terça-feira, janeiro 29, 2008

Cinema

Guerra de sexo


Verhoeven segue a risca sua receita de mesclar sexo e violência

Paul Verhoeven é um pervertido, na acepção mais elogiosa que a palavra pode receber. Seu fascínio por violência e sexo nos garantiu pérolas como O vingador do futuro, Tropas estelares e Instinto selvagem, todas repletas de sangue e libido, sempre com muito impacto visual e sem papas na língua. O estilo inconfundível também moldou os controversos O homem sem sombra e Showgirls, sendo que o último, mesmo sendo defenestrado constantemente em relações de filmes ruins, ainda conseguiu atrair um séqüito de fãs fervorosos, tudo graças ao trato que o diretor possui com cenas pra lá de “picantes”.

A espiã, sua mais nova empreitada, felizmente fica mais próxima do primeiro grupo. A produção marca o retorno de Verhoeven à sua Holanda natal e à temática da Segunda Guerra, retratada no clássico Soldado de laranja. A violência faz-se presente, é claro, mas o tom estilizado que nos acostumamos a ver nas obras do cineasta dá lugar a uma abordagem mais realista das barbáries cometidas por Nazistas e Aliados, um esforço claro para permanecer neutro, longe do maniqueísmo que costuma rondar produções desse tipo, potencializado por um roteiro que constantemente força a protagonista a rever conceitos e analisar o caráter dos companheiros.

Ellis, vivida magistralmente por Carice van Houten (já terei visto a melhor interpretação de 2008!?) é uma judia que luta para escapar da perseguição alemã na Holanda de 1944. Em uma fuga mal sucedida, ela testemunha a execução brutal de diversos judeus, entre eles, sua família. A dor da perda alimenta um revanchismo que faz a moça juntar forças à resistência holandesa. Eles propõem que ela se aproxime de um comandante alemão que demonstrou claro interesse pela bela figura de Ellis disfarçada como ariana legítima. O problema é que o oficial em questão pode não ser o real inimigo, o que obrigará nossa heroína a redobrar o cuidado em todas as frentes
.


Carice van Houten é o grande achado da produção

Se Verhoeven puxou um pouco o freio na violência para soar mais realista, no campo do sexo ele engata a sétima marcha. A espiã está longe de ser uma “pornochanchada” como Showgirls, mas depende em demasia da sexualidade para o desenvolvimento da trama. Ellis está disposta a tudo pela missão, o que fica claro na seqüência em que ela tinge os pêlos pubianos para disfarçar sua origem racial, mostrando que dormir com o inimigo é um sacrifício calculado.

Verhoeven consegue imprimir um ritmo instigante à trama e suas incontáveis reviravoltas, mas não atinge a perfeição de outrora por conta de certos deslizes narrativos, em especial o envolvimento afetivo de Ellis com seu espionado, que soa forçado por dar-se de maneira abrupta e, até certo ponto, inexplicável. O diretor pode argumentar que é impossível explicar a natureza de uma paixão e suas nuances. No amor, na guerra e também no cinema de Verhoeven, vale tudo.

Mas estes são apenas alguns pormenores que não tiram o brilho do retorno de um dos cineastas mais marcantes da virada dos anos oitenta para os noventa. Verhoeven prepara-se agora para voltar a Hollywood, no comando da superprodução Thomas Crown 2. Ele pode voltar sem o prestígio dos tempos áureos, mas traz na bagagem uma produção que atesta sua competência em fazer cinema de qualidade.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Cinema

Melhores de 2007

Um novo ano começa e, naturalmente, muitas novidades dominarão os doze meses que teremos pela frente. Mas durante os primeiros dias é sempre muito difícil escapar daquele sentimento saudosista em relação ao ano que foi embora. Por isso mesmo, o alvorecer de um novo ano é momento propício para fazer um balanço dos prós e contras do anterior. E aí pipocam listas de melhores e piores do ano em tudo quanto é lugar.

O Script! não fica de fora dessa mania, apresentando sua relação de melhores do ano no cinema em 2007. Apesar de não serem a coisa mais original do mundo, as listas geralmente servem como ótimos guias para quem passou batido por alguns lançamentos e quer usar a energia do começo do ano para recuperar o tempo perdido. Mãos à obra e feliz 2008!!!

Os dez melhores filmes de 2008 segundo o Script!
Dois mil e sete apresenta uma ligeira queda de qualidade quando comparado ao seu antecessor. Mesmo assim tivemos chance de conferir muita coisa boa:

10º lugar – O ultimato Bourne (Paul Greengrass)
Inteligência e ação cabem sim no mesmo filme. Pelo menos na trilogia do Jason Bourne vivido por Matt Damon, que ganhou um apoteótico capítulo final nas mãos do diretor Paul Greengrass. O cara soube misturar suspense, ação e o drama de um homem que é apresentado ao seu passado sem perder o rumo da narrativa, mesmo filmando em dezenas de locações espalhadas mundo afora.

9º lugar – Zodíaco (David Fincher)
David Fincher abdicou de suas famosas experimentações técnicas para deixar o terreno livre para o elenco brilhar neste thriller às avessas. O longa – baseado em uma história real – não se preocupa em apontar um culpado para crimes que nem a polícia conseguiu solucionar. Os ataques em si também não são o destaque. Fincher preferiu colocar o foco na obsessão dos envolvidos em resolver o caso e nas falhas de comunicação que permitiram ao assassino ficar impune. Destaque para a soberba atuação de Robert Downey Jr.

8º lugar – Borat (Sacha Baron Coen)
O maior fenômeno do ano que passou deve todo o seu sucesso ao impressionante desempenho do humorista Sacha Baron Coen, que não precisou de um orçamento turbinado para alcançar o sucesso. Para Coen, bastaram talento, coragem e a originalidade do formato escolhido – um falso documentário feito por um repórter do Cazaquistão – e zoar com os preconceitos do povo norte-americano. Graças à divulgação maciça na Internet, Borat fez rios de dinheiro para a Fox, alçou Coen ao estrelato, fez aumentar o turismo no Cazaquistão e provou que ainda existe vida inteligente nas comédias cinematográficas norte-americanas.

7º lugar – O hospedeiro (Bong John-Hoo)
De uns anos pra cá a Coréia despontou como potência cinematográfica, lotando as programações de diversos festivais. Mas se sobravam obras autorais, ainda faltava um legítimo blockbuster na filmografia do país, um filme capaz de chamar a atenção do grande público. O hospedeiro preenche este espaço, sem dever nada aos concorrentes americanos, com a ligeira vantagem de soar original. O legítimo “filme de monstro” de Bong John-Hoo se sai bem como drama familiar, comédia ou como crítica à política americana e seus métodos alheios à destruição do meio ambiente.

