba como faroeste, alternando momentos de pura tensão com reflexões sobre o caráter dos personagens. E o “velho oeste”, agora modernizado, é o cenário perfeito para uma história onde as boas ações são mal recompensadas.

Vivido por um inspiradíssimo Javier Barden, a maior barbada do Oscar deste ano, Chigurgh revela-se um sujeito frio e meticuloso, que jamais desiste ou perde o foco. Sua insanidade fica evidente logo em sua primeira aparição, quando vemos a face da loucura enquanto ele dá cabo de um guarda. O penteado tigelinha, o semblante frio e a obsessão pelo acaso de um cara ou coroa parecem saídos das páginas de um gibi, não fosse a evidente semelhança com os cada vez mais numerosos adolescentes assassinos da terra do Tio Sam.

Chigurgh se torna uma incógnita para a tese apresentada por Bell sobre os dias atuais. “O que leva um homem a agir desta maneira?”. Os Coen não oferecem a resposta, em um final que claramente irá decepcionar muita gente. Mas ao menos uma certeza nos resta quando a sessão acaba: os bons tempos ficaram para trás.


Josh Brolin precisa sobreviver à implacável caçada de Chigurgh

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Cinema

Na trave


Uma dupla cativante luta para sobreviver; o filme só precisava deles

Após contar um personagem maravilhoso em sua estréia como diretor, em Constantine, Francis Lawrence foi mais uma vez abençoado com um excelente protagonista para contar uma história, e desta vez com o adicional de poder contar com o maior astro da atualidade para o interpretar. Em Eu sou a lenda, Will Smith precisa apenas da primeira seqüência para fazer seu Robert Neville cair no gosto do público, sendo o pilar que sustenta um filme que tinha tudo para ser uma obra-prima, mas acaba frustrando a expectativa por conta de decisões pouco acertadas no desenrolar da trama.

Neville é, aparentemente, o último sobrevivente humano de um vírus que deu cabo de mais de noventa por cento da população, tendo transformado outra boa parte em aberrações, formando um misto entre vampiros e zumbis. Estes, por sua vez, devoraram praticamente todos aqueles imunes à praga. Isto deixa Neville – ou melhor, Will Smith – com uma deserta Nova York inteiramente sua para brincar. O cenário de gigantescas avenidas, completamente desertas, é perfeito para perseguir cervos fugidos do zoológico a bordo de um carrão esportivo. Uma cena que parece egressa de um game dos consoles da nova geração. Ver a maior metrópole do mundo entregue a um só homem dá a exata dimensão do drama vivido pelo protagonista, mesmo em uma cena carregada da mais pura adrenalina.

E é aí que Eu sou a lenda revela sua faceta mais interessante. Trata-se de um filme sobre a solidão e sobre como ela pode afetar nossa percepção e atitudes. A excepcionalidade da situação proporciona que Smith construa um personagem muito mais atormentado do que aquele vivido por Tom Hanks em O náufrago, outro exemplo de filme de “um homem só”. Se Hanks teve de recorrer a uma bola de vôlei para exteriorizar seus sentimentos, Smith tem a sua disposição a adorável cadela Sam, além de uma vasta gama de manequins e filmes. São eles que sustentam a sanidade de Neville, que precisa dela porque se auto-impôs a missão de encontrar uma cura, projeto em que estava envolvido antes mesmo da pandemia.


Tudo caminhava bem até a aparição dos monstros digitais

O diretor também sabe construir um clima de suspense sobre os monstros enfrentados por Neville. Notívagos, os bichos ficam sempre às escuras, criando seqüências de deixar o cabelo em pé apenas com vultos e sons estranhos. E quão grande é a decepção do espectador quando eles finalmente dão as caras. Com um visual propositalmente digitalizado, capaz de atrair a atenção da molecada sem elevar a classificação indicativa do filme, as criaturas contrastam demais com o restante da produção, que até agora obtinha sucesso com um drama intimista sobre a dificuldade de viver só. Para piorar, a montagem do filme acaba enfraquecendo o recurso do flashback, onde Neuville é visto com a família na tentativa de deixar a cidade antes que esta fosse isolada do restante do mundo. O que serviria perfeitamente como introdução acontece muito perto do clímax, quando o desenrolar dos fatos já não interessam ao espectador. E isso apenas para justificar uma reviravolta forçadíssima no final, ao maior estilo M. Night Shyamalan.