6º lugar – O despertar de uma paixão (John Curran)
Edward Norton e Naomi Watts estão entre os atores que melhor selecionam seus projetos em Hollywood. Logo, uma produção que reunisse ambos dificilmente escaparia do rótulo de filmaço. A refilmagem do clássico O véu pintado é exatamente isso, um ótimo filme ancorado em excelentes interpretações da dupla protagonista, na direção segura de John Curran e na belíssima fotografia de Stuart Dryburgh, uma equipe capaz de retratar a transição da milenar tradição chinesa para a modernidade por meio de um conturbado casamento arranjado.

5º lugar – Tropa de elite (José Padilha)
Tropa de elite
pode não ter superado a bilheteria de Dois filhos de Francisco, mas certamente atingiu um público muito maior. É difícil precisar até que ponto a pirataria descontrolada atrapalhou a arrecadação ou ajudou na divulgação do filme. O certo é que ainda vai levar tempo para que o povo esqueça os bordões do Capitão Nascimento, interpretado magistralmente por Wagner Moura.

4º lugar – O homem duplo (Richard Linklater)
Philip K. Dick é um dos escritores mais adaptados para o cinema, e geralmente com produções bem acima da média. Mas a obra mais pessoal de Dick só ganha anos após a morte do escritor. Uma pena, pois certamente ele aprovaria a viagem lisérgica proporcionada pelo diretor Richard Linklater e sua técnica de rotoscopia digital, que deixa tudo com cara de animação. O elenco estelar também se destaca, apesar das feições estilizadas. Keanu Revees compensa a falta de talento para atuar com a escolha de um ótimo papel – de novo! Tem bom gosto o rapaz!

3º lugar – Maria Antonieta (Sofia Coppola)
As vaias em Cannes fizeram Sofia Coppola chorar, mas a alegria deve ter retornado logo, quando o mundo percebeu que os franceses estavam muito mais descontentes em ver uma Maria Antonieta bem retratada do que com a qualidade do filme em si. Mais uma vez a diretora nos brinda com seu vigoroso frescor narrativo, que a coloca facilmente na ilustre posição de cineasta mais moderna da atualidade. O Oscar de figurino serviu como alento para as injustas vaias, mas não fossem estas, certamente Maria Antonieta teria abocanhado algo maior.

2º lugar – O cheiro do ralo (Heitor Dhalia)
A febre de adaptações de quadrinhos chegou ao Brasil e escolheu justo uma obra de Lourenço Mutarelli, um de nossos quadrinhistas mais amalucados, para dar o pontapé inicial. Tudo bem que O Cheiro do ralo foi adaptado de um livro e não de uma HQ propriamente dita, mas carrega em seu texto genial muito da leveza e agilidade narrativa da mídia na qual Mutarelli começou a carreira. Acompanhado do diretor Heitor Dhalia e do astro Selton Mello (soberbo!) Mutarelli encontra o terreno ideal para destilar seu humor negro na história de um sujeito antipático que apaixona-se por uma bunda.

1º LUGAR – Ratatoille (Brad Bird)
O talento de Brad Bird para contar uma história parece sobrenatural. Em todos os seus projetos ele mostrou que a animação não deve ser vista como gênero, e sim como ferramenta para a produção de um filme. O diretor não enxerga diferenças entre o desenvolvimento de um desenho animado para o de um filme tradicional. Talvez por isso seus personagens sejam tão cheios de vida e personalidade. Não fossem o preconceito e a restrição da academia, Ratatoille poderia concorrer em diversas categorias do Oscar, desde prêmios para as interpretações, até os de melhor montagem ou fotografia. Não vai acontecer, e talvez Ratatoille nem consiga a estatueta de animação, já que a obra-prima Persépolis estreou em circuito restrito nos Estados Unidos. Como se trata de uma animação de viés político, ela tem boas chances de desbancar o melhor filme de 2008 na premiação.

Melhor ator – Wagner Moura (Tropa de elite)
Uma barbada. Tudo bem que Selton Mello está fenomenal em O cheiro do ralo, que Robert Downey Jr. roubou a cena em Zodíaco e O homem duplo, mas Wagner Moura tornou-se a personificação do policial do Bope. A instituição provavelmente terá sua imagem vinculada aos arroubos de violência do Capitão Nascimento durante muitos anos. Wagner Moura é, sem dúvida, o maior responsável pela sociedade brasileira ter finalmente discutido qual é o perfil ideal para nossa polícia. Uma conquista maior do que qualquer prêmio.

Melhor Atriz – Naomi Watts (O despertar de uma paixão)
Dois mil e sete foi um ano marcado por fortes personagens masculinos, mas foram poucas as mulheres que tiveram papéis de destaque na telona. Destas, Naomi Watts provou mais uma vez ser um dos maiores talentos de sua geração, na pele de Kitty, uma mulher que é obrigada a casar com quem não ama, passa a trair o marido, e por meio da situação mais improvável, apaixona-se perdidamente por ele. Watts cria sua personagem com elegância e sutileza, como pedem os filmes de época, mostrando que não é preciso “histrionismos” para conseguir se destacar.

Melhor diretor – Brad Bird (Ratatoille)
É triste constatar que Bird só estará no panteão dos grandes diretores se um dia passar a dirigir filmes com atores reais. O preconceito contra animações já foi manifestado até pela academia, que criou uma categoria à parte para o formato, como se não fosse possível que desenhos competissem com filmes convencionais. Mas isso não é problema para Bird. Apesar do diretor já ter manifestado vontade de dirigir um filme “live action”, ele continua apaixonado pela animação, e não admite interferências de estúdios que queiram tornar seus longas menos “inteligentes” e mais atrativos ao público infantil.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Cinema

É um desenho?

A lenda de Beowulf inova no campo da animação para adultos

Desde de quando vi o primeiro trailer de A lenda de Beowulf, um sentimento de desconfiança pairou sobre minha cabeça. O longa, dirigido por Robert Zemeckis, utilizaria a mesma técnica de captura de performance dos atores vista no controverso O expresso polar, do mesmo Zemeckis, famoso por ter sido o primeiro longa realizado dessa maneira. O expresso polar também ficou marcado como um filme extremamente chato, com um visual que, embora chamasse atenção, exalava artificialidade.

Por outro lado, o roteiro de A lenda de Beowulf levaria as assinaturas da dupla Roger Avary e Neil Gaiman. O primeiro é conhecido pela colaboração com Quentin Tarantino no soberbo texto de Pulp Fiction; o segundo é um famoso escritor de quadrinhos – responsável pela série Sandman – e dono de alguns best-sellers no campo da literatura fantástica. Ambos enchiam o projeto de credibilidade.

Durante o longa é fácil perceber o quanto eles foram importantes para o saldo positivo apresentado nos 113 minutos de projeção. Zemeckis já havia provado ser um diretor talentoso na trilogia De volta para o futuro. Seu A lenda de Beowulf deixa claro que tudo que ele precisa é de um texto com qualidade para emplacar uma boa aventura. Se bem que estar de posse dos avanços tecnológicos proporcionados pelos três anos que separam O expresso polar do novo projeto ajuda muito no resultado final. A lenda de Beowulf é um épico cheio de magia, como há muito não se via nas telonas, em boa parte devido ao visual único, capaz de gerar combates empolgantes com bestas marinhas, dragões e ogros gigantescos a um custo acessível, algo impensável caso o filme seguisse o processo tradicional. Em alguns momentos até nos esquecemos que estamos assistindo a uma animação (seria este o melhor rótulo para o projeto?) e poucas vezes nos deparamos com os rostos artificiais que permeiam O expresso polar.

A história é baseada em um famoso poema épico, considerado o mais antigo registro em língua inglesa, que narra os feitos de Beowulf, famoso matador de monstros que se torna rei após aceitar uma proposta do único adversário que não podia derrotar.

As interpretações de feras do gabarito de Anthony Hopkins, John Malkovitch e da belíssima Angelina Jolie consolidam a força do projeto. Todos tiveram seus movimentos e feições capturados pelo computador, sendo impossível não reconhecer seus traços nos personagens, tamanha a perfeição do processo. Chega a ser irônico que apenas o protagonista, vivido por Ray Winstone, em pouco se pareça com seu intérprete na vida real. Fica difícil enxergar o gordinho Winstone dentro da pilha de músculos que compõem o jovem herói Beowulf. Os produtores até poderiam ter optado por outro nome, mas a imagem de bardo falastrão de Winstone o torna perfeito para o papel. Ele ainda serve como prova de que a tecnologia pode abrir novas portas para atores estigmatizados para certos papéis e personagens. Imaginem o franzino Steve Busceni ou então Woddy Allen na pele de um poderoso guerreiro medieval ao maior Arnold Schwarzenegger!

Winstone gostou da brincadeira. O visual saradíssimo conseguiu empolgar até mesmo sua esposa. Já Angelina Jolie confessou ter ficado um tanto “tímida” ao se ver nua no projeto que julgava apropriado para seus filhos pequenos. Não que a senhora Pitt tenha reprovado o que viu. O problema é que o resultado ficou muito próximo da realidade. Quem diria que um dia Angelina Jolie ficaria constrangida em expor sua intimidade em uma animação...



A parafernália responsável pela técnica caiu bem em Angelina Jolie

sábado, dezembro 29, 2007

Cinema

Filme de arte


Não se deixe enganar pelo título: Goya não é o centro das atenções...

Não foram poucos os críticos que classificaram Sombras de Goya como uma nova incursão do diretor Milos Forman no rico universo criativo que move o trabalho de grandes artistas – no caso, o pintor Francisco Goya. A leitura destes – incorreta, é bom frisar – foi motivada por um insensato esforço em traçar um paralelo com um dos grandes clássicos do diretor, Amadeus, que apresenta os rompantes criativos de Wolfgang Amadeus Mozart.

O fato é que a narrativa de Sombras de Goya sequer gira em torno do pintor espanhol, e quando o faz, perde um pouco de força. Em seu novo longa, Milos Forman usa a obra de Goya como pano de fundo para tecer um interessante retrato dos jogos de poder praticados entre clero, monarquia e revolucionários republicanos entre o final do século XVIII e início do XIX, com a constatação de que pouco importa quem está no poder, o povo sempre acaba perdendo.

Inês (Natalie Portman) é uma das musas inspiradoras do trabalho de Goya (Stellan Skarsgärd). O rosto dela aparece em diversas obras do pintor espanhol, o que chama a atenção do clero, que andava descontente com a perda de poder para a monarquia e não via com bons olhos parte da produção artística do pintor. Após reabrir os porões da Inquisição, Padre Lorenzo (Javier Barden) consegue um pretexto para condenar a bela Inês às torturas impostas pela contra-reforma. Submetida às piores provações, Inês sucumbe à dor e confessa atos que não cometeu.

Goya, homem influente junto à monarquia e com contatos no clero, tenta interceder pela família de Inês, que deseja a libertação imediata da moça. Em vão. Inês fica presa durante quinze anos e sai da cadeia durante a invasão de tropas francesas. Tomada em parte pela loucura, ela nem consegue perceber o novo cenário político que emerge no país, dominado pelas forças de Napoleão. Republicanos chegam até a Espanha prometendo as melhorias da democracia e a libertação da opressão religiosa. Promessas que, por ironia do destino, são disseminadas pela mais improvável das figuras. É aí que uma nova incursão estrangeira chega ao país, e com ela, uma nova inversão de papéis acontece.


Javier Barden rouba a cena na pele do soturno Padre Lorenzo

O filme não representa uma crítica direta aos atos da Inquisição. Tampouco àqueles cometidos pelos invasores franceses ou pelos ingleses que os sucederam. Forman não faz distinção entre os lados e mostra que, apesar de rotularem-se como diametralmente opostos, seus métodos são extremamente parecidos.

Vale destacar a ótima interpretação de Javier Barden na pele do padre Lorenzo e a beleza e sensibilidade de Natalie Portman como Inês e, posteriormente, no papel de sua filha adolescente. Mas a grande força de Sombras de Goya reside na mão firme de Milos Forman. Aos 75 anos, o diretor mostra que, apesar de não ostentar o respeito que merece após uma carreira marcante, continua apaixonado pelo cinema e sua riqueza narrativa.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Cinema

Sem medo de ser "trash"

Rose McGowan alimenta o fetiche dos fanáticos por armas de fogo

Quentin Tarantino e Robert Rodriguez podem até não ser unanimidade em Hollywood, mas poucos contestam que a dupla seja responsável pelas maiores revoluções no formato do cinema norte-americano atual. Agora, os dois voltam a somar forças. Desta vez eles não tentam criar novos parâmetros para a indústria, apenas resgatar do limbo um estilo que fervilhava nas salas ianques durante as décadas de 60 e 70. Eram as grindhouses, sessões duplas do que de melhor – ou seria pior? – existia no cinema B do Estados Unidos.

Como a fórmula nunca pegou fora da terra do Tio Sam, o projeto intitulado Grindhouse chegou dividido às telonas brasileiras. Rodriguez responde por Planeta Terror, segmento que homenageia filmes de zumbis clássicos, em especial os criados por George Romero. Tarantino manda ver com À prova de morte, fita que remete aos tradicionais thrillers estrelados por carros assassinos.