Alice Braga é outra que sofre nas mãos dos roteiristas. A brasileira vive Anna, personagem que aparece no final da história apenas para dizer que Neville não está só, e que Deus tem outros planos pra ele – sim, ela diz isso! Pior é constatar que a equipe não encontrou forma de estabelecer uma conexão entre os dois, apelando para um diálogo musical, onde Anna, pasmem, não conhece o trabalho de Bob Marley! Uma confissão em película de que a equipe não sabia como conduzir a história a partir daquele ponto.

Pena, já que Eu sou a lenda tinha tudo para figurar entre os melhores filmes do ano: ótimas seqüências de ação, fotografia e direção de artes impecáveis, um protagonista pra lá de dedicado e um diretor talentoso, mas que infelizmente ainda não possui voz para peitar executivos ávidos por alguns milhões de dólares a mais.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Cinema

Estilo inglês


Será que alguém consegue tirar a estatueta de Desejo e reparação?

Ninguém deve estar torcendo mais pelo final da greve dos roteiristas norte-americanos que o diretor inglês Joe Wright. Seu mais novo longa, Desejo e reparação, foi premiado com o Globo de Ouro na categoria de melhor filme de drama e, graças à paralisação, Wright não pode desfrutar do glamour de exibir o troféu para milhões de espectadores planeta afora. Como Desejo e reparação segue como um dos favoritos para abocanhar o Oscar de melhor filme deste ano, o diretor deve estar aflito com a possibilidade de ver a maior conquista de sua carreira passar batida aos olhos do público.

E com razão. Desejo e reparação mostra que o estilo de direção que atraiu o olhar da crítica especializada em Orgulho e preconceito está mais maduro e competente. Wright confere ritmo singular ao novo projeto, onde praticamente todas as seqüências vão aos poucos formando um quebra-cabeças que só tem o conteúdo real revelado ao ficar completo. No princípio, o estilo pode causar estranheza ou mesmo desagradar os desavisados, mas o desenrolar da trama conduz o espectador por caminhos improváveis, surpreendendo a cada flashback ou avanço cronológico que explicam a natureza dos acontecimentos.

Em uma Inglaterra prestes a entrar na Segunda Guerra, a jovem Briony demonstra notável talento para a escrita. Inconformada com a paixão da irmã mais velha Cecília (Keira Knightley) pelo filho da governanta Robbie (James McAvoy), a aspirante à dramaturga intervém no romance, acusando o rapaz de um crime que não cometeu. Tal atitude, juntamente com o desenrolar da guerra, irão mudar completamente a relação destes personagens, exceto pela paixão do casal protagonista (ou seria Briony o verdadeiro destaque?) que não diminui. As motivações e o desencadeamento dos fatos são mostrados por meio de uma montagem inteligente e sensível, o grande destaque do filme. Também é preciso ficar atento às pequenas metáforas visuais projeção, como na cena em que Briony tenta desesperadamente lavar as mãos e à excelente trilha sonora, que mistura sons do ambiente a temas clássicos, compondo a sinfonia ideal para embalar as lembranças de Briony.


Reflita após o término da projeção: houve um final feliz?

E é justamente em seu segmento bélico que o longa perde um pouco a força. Mostrado antes de conhecermos alguns detalhes da trama, esta fase parece destoar do restante da história, principalmente em um elaborado plano-seqüência que mostra a retirada das tropas inglesas de Dunquerque, na França. Apesar de belíssima, a grandiosidade da cena é irrelevante para o desenrolar da história, um verdadeiro exercício alto-indulgente de virtuosismo, que parece ter sido inserido para atestar eventuais estatuetas de melhor fotografia e direção. Apesar desviar a atenção do ponto forte da produção – sua excelente história – o plot não chega a comprometer o resultado final.