Apesar de terem grande afinidade estética – ao ponto desta ser a quinta vez em que trabalham juntos – Rodriguez e Tarantino possuem estilos bem peculiares de direção, o que torna as duas metades de Grindhouse bastante diferentes entre si. Rodriguez mostra-se dono de uma veia mais mainstrem, e Planeta Terror, apesar de proposto como uma homenagem ao estilo trash, possui uma das produções mais bem acabadas do ano, que deve cair no gosto da molecada. Os efeitos especiais são de primeira, verdadeiro deleite para fãs do estilo gore, ou seja, não falta sangue e vísceras. Apesar disso, o filme não se propõe a provocar sustos no espectador, preferindo ficar no tom da paródia, seja através do nojo provocado pelas inumeráveis mortes bizarras, ou pela profusão de personagens esdrúxulos que dominam a telona. Destaque para o perito em armas El Wray (Freddy Rodríguez), a enfermeira Dakota Block (Marley Shelton) e seus problemas conjugais e, principalmente, para Cherry Darling (Rose McGowan), dançarina exótica que ganha uma metralhadora no lugar da perna.

À prova de morte soa como uma real tentativa de revisionismo do estilo grindhouse. Sem dúvida ele está muito mais próximo do clima daqueles filmes antigos, que ficaram famosos no Brasil durante as antigas sessões do Cine Trash da Rede Bandeirantes. O problema é que aqueles que se empolgarem com a ação frenética presente no filme de Rodriguez podem acabar entediados com a lentidão do filme de Tarantino, quase todo composto por diálogos, filmados em pouquíssimos ambientes. A boa notícia é que o diretor responsável por Pulp Fiction ainda constrói alguns momentos geniais, e apesar de À prova de morte ser provavelmente seu pior filme, não deixa de estar em um patamar superior ao da maioria dos longas exibidos neste ano. As interpretações inspiradas de Kurt Russel – como Stuntman Mike, dublê maníaco que usa o próprio carro como ferramenta de execuções – e do grande elenco feminino, que serve ora como vítima, ora como flerte para o vilão motorizado, contribuem para a força do projeto.

Após assistir aos dois longas confesso ter ficado surpreso por gostar mais da fita dirigida por Rodriguez. Tarantino sempre foi um de meus diretores preferidos, mas após o excelente Kill Bill, ele deve ter ficado com o ego nas alturas, a ponto de parecer pouco empenhado em seu projeto mais recente.

Ah! Vale destacar os ótimos trailers falsos que permeiam os dois longas, com destaque para o hilário Don’t – do diretor Edgar Wright, de Todo mundo quase morto – e para Machete, do próprio Rodriguez, ao melhor estilo diversão descompromissada do diretor mexicano. A brincadeira fez tanto sucesso que Rodriguez já almeja fazer um filme de verdade para seu trailer falso. Fico na torcida!

Fale a verdade: você teria coragem de pedir carona para este sujeito?

sábado, dezembro 01, 2007

Cinema

A velha mania de comparar


Tropa de elite teria condições de trazer o Oscar?

Vez ou outra, notamos semelhanças entre o cinema nacional e o futebol tupiniquim. Ambos ressaltam o temperamento brejeiro e festivo dos brasileiros, garimpam talentos em meio à vida dura nas favelas e estão sempre a procura de um novo fenômeno para garantir uns trocados a mais. A última “bola da vez” no campo do cinema é o onipresente Tropa de elite, sucesso nas telonas e camelôs.

Tropa de elite já foi analisado e discutido à exaustão. Todos os aspectos do longa parecem ter sido esgotados por inúmeras discussões suscitadas pelas mais diversas variantes do público, desde os cinéfilos acadêmicos até os adeptos da pirataria, passando pela lente global de Luciano Huck. Prefiro, portanto, ater-me a comparação do longa com o universo futebolístico, estratégia que rende magníficos dividendos políticos para nosso Presidente da República.

Assim como um grande time, que joga de forma vistosa para encher os olhos da torcida, Tropa de elite preocupa-se em mostrar na telona o que boa parte da população brasileira anseia ver: criminosos sendo exterminados. Mesmo sem analisar o mérito da questão, é impossível negar que o longa é na verdade um grande show, tal qual aqueles oferecidos pelos craques dos gramados, e por isso, angaria uma torcida pra lá de entusiasmada.

Estes querem o Oscar, um dos raros “canecos” que nenhum brasileiro teve o privilégio de erguer. O problema é que a Tropa liderada pelo Capitão Nascimento sequer entrará em campo para a disputa, pois o filme acabou preterido em relação ao longa O ano em que meus pais saíram de férias, do diretor Cao Hamburguer.

A torcida pode até chiar, mas a verdade é que a possibilidade de que Tropa de elite levasse a estatueta era tão grande quanto a de que Romário volte a seleção para a Copa de 2014. Embora seja um grande filme, Tropa de elite não possui o viés artístico necessário para encantar os jurados da Academia. A coisa piora se lembrarmos que superproduções com o pé fincado na análise social não são nenhuma novidade em Hollywood.


Policiais, bandidos e armas...
Confronto tão apoteótico quanto uma final de campeonato.


Mas os fãs seguem inconformados, em boa parte devido às inevitáveis comparações com Cidade de Deus, este sim inegável injustiçado pela Academia. As semelhanças residem na temática da violência urbana no Rio de Janeiro, mas caso nossas superproduções estivessem disputando entre si as inúmeras categorias do Oscar, Cidade de Deus certamente venceria com folga. Tropa de Elite teria de contentar-se com uma estatueta para Fernanda Machado como melhor atriz coadjuvante e um merecido prêmio para Wagner Moura como melhor ator, afinal, ele é o dono do filme.

Antes que o séquito de fãs do longa amaldiçoe minha existência, reitero minha opinião esclarecendo que considero Tropa de elite um ótimo filme. O problema é que Cidade de Deus é uma obra-prima, do nível da inesquecível seleção de 1982. Infelizmente, por alguns caprichos do destino, a qualidade de ambos não foi suficiente para que conquistassem os respectivos títulos.

sábado, novembro 10, 2007

Cinema

Compromisso com a diversão


Poucas vezes um título casou tão bem com o conteúdo.

Ao assistir Mandando bala, filme de ação que deve projetar o nome do desconhecido diretor Michael Davis, foi impossível não lembrar daquelas listas recheadas de feitos extraordinários que pipocam na internet, algumas atribuídos a Chuck Norris, outras a Jack Bauer. Até mesmo o já lendário Capitão Nascimento possui uma relação de façanhas espalhada pela net. Mandando bala nada mais é do que a formatação dessas peripécias mirabolantes em película, realizadas por um cada vez mais carismático Clive Owen na pele do casca-grossa Sr. Smith, sujeito que de tão durão, deixaria os rivais acima citados perplexos.

Com uma proposta dessas fica fácil prever que o enredo da história não será dos mais complexos. O lema aqui descomplicar. Sr.Smith é um tipo rude que detesta caras que se comportam mal, e por isso não exita em ir ao socorro de uma grávida perseguida por um grupo de extermínio. Não é preciso revelar o passado do personagem ou suas motivações. Menos é mais, e de mirabolante bastam as inúmeras cenas de ação, exageradas ao ponto de não poderem ser levadas a sério. E o charme do filme reside exatamente nisso: diretor e elenco nunca se esquecem que estão produzindo uma grande piada. O legal é que ela funciona.