Caso vença a disputa pela estatueta, Desejo e reparação comprovará a força da retomada do cinema inglês nos últimos anos. É bom Hollywood tomar cuidado: caso a greve continue por muito tempo, os americanos já possuem uma ótima alternativa para continuarem assistindo filmes em sua língua natal.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Cinema

Guerra de sexo


Verhoeven segue a risca sua receita de mesclar sexo e violência

Paul Verhoeven é um pervertido, na acepção mais elogiosa que a palavra pode receber. Seu fascínio por violência e sexo nos garantiu pérolas como O vingador do futuro, Tropas estelares e Instinto selvagem, todas repletas de sangue e libido, sempre com muito impacto visual e sem papas na língua. O estilo inconfundível também moldou os controversos O homem sem sombra e Showgirls, sendo que o último, mesmo sendo defenestrado constantemente em relações de filmes ruins, ainda conseguiu atrair um séqüito de fãs fervorosos, tudo graças ao trato que o diretor possui com cenas pra lá de “picantes”.

A espiã, sua mais nova empreitada, felizmente fica mais próxima do primeiro grupo. A produção marca o retorno de Verhoeven à sua Holanda natal e à temática da Segunda Guerra, retratada no clássico Soldado de laranja. A violência faz-se presente, é claro, mas o tom estilizado que nos acostumamos a ver nas obras do cineasta dá lugar a uma abordagem mais realista das barbáries cometidas por Nazistas e Aliados, um esforço claro para permanecer neutro, longe do maniqueísmo que costuma rondar produções desse tipo, potencializado por um roteiro que constantemente força a protagonista a rever conceitos e analisar o caráter dos companheiros.

Ellis, vivida magistralmente por Carice van Houten (já terei visto a melhor interpretação de 2008!?) é uma judia que luta para escapar da perseguição alemã na Holanda de 1944. Em uma fuga mal sucedida, ela testemunha a execução brutal de diversos judeus, entre eles, sua família. A dor da perda alimenta um revanchismo que faz a moça juntar forças à resistência holandesa. Eles propõem que ela se aproxime de um comandante alemão que demonstrou claro interesse pela bela figura de Ellis disfarçada como ariana legítima. O problema é que o oficial em questão pode não ser o real inimigo, o que obrigará nossa heroína a redobrar o cuidado em todas as frentes
.


Carice van Houten é o grande achado da produção

Se Verhoeven puxou um pouco o freio na violência para soar mais realista, no campo do sexo ele engata a sétima marcha. A espiã está longe de ser uma “pornochanchada” como Showgirls, mas depende em demasia da sexualidade para o desenvolvimento da trama. Ellis está disposta a tudo pela missão, o que fica claro na seqüência em que ela tinge os pêlos pubianos para disfarçar sua origem racial, mostrando que dormir com o inimigo é um sacrifício calculado.

Verhoeven consegue imprimir um ritmo instigante à trama e suas incontáveis reviravoltas, mas não atinge a perfeição de outrora por conta de certos deslizes narrativos, em especial o envolvimento afetivo de Ellis com seu espionado, que soa forçado por dar-se de maneira abrupta e, até certo ponto, inexplicável. O diretor pode argumentar que é impossível explicar a natureza de uma paixão e suas nuances. No amor, na guerra e também no cinema de Verhoeven, vale tudo.

Mas estes são apenas alguns pormenores que não tiram o brilho do retorno de um dos cineastas mais marcantes da virada dos anos oitenta para os noventa. Verhoeven prepara-se agora para voltar a Hollywood, no comando da superprodução Thomas Crown 2. Ele pode voltar sem o prestígio dos tempos áureos, mas traz na bagagem uma produção que atesta sua competência em fazer cinema de qualidade.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Cinema

Melhores de 2007

Um novo ano começa e, naturalmente, muitas novidades dominarão os doze meses que teremos pela frente. Mas durante os primeiros dias é sempre muito difícil escapar daquele sentimento saudosista em relação ao ano que foi embora. Por isso mesmo, o alvorecer de um novo ano é momento propício para fazer um balanço dos prós e contras do anterior. E aí pipocam listas de melhores e piores do ano em tudo quanto é lugar.

O Script! não fica de fora dessa mania, apresentando sua relação de melhores do ano no cinema em 2007. Apesar de não serem a coisa mais original do mundo, as listas geralmente servem como ótimos guias para quem passou batido por alguns lançamentos e quer usar a energia do começo do ano para recuperar o tempo perdido. Mãos à obra e feliz 2008!!!

Os dez melhores filmes de 2008 segundo o Script!
Dois mil e sete apresenta uma ligeira queda de qualidade quando comparado ao seu antecessor. Mesmo assim tivemos chance de conferir muita coisa boa:

10º lugar – O ultimato Bourne (Paul Greengrass)
Inteligência e ação cabem sim no mesmo filme. Pelo menos na trilogia do Jason Bourne vivido por Matt Damon, que ganhou um apoteótico capítulo final nas mãos do diretor Paul Greengrass. O cara soube misturar suspense, ação e o drama de um homem que é apresentado ao seu passado sem perder o rumo da narrativa, mesmo filmando em dezenas de locações espalhadas mundo afora.

9º lugar – Zodíaco (David Fincher)
David Fincher abdicou de suas famosas experimentações técnicas para deixar o terreno livre para o elenco brilhar neste thriller às avessas. O longa – baseado em uma história real – não se preocupa em apontar um culpado para crimes que nem a polícia conseguiu solucionar. Os ataques em si também não são o destaque. Fincher preferiu colocar o foco na obsessão dos envolvidos em resolver o caso e nas falhas de comunicação que permitiram ao assassino ficar impune. Destaque para a soberba atuação de Robert Downey Jr.

8º lugar – Borat (Sacha Baron Coen)
O maior fenômeno do ano que passou deve todo o seu sucesso ao impressionante desempenho do humorista Sacha Baron Coen, que não precisou de um orçamento turbinado para alcançar o sucesso. Para Coen, bastaram talento, coragem e a originalidade do formato escolhido – um falso documentário feito por um repórter do Cazaquistão – e zoar com os preconceitos do povo norte-americano. Graças à divulgação maciça na Internet, Borat fez rios de dinheiro para a Fox, alçou Coen ao estrelato, fez aumentar o turismo no Cazaquistão e provou que ainda existe vida inteligente nas comédias cinematográficas norte-americanas.

7º lugar – O hospedeiro (Bong John-Hoo)
De uns anos pra cá a Coréia despontou como potência cinematográfica, lotando as programações de diversos festivais. Mas se sobravam obras autorais, ainda faltava um legítimo blockbuster na filmografia do país, um filme capaz de chamar a atenção do grande público. O hospedeiro preenche este espaço, sem dever nada aos concorrentes americanos, com a ligeira vantagem de soar original. O legítimo “filme de monstro” de Bong John-Hoo se sai bem como drama familiar, comédia ou como crítica à política americana e seus métodos alheios à destruição do meio ambiente.

6º lugar – O despertar de uma paixão (John Curran)
Edward Norton e Naomi Watts estão entre os atores que melhor selecionam seus projetos em Hollywood. Logo, uma produção que reunisse ambos dificilmente escaparia do rótulo de filmaço. A refilmagem do clássico O véu pintado é exatamente isso, um ótimo filme ancorado em excelentes interpretações da dupla protagonista, na direção segura de John Curran e na belíssima fotografia de Stuart Dryburgh, uma equipe capaz de retratar a transição da milenar tradição chinesa para a modernidade por meio de um conturbado casamento arranjado.