É preciso entrar no clima hiperbólico da ação para rir de um parto onde o cordão umbilical é cortado com um tiro, ou com a constatação de que cenouras podem ser muito mais mortais do que armas de fogo (pode apostar nisso!). O clima de paródia permite analogias com o desenho do Pernalonga e cenas onde um casal não para de fazer sexo mesmo enquanto troca tiros com dezenas de criminosos. A produção não consegue cair no ridículo graças ao empenho do já citado Clive Owen e de outras feras do porte de Paul Giamatti, como o ótimo vilão Hertz, ou da lindíssima Monica Bellucci, personificando a deslumbrante prostituta Donna Quintano, interesse romântico do protagonista.

A competência do diretor para construir cenas de ação únicas e prá lá de impossíveis certamente cativará os amantes da cultura pop em geral. A arquitetura das seqüência lembram as intrincadas armadilhas desenvolvidas pelo Coiote para capturar o Papa Léguas. Quando você espera que o filme não conseguirá mais superar-se em seu próprio exagero, voi-lá, somos apresentados a uma cena ainda mais maluca. É certo que para um filme constituído nesses termos não faltarão críticos. Estes taxarão o longa de “acerebrado”. Mas até para isso o Sr. Smith possui uma resposta na ponta da língua, afinal, “o que ele mais odeia nos críticos é a carência de senso de humor”.


Não se deixe enganar, a ação não terá respiro durante o romance...

sábado, agosto 04, 2007

Cinema

Atropelando os pequenos


Transformesrs: definição mais que perfeita para blockbuster.

Ficou difícil para o vendedor de pipoca disfarçar o sorriso. A enxurrada de filmes arrasa-quarteirões que têm permeado 2007 foi capaz de devolver as cifras astronômicas de bilheteria às produções made in Hollywood. É claro que o retorno das “verdinhas” foi comemorado pelos estúdios americanos, que enxergam nesse crescimento um possível ponto final para a crise que assolou o mercado no início da década.

O ponto alto desse “pesadelo” aconteceu em 2005, quando a arrecadação com ingressos sofreu uma queda de 2,5 bilhões em relação ao ano anterior. Estúdios já se preparavam para fechar mais um ano no vermelho quando 2006 foi encerrado com a grata surpresa de um crescimento positivo de 6%. Um valor pequeno para grandes comemorações, porém, capaz de fazer alguns executivos respirarem aliviados. Foram 6,5 bilhões de dólares arrecadados em todo o mundo, valor ainda menor que o arrecado em 2004, e que deve boa parte de seu sucesso à generosa contribuição dada por Piratas do Caribe: O baú da morte, filme que, sozinho, somou mais de um bilhão para os cofres da Disney.

A quantia vultuosa serviu de mapa para que outros estúdios copiassem a receita. Era hora de voltar a apostar pesado nos blockbusters, de preferência àqueles capazes de render franquias recheadas de seqüências turbinadas. Plano que já está sendo seguido a risca, com 2007 capitaneado pelos estrondosos sucessos de Homem-aranha 3, Shrek Terceiro e Piratas do Caribe: No fim do mundo, todos capítulos finais de suas respectivas trilogias. Juntos, fizeram mais de 2 bilhões. Somados aos outros sucessos lançados no primeiro semestre, Harry Potter e a ordem da fênix, 300 e Transformers, respondem por mais da metade da arrecadação do ano passado. É amigo, isso em apenas seis filmes.

Os efeitos desta avalanche bilionária foram facilmente sentidos por quem gosta de cinema. Produções mais modestas, de cunho artístico, ficaram relegadas a circuitos extremamente restritos, pois praticamente todas as salas estavam reservadas às superproduções norte-americanas. Se você mora no interior, provavelmente ainda não conferiu filmaços como Maria Antonieta, O homem duplo, O Hospedeiro ou os brasileiros O cheiro do ralo e O céu de Suely. Longas que simplesmente não entraram em cartaz nestas cidades. Entretanto, mesmo os moradores das grandes capitais também têm do que reclamar. Esse tipo de filme geralmente fica em cartaz por apenas duas semanas, e em uma única sala. É a lógica do capitalismo, grande oferta para grande procura.

Política que gera um curioso fenômeno: a migração de cinéfilos, que deixam as filas de cinema para ocupar os saguões das locadoras (quando não sedem a tentação da pirataria). Alguns títulos geram listas de espera de semanas para serem alugados. E ao julgar pelos lançamentos previstos para o próximo ano, o quadro não deve sofrer alterações. Quem quiser ver um filme mais intimista na tela grande terá que juntar dinheiro para comprar uma boa TV de plasma. Comemoram os executivos; do cinema, dos eletrodomésticos e da pipoca, é claro!

sábado, julho 21, 2007

Cinema

Com os ingredientes certos


Alguém duvida que vencerá o Oscar?

Ratatoille vai ganhar o Oscar de animação deste ano”. Fiz essa afirmação meses atrás, quando tudo o que tinha vista do novo longa da Pixar eram alguns pôsters e um teaser meia-boca. Como explicar então minha convicção? Simples! Uma simples frase estampada no canto daqueles pôsters: “Dirigido por Brad Bird”. Ele mesmo, o gênio por trás de duas verdadeiras obras-primas da animação, O gigante de ferro e Os Incríveis.

Quando você passa a gostar muito de cinema e se dedica a assistir diversos filmes, invariavelmente você acaba entendendo um pouco do assunto. Basta assistir a um filme de determinado diretor para saber se o cara tem talento e merece ter a carreira acompanhada. Raramente há exceções, e Brad Bird, felizmente, não é uma delas. Quando fui ao cinema assistir Os Incríveis, esperava ver apenas mais uma boa animação realizada pela Pixar,e me deparei com um dos melhores longas daquele ano em todos os sentidos, desde o desenvolvimento dos personagens e suas motivações, até a belíssima trilha sonora.

Percebi que Bird domina a linguagem cinematográfica. Não se atêm a algumas convenções que limitam o gênero da animação. Os Incríveis pode muito bem se entendido pela criançada, mas passa longe de ser um filme apreciável apenas pelos pequenos. O mesmo acontecia com O gigante de ferro, longa que assisti em vídeo. A fórmula de Bird é semelhante a de outros cineastas criativos, artistas que unem diversas influências sob um elo forte e consistente, capaz de fornecer uma roupagem moderna para temas abordados anteriormente diversas vezes. É o caso da Guerra-fria em O gigante de ferro, ou da temática dos super-heróis, atualizada para a burocracia contemporânea em Os Incríveis.

Para Ratatoille, filme sobre um ratinho que sonha em se tornar cheff em um importante restaurante francês, Bird sabia que, com o perdão do trocadilho, a receita não podia ser mudada. Aqui ele resgata o melhor do universo cartunesco de Tom e Jerry (talvez o melhor desenho já produzido) modernizando tudo para contar uma fábula sobre o valor dos sonhos e a importância de perseguí-los, por mais improváveis que sejam, como um rato, animal tido como asqueroso, tornar-se o melhor cheff da França.

No making-off de Os incríveis, Bird revela que seu lema de trabalho é “usar todo o búfalo”, em referência aos índios, que aproveitam carne, couro, chifres e ossos deste animal após abatê-lo. Ao assistir Ratatoille é fácil perceber que o cineasta não utiliza esse ideal como frase de efeito aos moldes dos guias de auto-ajuda. Cada cena é parte fundamental do projeto e, se ora a narrativa explora o melhor das perseguições a lá gato e rato, em outro momento pode dar lugar a um inspirado monólogo sobre o valor da crítica perante realizações concretas. Pois bem, depois de duas horas de projeção mantenho minha previsão para o Oscar, agora com uma certeza quase inabalável, pois, para Ratatoille não vencer, teremos que nos deparar com um filme que será, no máximo, tão bom quanto ele.

sábado, julho 07, 2007

Cinema

Maior e melhor

"Mas o filme não era do Quarteto?"

Como acontece em qualquer área de atuação profissional, Hollywood apresenta profissionais de todos os tipos. Há os diretores visionários, como David Fincher; os criativos, Tarantino é um deles; os canastrões (alguém aí disse Michael Bay?); os capitalistas, filão onde George Lucas é o expoente máximo. Entretanto, Tim Story, diretor de O Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado parece inaugurar uma nova categoria, a dos diretores sortudos.

Que Story não é um cineasta de mão cheia é fácil notar em suas películas anteriores, o tenebroso Táxi e o meia-boca Quarteto Fantástico. Entretanto, neste último já é fácil notar que o diretor nasceu virado pra lua. Mesmo sem possuir noção alguma de enquadramentos e com uma visão extremamente brega para um filme de ação, ali, o diretor colocava a mão em alguns dos mais carismáticos personagens já criados. A família composta pelo Sr. Fantástico, Mulher Invisível, Coisa e Tocha Humana também ganhou atores dedicados, capazes de trazer alguma graça para um filme de roteiro débil, muito mais parecido com uma sitcom vespertina que um pipocão hollywoodiano.

Este carisma acabou garantindo a expressiva quantia de 400 milhões de dólares em bilheteria mundo afora e, é claro, uma continuação. Atento às críticas dos fãs dos quadrinhos, que não foram poucas, Story amadureceu seu estilo (!?) de direção, tornando a nova aventura dos heróis de Stan Lee infinitamente superior a primeira, com cara de cinema e o mais impressionante, bom cinema, pelo menos para os padrões dos blockbusters.

Para a nova empreitada, Story novamente foi abençoada com a lufada de sorte que o ajudou no longa inicial. Ela atende pelo nome de Surfista Prateado, outro personagem fascinante, de apelo visual incrível, que garante as excelentes cenas de ação que faltaram na primeira fita. O Surfista rouba a cena cada vez que aparece e mostra que os efeitos especiais da atualidade só encontram limites na falta de imaginação de alguns diretores. Não foi o caso de Story, pelo menos desta vez (seria o mérito apenas da equipe de efeitos?). Vale destacar também a performance do mímico Doug Jones, que conferiu vida e muita personalidade ao personagem.

Além disso, o elenco composto por Chris Evans (Johnny Storm), Ian Gruffud (Reed Richards), Michael Chiklis (Bem Grinn) e Jessica Alba (Sue Storm) está mais afiado desta vez, grantindo a graça das incontáveis piadas da produção. A química entre os protagonistas torna uma continuação que parecia fadada ou ridículo em um dos melhores filmes da temporada de arrasa quarteirões norte-americanos. É a prova da teoria levantada por Woddy Allen no excelente Match Point: "um lance de sorte pode determinar toda uma existência". Ou alguém duvida que ainda iremos ouvir muito sobre Tim Story?


Química entre o elenco é, novamente, o trunfo do filme.

sábado, junho 16, 2007

Televisão

Cinema em doses homeopáticas


Já bolou sua teoria sobre o final de Lost?


Nem só de cinema vive um bom cinéfilo, pelo menos neste início de século XXI, repleto de alternativas ao bom pipocão. Com produções cada vez mais competentes, a telinha da TV tem deixado muito executivo de cinema de cabelo em pé. Já é grande o número de séries que desbancam poderosos Blockbusters na preferência do público e na linha de produtos licenciados. A qualidade de algumas produções rivaliza com caprichados filmes de Hollywood, atores de renome se aventuram pela empreitada e os recursos limitados da televisão já não são mais tão “limitados” assim.

Com a ascensão do formato digital, os limites para a imaginação dos roteiristas de TV ganharam novos patamares. Já é possível realizar quase tudo também na telinha, o que tem atraído o olhar de talentosos diretores que utilizam a televisão como passaporte de entrada para o cinema. O resultado disso tudo é a melhor safra de seriados da história da TV americana. Separo alguns destaques:

Ação:
Aqui não dá para fugir do óbvio. Lost e Heroes ainda não encontram adversários em suas fórmulas egressas do cinema e dos quadrinhos. Embora não sejam centradas em idéias particularmente novas, ambas só puderam ser produzidas com um mínimo grau de qualidade graças à nova realidade das produções televisivas.

Como ponto fraco a primeira possui seus intervalos entre temporadas, que acabam amenizando a tensão de acompanhar o cotidiano da ilha. Nesses períodos deixamos de pensar como estarão Jack, Kate e cia. e passamos a nos preocupar com outros problemas. Talvez isso explique as seguidas quedas de audiências entre as temporadas. Já a segunda peca pela reverência excessiva às HQ’s, o que rouba a originalidade do produto, que em alguns episódios limita-se a reeditar momentos clássicos de gibis diversos.

Comédia:
Os órfãos de Sienfield podem encontrar refúgio nos inteligentíssimos episódios de My name is earl. A série que sedimenta o lugar de Jason Lee entre os grandes humoristas da atualidade é uma das mais originais dessa nova safra. As peripécias de Earl Hickle, ex-bandido que quer se redimir de seus erros do passado para limpar sua barra com o carma, não apostam em piadas esporádicas, comuns em sitcons. Aqui, a fórmula é centrada em uma ironia perspicaz, capaz de deixar qualquer um como um sorriso largo durante dias. Talvez não provoque gargalhadas, mas é inegável que trata-se de um humor muito mais elaborado e difícil de realizar.