5º lugar – Tropa de elite (José Padilha)
Tropa de elite
pode não ter superado a bilheteria de Dois filhos de Francisco, mas certamente atingiu um público muito maior. É difícil precisar até que ponto a pirataria descontrolada atrapalhou a arrecadação ou ajudou na divulgação do filme. O certo é que ainda vai levar tempo para que o povo esqueça os bordões do Capitão Nascimento, interpretado magistralmente por Wagner Moura.

4º lugar – O homem duplo (Richard Linklater)
Philip K. Dick é um dos escritores mais adaptados para o cinema, e geralmente com produções bem acima da média. Mas a obra mais pessoal de Dick só ganha anos após a morte do escritor. Uma pena, pois certamente ele aprovaria a viagem lisérgica proporcionada pelo diretor Richard Linklater e sua técnica de rotoscopia digital, que deixa tudo com cara de animação. O elenco estelar também se destaca, apesar das feições estilizadas. Keanu Revees compensa a falta de talento para atuar com a escolha de um ótimo papel – de novo! Tem bom gosto o rapaz!

3º lugar – Maria Antonieta (Sofia Coppola)
As vaias em Cannes fizeram Sofia Coppola chorar, mas a alegria deve ter retornado logo, quando o mundo percebeu que os franceses estavam muito mais descontentes em ver uma Maria Antonieta bem retratada do que com a qualidade do filme em si. Mais uma vez a diretora nos brinda com seu vigoroso frescor narrativo, que a coloca facilmente na ilustre posição de cineasta mais moderna da atualidade. O Oscar de figurino serviu como alento para as injustas vaias, mas não fossem estas, certamente Maria Antonieta teria abocanhado algo maior.

2º lugar – O cheiro do ralo (Heitor Dhalia)
A febre de adaptações de quadrinhos chegou ao Brasil e escolheu justo uma obra de Lourenço Mutarelli, um de nossos quadrinhistas mais amalucados, para dar o pontapé inicial. Tudo bem que O Cheiro do ralo foi adaptado de um livro e não de uma HQ propriamente dita, mas carrega em seu texto genial muito da leveza e agilidade narrativa da mídia na qual Mutarelli começou a carreira. Acompanhado do diretor Heitor Dhalia e do astro Selton Mello (soberbo!) Mutarelli encontra o terreno ideal para destilar seu humor negro na história de um sujeito antipático que apaixona-se por uma bunda.

1º LUGAR – Ratatoille (Brad Bird)
O talento de Brad Bird para contar uma história parece sobrenatural. Em todos os seus projetos ele mostrou que a animação não deve ser vista como gênero, e sim como ferramenta para a produção de um filme. O diretor não enxerga diferenças entre o desenvolvimento de um desenho animado para o de um filme tradicional. Talvez por isso seus personagens sejam tão cheios de vida e personalidade. Não fossem o preconceito e a restrição da academia, Ratatoille poderia concorrer em diversas categorias do Oscar, desde prêmios para as interpretações, até os de melhor montagem ou fotografia. Não vai acontecer, e talvez Ratatoille nem consiga a estatueta de animação, já que a obra-prima Persépolis estreou em circuito restrito nos Estados Unidos. Como se trata de uma animação de viés político, ela tem boas chances de desbancar o melhor filme de 2008 na premiação.

Melhor ator – Wagner Moura (Tropa de elite)
Uma barbada. Tudo bem que Selton Mello está fenomenal em O cheiro do ralo, que Robert Downey Jr. roubou a cena em Zodíaco e O homem duplo, mas Wagner Moura tornou-se a personificação do policial do Bope. A instituição provavelmente terá sua imagem vinculada aos arroubos de violência do Capitão Nascimento durante muitos anos. Wagner Moura é, sem dúvida, o maior responsável pela sociedade brasileira ter finalmente discutido qual é o perfil ideal para nossa polícia. Uma conquista maior do que qualquer prêmio.