Animação:
Com o cancelamento da série Liga da Justiça: Sem limites, o destaque fatalmente cairia para medalhões como Os Simpsons ou South Park, não fosse a genialidade dos episódios da excelente série Frango: robô. A produção do Cartoon Network satiriza ícones da cultura pop infanto-juvenil, colocando personagens como os Irmãos Mario ou Calvin e Haroldo em situações adultas dominadas por violência e sexo. Para quem não conhece, basta dizer que lembra bastante as esquetes do Casseta & Planeta baseadas em novelas, mas, ao contrário da atração global, aqui dificilmente as piadas deixam de ser originais e engraçadas.

Televisão

Um tiro n'água

A aposta era alta, e depois da fraca recepção para a microssérie A pedra do reino, fica nublado o futuro do Projeto Quadrante, idealizado pela rede Globo em parceria com o cineasta Luiz Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica e a minissérie Hoje é dia de Maria). Ambiciosa, a idéia era adaptar para a TV o texto de quatro clássicos da literatura brasileira que fugissem da obviedade do eixo Rio-São Paulo , com os projetos filmados em suas regiões originais (embora Capitu, uma das produções, será rodada no Rio), utilizando mão-de-obra local, incluindo aí os atores .

Carvalho decidiu iniciar o projeto pela região Nordeste, escolhendo o Romance da Pedra do Reino e o príncipe do Sangue do Vai-e-volta de Ariano Suassuna, texto difícil, que o diretor preferiu levar para a tela fielmente. O resultado é um primor artístico invejável, bem superior ao trabalho de Guel Arraes em O Auto da Compadecida, que popularizava o texto de Suassuna para ganhar a simpatia do público. A Pedra do Reino é muito mais fiel ao imaginário do artista e enquadra a beleza do nordeste como poucas obras já fizeram. Apesar de tudo, a série registrou apenas um terço da audiência média do horário da emissora.

Não parecia difícil de adivinhar. A ausência de rostos globais, a estética rebuscada e, principalmente, a narrativa pouco convencional, dificilmente cairiam no gosto popular. É uma pena que a política de não fazer concessões imposta por Carvalho deva ser revista pela emissora. Triste ver que a coragem em levar um produto diferenciado para nossa TV carente de boas produções seja recompensado com o descaso.

sábado, junho 09, 2007

Cinema

Genial em série!


"Por favor senhor Homem-de-ferro, você poderia me dar seu autógrafo?"

David fincher conseguiu outra vez. O diretor de dois dos filmes mais cultuados dos anos 90 (Se7en e Clube da Luta), pegou os fãs de surpresa ao conferir uma nova abordagem para o gênero de seriais killers. Ao contrário do que a lógica poderia propor, Fincher trilha o caminho oposto de Se7en, clássico absoluto do gênero e maior sucesso comercial do cineasta, contando uma história que não objetiva analisar as motivações do assassino, mas a obsessão para desmascará-lo.

O roteiro se baseia no livro homônimo do cartunista Robert Graysmith, que relata uma série de assassinatos cometidos por um homem que denominava-se Zodíaco, além das tentativas frustradas da polícia e da imprensa em descobrir a identidade do criminoso. Até hoje, o autor da onda de crimes assombrou a Califórnia durante a década de setenta não foi descoberto , e aqui o cineasta procura não trair a realidade, sem apontar um culpado e mostrando os suspeitos sob a perspectiva dos investigadores.

Em Zodíaco, Fincher se mostra mais contido na direção, fazendo poucas experimentações com câmeras virtuais ou planos complexos (porém, quando o faz, mostra a maestria de sempre). Aqui ele prefere focar no espetacular trabalho de um elenco pra lá de talentoso. Mark Ruffalo vive o policial David Toschi, responsável pelo caso durante muitos anos; Robert Downey Jr. da vida ao jornalista Paul Awery, que cobria o caso para o jornal San Francisco Chronicle; e Jake Gyllenhaal vivendo Graysminth, a autor do livro. A obsessão em tentar resolver o caso acaba consumindo a vida de todos eles, sendo um retrato extremamente interessante sobre as motivações reais em casos como estes.

Mesmo colocando o público ao lado dos investigadores, Fincher não frustra as expectativas não apontando um culpado. Somos obrigados a tirar nossas próprias conclusões e refletir se os pequenos detalhes esquecidos pelos investigadores eram realmente suficientes para inocentar a lista de suspeitos.

Um thriller pra lá de diferente, sem dúvida nenhuma, que mostra que David Fincher é incapaz de fazer um filme ruim. E antes que alguém alegue que ele é responsável pelo terrível Alien 3, é bom saber que em uma recente entrevista a SET o cineasta revela que o estúdio aproveitou-se de seu nome. Fincher diz ter abandonado o barco sem ter filmado 30% do que vemos na tela. Talvez ele esteja apenas tentando limpar a própria barra, mas após assistir Zodíaco, fica difícil duvidar.

sexta-feira, junho 01, 2007

Cinema

Três, de fato, é demais!!!


Graças aos super-poderes de Sam Raimi, o aranha consegue se salvar...

Há 30 Star Wars inaugurava uma nova era na história do cinema. Muito mais que os efeitos especiais que marcaram época, a saga de George Lucas mudou a forma com que os executivos planejavam seus filmes. Se uma história é boa ou grande demais para ficar restrita a um único filme, o melhor a fazer é transformá-la em uma trilogia.

Embora a semente tenha sido plantada na década de setenta, o formato consolidou-se de fato no início do novo milênio, por meio de trilogias como Matrix, O Senhor dos Anéis e às adaptadas dos quadrinhos. Atores e diretores passaram a assinar contratos para três longas e, para enxugar os gastos, algumas trilogias tinham dois ou até três espisódios gravados simultaneamente. Tais projetos são em geral grandes produções, blockbusters que quase sempre estouram nas bilheterias.

O ano de 2007 veio para coroar de vez o formato. O capítulo final de três das mais rentáveis trilogias da história do cinema aportaram de uma só vez no verão americano, com intervalos de parcas semanas para garantir que o hype em torno de uma produção não roubasse algumas dezenas de milhões de dólares da outra. Homem-aranha 3, Piratas do Caribe: No fim do mundo e Shrek Terceiro são os grandes lançamentos de um ano que já ficou marcado pela alcunha de “ano dos três”.

Em comum, todos conseguiram as piores críticas dentro de suas respectivas trilogias. Homem-Aranha 3 foi o menos “malhado” pelos especialistas, com justiça. Embora a terceira aventura do aracnídeo nas telonas seja inferior as antecessoras, HA3 não deixa de ser um bom filme. Muitos reclamaram da grande profusão de vilões que povoam a trama e a superficialidade com que estes foram desenvolvidos. Tenho de confessar que concordo com a simplicidade com que Sam Raimi conduz o roteiro. Ele não perde tempo tentando explicar o inexplicável (ou alguém acha que existe embasamento científico qualquer que torne crível um homem se transformara em areia viva?). A simplicidade das origens de Venom e do Homem-Areia contribuem para que o diretor desenvolva melhor a personalidade de Peter Parker e seus relacionamentos com Mary Jane e Harry Osborn, que inclusive ganham profundidade. Não podemos esquecer que Peter é o verdadeiro protagonista da história, embora o título teime em nos dizer o contrário.