Melhor Atriz – Naomi Watts (O despertar de uma paixão)
Dois mil e sete foi um ano marcado por fortes personagens masculinos, mas foram poucas as mulheres que tiveram papéis de destaque na telona. Destas, Naomi Watts provou mais uma vez ser um dos maiores talentos de sua geração, na pele de Kitty, uma mulher que é obrigada a casar com quem não ama, passa a trair o marido, e por meio da situação mais improvável, apaixona-se perdidamente por ele. Watts cria sua personagem com elegância e sutileza, como pedem os filmes de época, mostrando que não é preciso “histrionismos” para conseguir se destacar.

Melhor diretor – Brad Bird (Ratatoille)
É triste constatar que Bird só estará no panteão dos grandes diretores se um dia passar a dirigir filmes com atores reais. O preconceito contra animações já foi manifestado até pela academia, que criou uma categoria à parte para o formato, como se não fosse possível que desenhos competissem com filmes convencionais. Mas isso não é problema para Bird. Apesar do diretor já ter manifestado vontade de dirigir um filme “live action”, ele continua apaixonado pela animação, e não admite interferências de estúdios que queiram tornar seus longas menos “inteligentes” e mais atrativos ao público infantil.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Cinema

É um desenho?

A lenda de Beowulf inova no campo da animação para adultos

Desde de quando vi o primeiro trailer de A lenda de Beowulf, um sentimento de desconfiança pairou sobre minha cabeça. O longa, dirigido por Robert Zemeckis, utilizaria a mesma técnica de captura de performance dos atores vista no controverso O expresso polar, do mesmo Zemeckis, famoso por ter sido o primeiro longa realizado dessa maneira. O expresso polar também ficou marcado como um filme extremamente chato, com um visual que, embora chamasse atenção, exalava artificialidade.

Por outro lado, o roteiro de A lenda de Beowulf levaria as assinaturas da dupla Roger Avary e Neil Gaiman. O primeiro é conhecido pela colaboração com Quentin Tarantino no soberbo texto de Pulp Fiction; o segundo é um famoso escritor de quadrinhos – responsável pela série Sandman – e dono de alguns best-sellers no campo da literatura fantástica. Ambos enchiam o projeto de credibilidade.

Durante o longa é fácil perceber o quanto eles foram importantes para o saldo positivo apresentado nos 113 minutos de projeção. Zemeckis já havia provado ser um diretor talentoso na trilogia De volta para o futuro. Seu A lenda de Beowulf deixa claro que tudo que ele precisa é de um texto com qualidade para emplacar uma boa aventura. Se bem que estar de posse dos avanços tecnológicos proporcionados pelos três anos que separam O expresso polar do novo projeto ajuda muito no resultado final. A lenda de Beowulf é um épico cheio de magia, como há muito não se via nas telonas, em boa parte devido ao visual único, capaz de gerar combates empolgantes com bestas marinhas, dragões e ogros gigantescos a um custo acessível, algo impensável caso o filme seguisse o processo tradicional. Em alguns momentos até nos esquecemos que estamos assistindo a uma animação (seria este o melhor rótulo para o projeto?) e poucas vezes nos deparamos com os rostos artificiais que permeiam O expresso polar.

A história é baseada em um famoso poema épico, considerado o mais antigo registro em língua inglesa, que narra os feitos de Beowulf, famoso matador de monstros que se torna rei após aceitar uma proposta do único adversário que não podia derrotar.

As interpretações de feras do gabarito de Anthony Hopkins, John Malkovitch e da belíssima Angelina Jolie consolidam a força do projeto. Todos tiveram seus movimentos e feições capturados pelo computador, sendo impossível não reconhecer seus traços nos personagens, tamanha a perfeição do processo. Chega a ser irônico que apenas o protagonista, vivido por Ray Winstone, em pouco se pareça com seu intérprete na vida real. Fica difícil enxergar o gordinho Winstone dentro da pilha de músculos que compõem o jovem herói Beowulf. Os produtores até poderiam ter optado por outro nome, mas a imagem de bardo falastrão de Winstone o torna perfeito para o papel. Ele ainda serve como prova de que a tecnologia pode abrir novas portas para atores estigmatizados para certos papéis e personagens. Imaginem o franzino Steve Busceni ou então Woddy Allen na pele de um poderoso guerreiro medieval ao maior Arnold Schwarzenegger!

Winstone gostou da brincadeira. O visual saradíssimo conseguiu empolgar até mesmo sua esposa. Já Angelina Jolie confessou ter ficado um tanto “tímida” ao se ver nua no projeto que julgava apropriado para seus filhos pequenos. Não que a senhora Pitt tenha reprovado o que viu. O problema é que o resultado ficou muito próximo da realidade. Quem diria que um dia Angelina Jolie ficaria constrangida em expor sua intimidade em uma animação...



A parafernália responsável pela técnica caiu bem em Angelina Jolie

sábado, dezembro 29, 2007

Cinema

Filme de arte


Não se deixe enganar pelo título: Goya não é o centro das atenções...

Não foram poucos os críticos que classificaram Sombras de Goya como uma nova incursão do diretor Milos Forman no rico universo criativo que move o trabalho de grandes artistas – no caso, o pintor Francisco Goya. A leitura destes – incorreta, é bom frisar – foi motivada por um insensato esforço em traçar um paralelo com um dos grandes clássicos do diretor, Amadeus, que apresenta os rompantes criativos de Wolfgang Amadeus Mozart.

O fato é que a narrativa de Sombras de Goya sequer gira em torno do pintor espanhol, e quando o faz, perde um pouco de força. Em seu novo longa, Milos Forman usa a obra de Goya como pano de fundo para tecer um interessante retrato dos jogos de poder praticados entre clero, monarquia e revolucionários republicanos entre o final do século XVIII e início do XIX, com a constatação de que pouco importa quem está no poder, o povo sempre acaba perdendo.

Inês (Natalie Portman) é uma das musas inspiradoras do trabalho de Goya (Stellan Skarsgärd). O rosto dela aparece em diversas obras do pintor espanhol, o que chama a atenção do clero, que andava descontente com a perda de poder para a monarquia e não via com bons olhos parte da produção artística do pintor. Após reabrir os porões da Inquisição, Padre Lorenzo (Javier Barden) consegue um pretexto para condenar a bela Inês às torturas impostas pela contra-reforma. Submetida às piores provações, Inês sucumbe à dor e confessa atos que não cometeu.

Goya, homem influente junto à monarquia e com contatos no clero, tenta interceder pela família de Inês, que deseja a libertação imediata da moça. Em vão. Inês fica presa durante quinze anos e sai da cadeia durante a invasão de tropas francesas. Tomada em parte pela loucura, ela nem consegue perceber o novo cenário político que emerge no país, dominado pelas forças de Napoleão. Republicanos chegam até a Espanha prometendo as melhorias da democracia e a libertação da opressão religiosa. Promessas que, por ironia do destino, são disseminadas pela mais improvável das figuras. É aí que uma nova incursão estrangeira chega ao país, e com ela, uma nova inversão de papéis acontece.


Javier Barden rouba a cena na pele do soturno Padre Lorenzo

O filme não representa uma crítica direta aos atos da Inquisição. Tampouco àqueles cometidos pelos invasores franceses ou pelos ingleses que os sucederam. Forman não faz distinção entre os lados e mostra que, apesar de rotularem-se como diametralmente opostos, seus métodos são extremamente parecidos.

Vale destacar a ótima interpretação de Javier Barden na pele do padre Lorenzo e a beleza e sensibilidade de Natalie Portman como Inês e, posteriormente, no papel de sua filha adolescente. Mas a grande força de Sombras de Goya reside na mão firme de Milos Forman. Aos 75 anos, o diretor mostra que, apesar de não ostentar o respeito que merece após uma carreira marcante, continua apaixonado pelo cinema e sua riqueza narrativa.