"Alguém aqui sabe o que está acontecendo?"

Piratas do Caribe segue o caminho inverso e parece servir como atestado para a escolha de Sam Raimi. O terceiro capítulo da aventura bucaneira é muito mais complexo do que deveria (leia-se: confuso). Com uma reviravolta a cada 30 segundos, o longa em nenhum momento parece possuir um fio-condutor, mesmo o mais simples possível. Contribuem para estragar a festa a falta de carisma de Orlando Bloon, que compartilha o defeito com praticamente todo elenco, a exceção de Keira Knightley e Geoffrey Rush, como Elizabeth Swann e Capitão Barbosa respectivamente. Nem mesmo o excelente Johnny Deep consegue se salvar aqui. Se o intérprete de Jack Sparrow carregava os filmes anteriores nas costas, nesse ele perde seu característico charme de malandro para dar lugar a um excêntrico e hiperbólico palhaço. Suas artimanhas são executadas de forma gratuita, com um fim nelas mesmas. No primeiro longa Sparrow aprontava para se dar bem. Agora, ele não passa de uma alegoria para crianças.

Apenas Shrek Terceiro não estreou em terras tupiniquins, mas este carrega o estigma de ter recebido as piores críticas entre os três. Não parece injusto. O trailer da produção não consegue despertar um riso sequer e ainda apresenta piadas constrangedoras de tão ruins.

Apesar das críticas negativas, todos os filmes obtiveram excelentes aberturas nos EUA. Homem-aranha 3 inclusive conseguiu quebrar o recorde de melhor fim de semana de estréia. É uma pena que iremos lembrar o “ano dos três” muito mais pelas cifras históricas do que pela qualidade dos filmes em questão.


Não basta estar bem vestido para agradar.

sábado, abril 14, 2007

Cinema

300 horas depois


Leônidas parecido com George Bush? Não neste ângulo...

Escrevo esta crítica de 300 com um certo atraso. Praticamente todos os veículos de informação do país reservaram espaços generosos para a cobertura do longa, fisgados pela curiosidade popular em torno da presença de Rodrigo Santoro na produção, na pele do vilão (!?) Xerxes. Desta forma, minha resenha acabou desprovida do frescor das notícias quentes, pois quase tudo o que havia para ser dito da produção foi difundido aos quatro ventos. Para compensar, o tempo extra possibilitou-me fazer uma análise mais profunda sobre toda a falação em torno do longa.

Um dos aspectos que mais chamou atenção foi o grandioso esquema de marketing montado para a divulgação. É bem verdade que esse acabou “hiperbolizado” para o contexto brasileiro devido à escalação de Santoro. O ator motivou a Warner Brothers a realizar o lançamento do longa na América Latina em território tupiniquim, algo inédito para um lançamento deste porte. Antes, o México era o endereço certo deste tipo de evento.

A presença do elenco e do diretor Zack Snyder no Brasil durante a semana de lançamento proporcionou capas de revistas e matérias em telejornais, mesmo nos veículos que geralmente não oferecem destaque para o universo cinematográfico. Boa parte deles estavam interessados apenas em relatos sobre fofocas dos bastidores de Hollywood. Quando abordavam temas sobre o filme em si, a criatividade era freada pelas mesmas perguntas, sempre sobre o processo de treinamento, a adptação ao figurino e a atuação no fundo verde, com raras exceções.

Mas a febre em torno de 300 também foi ajudada pelo polêmico manifesto realizado pelo presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, que baniu o longa daquele país, acusando-o de ser uma “propaganda pró-Bush” devido a visão dado ao povo persa, em alguns momentos retratado como bestas imbecis. De fato o filme faz uma leitura pouco amistosa dos mesmos, mas atribuir isso a um discurso pró-Bush parece mais uma tentativa desesperada de um presidente cujo país atravessa severas dificuldades com a comunidade internacional. Em suma, Ahmadinejad aproveita qualquer situação para chamar a atenção do mundo, tentando assim, impedir as represálias dos EUA ao programa nuclear iraniano.

Tanto é que as declarações de Ahmadinejad trouxeram ainda mais holofotes da mídia para o longa, figurando a produção em editorias de política e atualidades. Poucos foram os que se deram conta de que o filmes é uma adaptação fidelíssima à HQ escrita por Frank Miller em 1999, portanto, antes da era Bush (Jr.). Aqueles que mencionaram o fato geralmente o fizeram de forma pejorativa, o que prova que o preconceito em torno dos quadrinhos resiste firme e forte na cabeça de boa parte dos chamados “formadores de opinião” brasileiros.

Apesar de ser fundamentado em eventos históricos, 300 em nenhum momento pretende servir como versão oficial dos fatos. Se Heródoto realizou uma obra histórica calcada na ficção, Miller optou pelo caminho oposto, nos entregando uma tradicional história de super-heróis, onde os Espartanos representam o papel de soldados perfeitos lutando contra a ameaça a liberdade. Não devemos enteder a produção de outra forma. É diversão acima de tudo, e duvido muito que qualquer pessoa em sã consciência possa traçar um paralelo entre o Leônidas heróico visto no filme, com o desprezível presidente americano.

Visualmente, o longa transpõe a HQ para as telonas, por meio de um processo semelhante ao utilizado para filmar Sin City, outra obra de Miller. Aqui volto ao tema da divulgação do filme. Interessante notar que quando anunciado, 300 parecia ser um filme que se aproveitaria do sucesso de Sin City. O elenco não era tão estrelado; Zack Snyder, embora talentoso, não tinha o renome de Robert Rodriguez ou Quentin Tarantino; a própria HQ não era tão difundida quanto Sin City. As coisas mudaram com o lançamento do primeiro trailer. O visual fantástico transformou a prévia em um arquivo viral, propagado exaustivamente pela Web. “Foi o Serpentes a Bordo que deu certo” afirmou Snyder sabiamente, referindo-se ao filme de Samuel L. Jackson, que foi sustentado pelo apoio dos fãs na Internet, mas acabou naufragando nas bilheterias por tratar-se de uma verdadeira “bomba”. Devido a rápida difusão boca-a-boca, a Warner percebeu o potencial de seu produto e tratou de inundar a maioria dos filmes do ano com diversos trailers de 300.

Snyder provou para Hollywood que é possível fazer um filme com censura 17 anos obter sucesso nos EUA. Para isso, bastam qualidade e uma propaganda inteligente e eficiente, capaz de vender o "produto" junto ao seu público. O sucesso do longa deve atrair os estúdios para este novo esquema, que prevê orçamentos menores e retorno certo graças aos nichos de mercado. Quem diria que a pioneira Hollywood demoraria tanto para adotar o famoso esquema de segmentação de mercado?